Muro

Sonhou com o frufru dos cetins,
com um buquê de rosas vermelhas
sobre a mesa,
o champanhe francês
no baldinho com gelo,
dois cálices delgados, elegantes,
um sapato sobre o tapete persa,
o sutiã na cadeira,
a suave música de Glenn Miller
e lá fora a melhor vista da cidade
numa noite quente e estrelada.
Sonhou.
Mas a sua primeira vez
foi ali atrás do muro, em pé.
Algo escorreu pela coxa
e um pingo da saliva dele
caiu sobre o ombro
na hora do último arranco.
Doeu um pouco e logo passou.

Inacinho

Esses dias lembrei do Inacinho,
crítico sistemático
da sociedade consumista,
que se definia como
o legítimo rebelde sem causa,
o errado de carteirinha,
o avesso da cartilha do bom moço,
que adorava passar na rua
com seu cabelão comprido,
seboso e desgrenhado
para ouvir o comentário:
‘Este mundo está perdido.’
Hoje, em que se use
comprido, raspado ou colorido
ninguém pára mais
para olhar o cabelo dos outros
ainda bem que o Inacinho
se tornou empresário,
dono de uma grife
de moda alternativa
e contestatória.

Gilda

Lembra da Gilda,
curitibano dos trezentos anos?
Não a mulher fatal do cinema,
a Gilda de Curitiba.
Esses dias passei na Rua das Flores:
Cadê a placa póstuma da Gilda
ao pé da árvore
na frente do bondinho?
Para quem não é daqui:
Gilda foi um mendigo, louco e bicha.
Já viu combinação mais infeliz?
Daqueles loucos que havia,
estavam sempre na rua,
como se vivessem do vento.
Gilda foi o último louco
folclórico de Curitiba.
Sua residência oficial
era a Rua das Flores,
o cartão postal da cidade.
Para uns incômodo, vergonha.
Para outros, motivo de galhofa.
Por muito tempo foi o louquinho
que a família curitibana
não trancou no porão.
Um dia apareceu morto,
provável, numa briga de mendigos.
E pergunto:
Por que não Rua Gilda?
ou Alameda Gilda?
ao menos Travessa Gilda?
Ou os loucos folclóricos
não são história?
Que memória é esta
que preserva generais sem guerra,
corruptos de bitola larga,
aristocratas inatingíveis,
enganadores do povo diplomados
e se esquece da Gilda.
Tá certo: louco, mendigo e bicha.
Mas se lhe falta título
por que não:
filósofo do cotidiano,
humorista performático,
vanguardista dos costumes?
Se lembraram de tantos
que nem mereciam.
Por que não da Gilda?
Cala-se Curitiba,
classe média em tudo.
Tua memória será
a do pinheiro tombado,
a da gralha que já não voa,
mas não da Gilda.

Lambrequins

Na minha Curitiba
tem uma casa de madeira.
Na varanda com mureta de alvenaria,
a samambaia, a gaiola e o canário
melhor que qualquer radiola.
O teto, desnecessariamente inclinado
para o clima sem neve
abriga o sótão baixo onde
três gerações empilharam segredos.
Os pilares de tijolo a mantém suspensa.
No vão que se cria abaixo do piso
o vento gelado galopa como um huno,
guarda-se restos de uma vida
e nascem ninhadas de viralatas pulguentos.
Do beiral pingam lambrequins rendados.
Estalactites de saudade?
Lágrimas de passado?
Na sala, o quadro oval colorido a mão.
O casal eterno solidifica o lar.
Uma chaminé estreita
desenrola novelos de fumaça.
O fogão econômico aquece os calafrios da alma
com brasa boa de bracatinga.
Pela janela da cozinha
uma iaia com lenço na cabeça espia longamente
a espera de quem não vem.
Na parede do quarto o Cristo com coração em chamas,
olha por todos, até pelos de alma rota.

Vez ou outra esta casa passa
pela janela do ônibus ligeiríssimo.
Passa de relance e fica para trás,
não sei onde, não sei quando.
Decrépita, alguns lambrequins faltam no beiral.
A casinha sorri seu sorriso banguela
para o curitibano expresso.

Ode à bunda

Que outro, não eu,
suave, a serena face,
os expressivos olhos cante.
Cantarei a última flor do corpo,
primeira no pensamento,
a multifuncional, curvilínea,
nacionalmente preferida bunda.