Duas

Estava dividido entre duas metades,
duas escravas suas.
Uma que lhe dava o prazer
e pedia-lhe a mão,
de quem tirava todos os véus do corpo,
talvez da alma,
a do estupendo gozo gritado,
a rainha da noite
que sonhava ser
sua rainha do lar.
Outra que lhe dava
a fachada do respeito,
dama de forno e fogão,
a do inigualável bolinho de bacalhau,
rainha do lar,
com quem não tinha
e a quem não dava o prazer
e que se olhava sozinha no espelho
erguendo a saia,
mostrando a coxa,
sonhando em segredo
ser a rainha da noite.
Duas metades que se completavam
e nunca se uniriam.

Um país

Brasil,
Brasil que me pariu,
eu sou você
e você é mil,
é mais, é quantos?
é tantos,
quantas caras,
tantos tipos,
muitos jeitos,
quantos ritos.
Brasil,
que eu faço
e que me faz.
Que vai a mil
para o ano dois mil.
Para onde, Brasil?
se a inflação explodiu,
se o ministro caiu,
o corrupto fugiu,
o emprego sumiu.
A rebelião no presídio,
uma chacina no vídeo,
o genocídio do índio,
um desempregado
comete suicídio.
O milagre gorou,
o ufanismo acabou,
o progresso parou,
o povo chorou,
a grande obra ficou
pelos alicerces.
Um pivete na rua,
a realidade crua
e o homem na lua.
Para onde, Brasil?
Brasil de matas e queimadas,
de ouro e de trapaças,
de alegrias e desgraças,
sob um céu de anil,
no Brasil varonil,
que amor, que sonhos, que flores,
numa terra de tantos primores,
debaixo de palmeiras
onde canta o sabiá.
Pra onde, Brasil?
Terra de Santa Cruz,
Terra de Vera Cruz,
da minha, da tua, da nossa cruz.
Para onde?
Pra quando?
Pra quem?
se ordem não tem,
se o progresso não vem,
se o sabiá já não canta
na palmeira que já não há.
Pra quem?
Pra quando?
Pra onde?
me diga, Brasil,
se Deus é brasileiro,
se teu céu tem mais estrelas,
se não verei país nenhum como este.
Sem resposta
você segue, Brasil,
mesmo no escuro,
mesmo contra o muro,
mesmo levando murro.
Brasil,
não me engano,
não me ufano,
não reclamo.
Amo
e assumo.

Lições de poesia

Manuel Bandeira

Caderno de classificados

João Cabral

Mapa do Brasil

Camões

Lista telefônica

Drummond

Corrente de orações

Fernando Pessoa

Banheiro de rodoviária

Leituras de trás para frente

os meios justificam os fins

os pobres dão empregos aos ricos

mais vale dois pássaros voando que um na mão (ecologicamente)

a poesia não entende o grande público

todo cidadão é culpado até que prove sua inocência

Platonismo

O amor em si,
o amor a nada,
é inútil e inodoro.
Apenas decora
com sua beleza fria
a estante do filósofo.
Meu amor por ti
tem o gosto salgado
da tua pele
e me escolhe,
me tatua,
me talha.

O amor etéreo,
como uma reta,
se estende ao infinito
nas mentes matemáticas.
Meu amor por ti
queima indefeso ao vento.
Pode se apagar com a estação
ou talvez me ilumine a vida,
pois está na rua,
sangra, luta e sua.
Meu amor por ti
é um ser vivo.

O amor em tese
não dá trabalho.
É límpido, puro
e só precisa de contemplação.
Meu amor por ti
é conquista diária,
é campo de batalha.
Com ele não sei lidar,
e me queimo e me corto
e não o controlo,
pois não é hipótese, é fato.