Bilac

Nas minhas caminhadas
por este mundo a parte,
é diante de ti que estaco,
como arqueólogo diligente
sobre pergaminhos cifrados
de uma civilização passada.
Amaste com fé e orgulho,
tombaste em prol do estilo
e eu que não amo e não tombo
rio de teu mundo saudável
quando o risível sou eu.
Ah, se ainda houvesse tema elevado,
se fosse possível soneto bem torneado,
se não houvesse escombro e caos.

Platonismo

O amor em si,
o amor a nada,
é inútil e inodoro.
Apenas decora
com sua beleza fria
a estante do filósofo.
Meu amor por ti
tem o gosto salgado
da tua pele
e me escolhe,
me tatua,
me talha.

O amor etéreo,
como uma reta,
se estende ao infinito
nas mentes matemáticas.
Meu amor por ti
queima indefeso ao vento.
Pode se apagar com a estação
ou talvez me ilumine a vida,
pois está na rua,
sangra, luta e sua.
Meu amor por ti
é um ser vivo.

O amor em tese
não dá trabalho.
É límpido, puro
e só precisa de contemplação.
Meu amor por ti
é conquista diária,
é campo de batalha.
Com ele não sei lidar,
e me queimo e me corto
e não o controlo,
pois não é hipótese, é fato.

Corpo

Vejo meu corpo no espelho
mas não me vejo. Então, quê vejo?
Meu corpo: janela para o mundo,
que me obedece
em algumas poucas coisas,
mas teima em caminhar sem mim.
Onde termina meu corpo,
onde começo eu?
Ou não há fronteira possível
entre nós?
Se minha mão fosse decepada
eu vendo-a diria:
aquilo não sou eu.
Há linha divisória
por onde passa a faca
sem que meu corpo deixe
de ser minha morada?
Ah, não direi mais: meu corpo.
Sou eu no espelho, não ele.
Não importa se o percebo
a partir da fria gelatina
da quinta dimensão.
Estamos destinados um ao outro.