Autópsia

Um homem não é seu discurso
e o canto não vale pelo autor.
Se vale, vale por si.
Refletir-me nos versos?
Mesmo velhos poetas, imbuídos
de sincero amor pela palavra
e a duras penas libertos da vaidade
não se despem inteiros no espelho da arte.
Sempre resta oculto um dente escuro,
uma sinal de nascença,
porque existe distância entre
as prioridades literárias
e a realidade da vida,
e à arte, supostamente,
interessa mais o que é da natureza humana,
que as tristes limitações individuais
do caráter, do sangue.
Se falo de mim,
já que estabelecido há séculos
que a argila do poeta é o eu profundo,
é por obediência
aos desígnios da Poesia
a quem sirvo devotadamente
nos limites de minha capacidade.
Imito a perícia do legista
mas não corto tão fundo.
Pouco em mim é de valor literário.
O são certas fraquezas específicas
e bem escolhidas num universo maior
de ricas limitações.
E além das pobrezas que canto
quantas outras nem vislumbro,
provável mais terríveis e primeiras,
ou julgas mais fácil enxergar a si
que ao outro?
O melhor de mim, se há, é o verso
que mal floresce e já não está em mim,
e se resulta oco e sem melodia
consideres que a laboriosa gestação,
comumente o faz superior à boca que o sopra.

Troféus

Veja aqui os troféus
da tua experiência:
uma acuidade milimétrica
para as próprias limitações,
alguns objetos de fetiche
a ornar teu castelo de papel,
o escudo de palavras ocas,
a fina ironia de cristal,
a consciência de morrer.
Veja mais:
que dissimulação primorosa
dos sentimentos,
que capacidade de não sentir,
que silêncio na veia quase imóvel.
Ah, não querer nascer de novo,
não se arrepender de nada,
fazer malabarismo com facas,
e abrir a porta em silêncio para a dor.
Que bom não se ver no espelho,
não ouvir a boca úmida que te beija ao longe
e lá no fundo, a brasa quase sem luz,
que eventualmente te faz humano,
e te põe a buscar uma ordem rigorosa
para as palavras.

Ser

O que fui,
o que pensavam de mim,
o que sou,
o que finjo ser,
o que penso que sou,
o que pensam de mim,
o que dizem a mim de mim,
o que quero ser,
o que querem que eu seja
o que quero que pensem de mim,
o que posso ser,
o que serei,
o que não quero ser,
o que não serei.

Pudor

Revelo-me quando me dispo.
Revelo-me quando me calo.
Falo quando falo,
mais falo quando travo.
Sou de uma transparência obscena
a qualquer um que resolva
me esquadrinhar.
Nem tento mais me esconder
dos olhos dos outros,
dos meus próprios olhos.
E por que haveria de fazê-lo
se não há manto
nem quarto escuro sem espelho
para minhas limitações.

Corpo

Vejo meu corpo no espelho
mas não me vejo. Então, quê vejo?
Meu corpo: janela para o mundo,
que me obedece
em algumas poucas coisas,
mas teima em caminhar sem mim.
Onde termina meu corpo,
onde começo eu?
Ou não há fronteira possível
entre nós?
Se minha mão fosse decepada
eu vendo-a diria:
aquilo não sou eu.
Há linha divisória
por onde passa a faca
sem que meu corpo deixe
de ser minha morada?
Ah, não direi mais: meu corpo.
Sou eu no espelho, não ele.
Não importa se o percebo
a partir da fria gelatina
da quinta dimensão.
Estamos destinados um ao outro.