Ano novo

Mais um ano passou.
Tantas você fez.
Quantas por fazer.
Você se dividiu
em páginas, buzinas,
promessas e pele suada.
Você viu o arco-íris
em preto e branco
e no meio do caminho
não havia pedra,
não havia nada.
Você colocou um tango argentino
mas o toca discos pifou.
E lhe serviram
dobrada à moda do Porto,
mais que fria, gelada.
Você correu atrás do metal,
ganhou uma gastrite,
saldou uma velha dívida.
Você lutou,
foi forte, foi fraco.
Você acordou tarde,
tropeçou no saguão.
O pneu furou
no meio da tempestade.
Você encheu de orgulho
alguém que lhe quer bem.
E não lhe reconheceram,
lhe puxaram o tapete,
E você passou rasteira,
ficou entre o corpóreo e o etéreo,
o ato e a omissão.
Amou quem não lhe amou,
mas alguém lhe amou
e você nem notou.
Você adiou seu sonho
e não viu mudança nem melhora.
Com você alguém gozou,
por você alguém sonhou,
sem você alguém sofreu.
Você apostou,
ganhou e perdeu,
se perdeu, amadureceu,
oxidou, reciclou e se restabeleceu.
Agora põe tudo na balança
que vai pender para onde você quiser,
pois é você quem dá o peso aos fatos.
Você, talvez contente
só de estar vivo.
Talvez inconsolável
sobre as honras de muitas conquistas.
Em balanço de vida
nunca batem ativo com passivo.
Ora, para uns a vida é bela,
para outros bela merda.
No fim o que importa
é o seu compromisso com a vida.
Se você está pronto para ela
está pronto para o novo ano.

Papel em branco

Fatigado esperas um dia
em que o tempo comece de novo.
O passado se esfumando por mágica
e voltas a ser prancheta vazia.
Tua vida rescrita
em límpido couche.
Aguardas teu dia de remissão,
teu segundo nascimento,
não um sinal no calendário,
mas um dia em que a vida exala
um ar de pureza e frescor
e as esperanças não resultam inúteis,
os problemas são objetos solúveis
e há um excelente motivo
para continuar a viver.
Que impulso te compele a esta busca,
a esse brilho nos olhos
que te faz tão humano
e nos faz tão iguais
na espera desse dia:
Quem não o espera?

Cinzas

Nem tudo termina na quarta-feira de cinzas.
Ainda te resta uma centelha de vida
pulsando na veia, que vai germinar
em vontade de novos carnavais.
O fim de alegria não é
o fim da vontade de alegria.
Em teu peito te esperam latentes
noites de emoção galopante
e se não vier a utopia, saiba,
em ti estará sempre renascendo
a esperança de outro carnaval.
Por mais que você esbanje
seu potencial de desejo
e passe por outras quartas de cinzas
o carnaval se promete no fundo de si.
Você palmilha a rua vazia
enquanto o sol nasce como sempre
a leste todo dia
e tudo a sua volta
cumpre o ritual da renovação.
Dormente na quarta-feira, breve,
você verá crescer
o anseio de um novo momento,
mágico e intenso,
festival de ascensão e queda,
orgasmo e prostração,
como foi, como será.

Chances

A chance de teu grande amor
na próxima esquina,
é a mesma de um bilhete de loteria,
mas você confia.
A chance de redenção nesta hora vazia
é menor que a de teu grande amor
mas você confia.
Confia apesar da pequena chance
de todas as grandes coisas da tua vida.
Além de todas as chances
pequenas ou grandes
você continua. Avança.
Amanhã talvez não seja
melhor que este dia esquartejado na tarde
mas é só o dia que agoniza.
Atravessando a tarde tua esperança irradia.
No meio da rua,
no rio de corpos correndo atrás da vida
que como você contam com poucas chances
para seus grandes planos,
entre eles você continua. Pulsa.
Tua esperança segue na rua.