Esferas celestes

Não se trata de Metafísica,
do homem perdido no infinito
das esferas celestes,
mas de solidão vulgar,
esta comum falta de comunicação
dos centros urbanos,
de homens perdidos entre homens.
Não se trata de espaços celestes,
mas do espaço do apartamento
a esta hora tardia
onde tanto me falta
a presença de alguém.

Feliz e não sabia

HOUVE UM TEMPO,
tempo em que eu não me conhecia,
eu era jovem, promissor,
e decerto venceria.
Tempo em que eu me sentia
um eleito com toda primazia.
Eu era o maestro
e meu destino a sinfonia.
Tempo em que eu me media
pelo que julgava que podia
e o futuro se faria como réplica
do que eu me atribuía.
Bons tempos aqueles
em que eu queria vencer
e achava que venceria.

Houve um tempo
em que a todos eu criticava
e a mim mesmo não me via,
presunçoso que era
e nem sabia.
Radical, eu empacava e intransigia,
mas era alienado e não sabia.
Eu me pavoneava, me enaltecia,
sendo medíocre mas não sabia.
Eu errava e mesmo errando eu insistia,
provinciano, mas não, não sabia.
Para ser sincero,
naquele tempo eu não sabia nada
mas achava que sabia.
Eu me sentia capaz da maior das poesias
e a poesia passava do meu lado
e eu nem sentia.
Bons tempos aqueles.
Eu era feliz e não sabia.

Velho

Tantos anos viajando
em mar aberto,
quantos lanhos
de vã luta por causa vã.
Olha aqui meus queimados
pelo fogo fátuo das frivolidades.
Não queiras saber das histórias
de minhas andanças por aí.
Se bem que sei que as sabes.
Tudo sabes de mim, não é?
Eis que volto e te encontro
aqui na varanda.
Adivinhavas minha chegada?
Aposto que estás aqui desde sempre.
Que tal supormos que tudo
aconteceu entre duas badaladas
do teu velho carrilhão.
Ainda funciona?
Sei que podes, pelo que és, pois,
preciso de ti uma vez mais.
Me ensina este olhar
que transpõe o horizonte,
o aperto da tua mão nodosa
que me aperta a alma,
este silêncio que diz tanto.
Quero ser rocha, ungüento, sal.
Pai, me ensina,
que meu filho me espera.

Temporão

Descobri tarde o amor.
Tarde descobri
que não era gênio.
Tarde encontrei a poesia.
Me despi tarde das vaidades.
Bem tarde concluí
que precisava de leitores
para meus versos.
O óbvio, em mim,
chega tarde
como tarde cheguei
ao encontro comigo mesmo.
Tarde me vi no espelho,
tarde abri aquela carta
esquecida na gaveta.
Sou assim. Sempre vejo
minhas vagas idéias geniais
se convertendo em fatos geniais
pela mão dos outros.
Sou eu: o que acontece tarde…

Demais.

Quê te consome?

Quê te consome na rua?
O primeiro fio de cabelo branco
na cabeleira já não tão vasta.
O zero a menos no teu contracheque.
O rebolado da morena
que passou há pouco.
Teu encontro com quem não vem.
Aquela dor de dente?

O que te consome
diante da folha em branco
na hora de parir um verso?
Falta de assunto.
A seita literária da semana.
Aquele poeta guru
que tanto falam mas ninguém leu.
A nova rima tecnoendergonorgética.
O iminente apocalipse poético?

Ora, meu amigo.
Há algo errado com você.