Pássaro migrador

Vejo no céu o pássaro migrador.
Daqui pressinto seu anseio
de encontra pousada.
Mesmo exausto ele segue
traçando redemoinhos,
curvas insolúveis.
Fia em trajeto aleatório
um labirinto de caminhos,
entrecruzados, circulares
e ao fundo o mesmo horizonte frio
nascendo a cada dia.
Sempre que olho para o céu
esse pássaro sombrio navegando o firmamento.
Não desiste? Não se estropia?
Ao fim da tarde estou cá a olhar
o desenho mágico dessa ave louca.
Sem descanso voa, voa ….

Éden

Deus criou
o Homem e a Mulher
à sua imagem e semelhança.
Um dia arrependeu-se
da dor que lhes causava
e os tornou mortais
para livra-los
do castigo da eternidade.

Longevidade

Vivêssemos
duzentos anos, seria pouco.
Trezentos anos, ainda pouco.
Mil anos, pouco mais que pouco.
Vivêssemos a eternidade
seria demais.

Heráclito de Éfeso

Divino oráculo que soprais palavras de fogo,
sábias mensagens dignas de lavrar no mármore,
preciso tom para as sumas verdades,
que verdade há, senão, a contínua renovação
das águas do rio?
O mundo que habitamos: uma chama palpitante,
caminhos que sobem e que descem,
num perpétuo mágico fogo contínuo.
Tudo, a púrpura túnica que te orna o corpo,
os fumos olorosos que procuram o céu,
as espadas que se cruzam em batalha,
os corpos que se queimam na brasa do amor,
tudo não é a mesma coisa por mais
que um incomensurável instante.
Neste mundo o eterno devir,
a luta entre contrários, a tudo rege.
E não nasce o mesmo astro por duas repetidas vezes.
Já outro astro lhe assumiu a rota quando se pôs.
O fogo: a moeda de tudo.
Todas as trocas se dão pelo fogo.
A matéria se retrai, resfolega e crepita.
Os fumos da combustão, por movimento descendente
se adensam de novo e de novo formam
matéria para o eterno fogo.
Saibam os que desejarem na razão se alimentar:
a eternidade para nada há.
A cada avanço do carro celestial de fogo
o cosmos é um novo cosmos.
Oh, voz do oráculo, segredai aos pobres mortais
que tudo nada dura.
Apenas assistimos ao eterno devir.

Pedra de Sísifo

Sísifo sobe a encosta e do seu rosto
verte o suor de seu esforço.
Rolando a pedra sempre para cima
imagina um término para sua sina.
Sísifo, não sabes por ventura
que habitas um inferno de procura?
Pensas no fardo que te coube por Destino:
levar a pedra, tua vida, ao alto do cimo.
Não te conformas de ser a vida pedra
que o tempo todo se promete e não se entrega
e nem se completa mesmo que tanto se prometa
nem se explica por mais intensa a busca aflita.
Labutas nesta faina noite e dia
enquanto alheio desta luta o tempo fia
uma túnica que lhe serve de mortalha.
Inútil querer vencer esta batalha.
Só te resta rolar a pedra pela escarpa
esperando a resposta que te escapa.
O teu trabalho é desígnio de Destino
e Destino é o nome que dás ao mistério.
Destino para ti é o que não tem caminho,
além de todos, entre deuses, um deus sozinho.
É a palavra para o que não se explica,
onde toda palavra nada explicita
e o que ali não termina
com certeza dali germina.
Sísifo sobe a encosta e a vida segue igual,
vida de um ponto de vista mais geral
igual em tudo a tudo que virá.
Ser Sísifo é este hábito de labuta
de quem sabe o que no topo se dará.
Sempre a metódica busca
de prosseguir e resignar-se,
de não atingir e enfrentar impasses.
Sísifo me respondas: a pedra te justifica?
Esta caminhada para o cimo nos explica?
Mal de Sísifo não é eterno.
Chega a morte e o leva ao termo.
Mas por mais que a morte insista
vem a vida e já se infiltra.
A vida se renova em cada fruto
e assim se propaga a eterna luta.
A vida na vida se inaugura
e Sísifo, és eterno, pois, nalgum ventre
outro Sísifo agora se encasula.
A mesma pedra, o mesmo olhar a frente
o Sísifo menino presencia.
E se não fosse a luta, esta criança, o que faria?