Bilac

Nas minhas caminhadas
por este mundo a parte,
é diante de ti que estaco,
como arqueólogo diligente
sobre pergaminhos cifrados
de uma civilização passada.
Amaste com fé e orgulho,
tombaste em prol do estilo
e eu que não amo e não tombo
rio de teu mundo saudável
quando o risível sou eu.
Ah, se ainda houvesse tema elevado,
se fosse possível soneto bem torneado,
se não houvesse escombro e caos.

Troféus

Veja aqui os troféus
da tua experiência:
uma acuidade milimétrica
para as próprias limitações,
alguns objetos de fetiche
a ornar teu castelo de papel,
o escudo de palavras ocas,
a fina ironia de cristal,
a consciência de morrer.
Veja mais:
que dissimulação primorosa
dos sentimentos,
que capacidade de não sentir,
que silêncio na veia quase imóvel.
Ah, não querer nascer de novo,
não se arrepender de nada,
fazer malabarismo com facas,
e abrir a porta em silêncio para a dor.
Que bom não se ver no espelho,
não ouvir a boca úmida que te beija ao longe
e lá no fundo, a brasa quase sem luz,
que eventualmente te faz humano,
e te põe a buscar uma ordem rigorosa
para as palavras.