Aparição

Numa dessas noites
em que se pisa em navalhas
e não sei de onde
surgem vozes
te convidando ao desespero,
deparei com uma figura
cinérea e crua,
numa rua escura e nua.
Rua deserta em noite fria
em meio a bruma eu via
a figura a me acenar,
chamando com indolência
para que a seguisse
para que, enfim, eu visse
o que nunca veria a ciência
por mais que progredisse.
A figura , que quando a vi
mais de perto
era uma mulher bela
em trajes negros e discretos,
me acenava e dizia
num volume que mal se ouvia:
‘Vem, sou a morte, vem.’
O fascínio do chamado
me tomava.
Em mim, a dúvida
me açoitava
e mesmo que perguntas
eu fizesse
a figura a nada respondia.
A única frase que dizia
para tudo que eu pedia era:
‘Vem, sou a morte, vem.’
Num instante passou
em minha mente
o inventário de meus tormentos.
Em pouco tempo
pensei em tanta dor e sofrimento,
repassei angústias,
lembrei lamentos.
E a cada lembrança doída
correspondia um passo
na direção da figura
que me pedia o braço.
Meu coração acelerava.
Nas veias o sangue
corria, disparava
e a figura sussurrava:
‘Vem, sou a morte, vem.’
Estando já a um passo
do abraço da figura,
antecipando em pensamento
algo novo, bom e sem igual,
todos os segredos, enfim, revelados,
a explicação geral,
o céu, o nada,
a mim o que importava
naquela hora
era o alívio da chegada.
Pedi, então, a figura:
Agora que estou a um passo
de tua porta,
fala, faz um gesto.
Diz que acertei na escolha
ou ri de minha desgraça
mas qualquer coisa faça.
A figura permaneceu imóvel.
Outras perguntas formulei.
Nenhum sinal rompeu
seu silêncio lívido
de figura frígida
e o passo que me faltava
ficou suspenso na intenção.
Tenso eu disse não.
Voltei um passo atrás
e a figura que fechara os olhos,
abrindo-os murmurou:
‘Um passo, mais um passo
e tudo saberá.
Sem o passo, só um passo
nada se dará.’
Desisti, recuei.
O fascínio feneceu
e a cada passo
que eu retornava
a figura se evolava.
Até que restou só
a noite fria
e a minha dor,
a mesma dor
que eu pensava
dado o passo findaria.

Barata leprosa

Lá do fundo da sarjeta
a barata te observa atônita,
enquanto atônito a observas.
E se cair do céu agora uma bola de fogo,
uma sucata de estação orbital russa, digamos,
julgas que a barata
será esmagada preferencialmente a ti?L

Baratas

Incansavelmente
exterminamos as baratas,
que viram a extinção dos dinossauros,
que andaram sobre os cadáveres
dos mamutes,
que habitaram nas cavernas
dos homens de Neantertal,
que se escondiam nas frestas
da muralha de Jericó,
que vivem bem no lixo,
que supostamente cobrirá a Terra
e a tornará inabitável.

Cenobitas

Os cenobitas estão entre nós.
Não confies nas aparências.
Aquele respeitável senhor
há pouco, com seus óculos,
sua gravata cinza,
sua Gazeta Mercantil,
talvez ele também um cenobita.
Os cenobitas se camuflam
em mil singelos disfarces,
se escondem nas mais escuras tocas,
usam portas ocultas que ninguém vê,
passam por ti várias vezes ao dia
sem que percebas.
Como vírus oportunistas,
jamais se revelam à luz do dia e
nunca atacam a alma saudável.
Mas te espreitam e farejam a dor
a quilômetros.
Ocultes tua ferida exposta.
É a tua dor que atrai
estes abutres da alma.
Não penses neles,
não os vejas e, principalmente,
jamais os invoques.
Não relaxes,
mantenha-se sempre alerta,
onde menos esperas, eis o cenobita,
talvez aí mesmo,
diante do espelho que miras.

Lamento

Aquela jovem que se aproxima,
delicada,
estupidamente feliz.
Em pouco será minha.
Trêfega virgem
que estiolará antes de florir,
que sabes do mal?
Mas se não eu
outra criatura da noite
há de te aviltar.
Ó, maldição que nos une.
Nem eu nem ti,
singela flor,
veremos de novo
um raio de sol.
Eu que odeio o sangue
e não tenho direito à morte,
sou feito do sangue, pelo sangue,
para o sangue,
também tenho um destino a cumprir.
Paira sobre mim
uma maldição imemorial.
O mal está em mim.
Mas não veio a mim
pela minha própria mão.
Pequei, há muito.
E como paga pelo pecado primeiro
sou condenado ao pecado eterno.
Eis porque meus olhos cintilam
diante do sangue
e nutro este mórbido gosto pela dor.
Quem me dera
a morte além da morte,
o aniquilamento absoluto,
o apagamento do pó.
Mas porque te digo isto?
Apenas venha para mim,
frágil flor de carne e pureza.
E que venha também logo a estaca.
Lutarei raivosamente contra ela,
como me foi destinado.
E quando ela cravar-se
em meu peito repleto
de podridão e imundície
entrarei sorrindo
no paraíso do nada.