Pretensão

Às vezes me pergunto
com que direito falo da dor,
se mal a conheço,
se canto os problemas do poeta
quando problema é ser analfabeto.
Eu que falei da vida
como fardo, quando é dádiva,
aos que sabem a dor verdadeira,
minhas desculpas, meu respeito.
Por favor, não me levem a sério.
Coloquem meu poema em seu devido lugar:
depois do sofrimento agudo,
depois da perda lancinante,
depois da áspera realidade.
Depois, só depois,
minhas buscas menores:
as perdas e danos do amor,
o tempo que me foge,
a palavra que não encontro.

Dor

A dor verdadeira,
a legítima dor,
dor de perda imensa,
de injustiça atroz,
esta dor te beneficia?
A dor te torna duro?
Torna-te puro?
Te faz exemplo
ou cão sarnento?
A dor presente te
impermeabiliza
contra a dor futura?
A dor te recoze a têmpera?
Arrasa ou solidifica?
Revolta ou edifica?
Pode a dor tatuar
linhas de virtude
entre os calos de tua mão?
Se não pode, quê pode então?
Só açoita pelo sabor do estalo?
Só escarifica a alma porque
também o vento escarifica a pedra?
Ah, mas para quê
se ocupar das mil
mal vislumbradas
funções da dor
se te basta saber
que ela existe em ti
como o espinho pertence ao cacto
que produz belas flores no deserto.