Fim de noite

Em silêncio você anda na rua
e o tropeço no desejo
de viver paixão imensa
como a que você viu
no cinema, mas muito distante
desta tua noite de luzes cansadas.
Você é uma sombra que caminha
sob o silêncio da rua
de encontro ao silêncio do quarto,
ao silêncio do sono,
rumo à vida suspensa e muda.
Teus dias sempre os mesmos repetidos dias.
Uma surda fome de emoções vivas.
Você pensa no grande amor
que tanto te falta
nesta hora de coração selvagem.
Pensa na vida em alta voltagem
que só a literatura ofertou,
assim concentrada e quente.
E você se dirige
ao teu mundo de silêncio
esperando que na rua
surja de súbito,
mulher, talvez uma carta
ou simplesmente um aviso
Você aguarda seu momento de farta energia,
sua vida saindo da rotina vazia.
Nessa cidade enorme que não tem fim
você busca a parte da vida
que te abarrotará o coração
e como você, talvez ali mesmo na esquina,
alguém se consome na mesma procura.

Habitat

No final da tarde,
sob o viaduto imenso,
considero a dimensão da realidade.
Pessoas, buzinas, concreto
escoam em chamas
pelo retrovisor.
A noite beija o asfalto.
Elétrica e nervosa a vida pulula
na dura geografia metropolitana.
Cansada, a cidade se veste para a noite.
A fauna das esquinas
exibe seus tesouros e nada pára.
Decididamente esta cidade
não cabe em mim.
Sou uma bolha de carne pulsante.
Volto do trabalho cansado
e as coisas não estão no lugar.
Trabalhei. O mundo ficou melhor?
Logo estarei em casa,
onde, me aguardam,
onde me guardo.
A senhora da noite segue rugindo
seu canto áspero e sedutor,
como fera, como mãe, como máquina.