Descoberta

A grande descoberta de minha vida
foi que não me importo em descobrir nada.
A vida como planura,
o silêncio do deserto como sinfonia.
O coração seco, o olhar cristalino.
A aceitação de mim como concha fechada.
Vejo e já perdi o que vi.
Minha solução como ausência de soluções.
A desistência do eu
em ser forma de mistério.
E tudo é puro olhar
e nada me preocupa ou faz querer
desvendar o que quer que seja.
Uma distância me separa
dos objetos que percebo.
Mas percebo-os e é tudo.

Estilo

O estilo brota de um líquido turvo.
Inicialmente viscoso.
De começo dissolvidos nele
líquidos menores, essências supérfluas.
O estilo ainda ali não nasceu. Espera.
Filtros. Destilações, adsorventes.
O líquido flui mais solto nos jarros.
Só a purificação laboriosa
traz o estilo transparente.
Mas como a completa permeabilidade à luz?
Esta utopia, a da pura pureza
é a que se busca com olho lente.
Do outro lado, mas paralelamente
o artista busca a vida destilada.
Uma existência de arquitetura precisa.
Burilar o estilo e a vida,
projetos conjuntos, utopias irmãs.
Não amplificar a vida. Reduzi-la.
Desbastar seus ramos.
Faze-la disciplinada.
Mirrar os caules verdes,
secar todos os oásis da angústia.
Planura e horizonte azul.
Num ponto se confundem estilo e vida:
no seu ir para.

Fóssil

Entre rochedos,
sob um céu azul e imaculado,
um homem procura,
algo semelhante a fósseis,
tal crânios de primatas,
como lenho petrificado,
uma vida estéril
aos garimpos da angústia.
Entre pedras a procura
de um modo de existir
alheio a vento e tempestade.
Uma pesquisa entre pedras,
este desejo de uma vida pétrea,
a vida como um objeto inerte,
de onde não nascem brotos,
onde não minam lágrimas,
não será pesquisa estéril?
Este ideal de ser para ver,
de ser para ser,
pode ou apenas se promete?

Cacto e pedras

O hábito de viver se limitando
ao hábito de persistir,
como pedras ao sol,
como cacto no deserto,
como pedras, como cacto.
Que ciência mais profunda
que esta ausência de sabedoria
encontrável nos desertos?
O deserto nos ensina
por não dar lições
a lição do silêncio pleno.
Uma vida sem oásis,
sem problemas, sem contrastes.
Ser para ver.
Ser para ser.
E tudo que vai além
da mensagem dos sentidos
fenece como erva no deserto,
nesse deserto de vida,
nessa vida sem umidade,
plana e horizontal,
como cacto,
como pedras no deserto.