Pássaro migrador

Vejo no céu o pássaro migrador.
Daqui pressinto seu anseio
de encontra pousada.
Mesmo exausto ele segue
traçando redemoinhos,
curvas insolúveis.
Fia em trajeto aleatório
um labirinto de caminhos,
entrecruzados, circulares
e ao fundo o mesmo horizonte frio
nascendo a cada dia.
Sempre que olho para o céu
esse pássaro sombrio navegando o firmamento.
Não desiste? Não se estropia?
Ao fim da tarde estou cá a olhar
o desenho mágico dessa ave louca.
Sem descanso voa, voa ….

Heráclito de Éfeso

Divino oráculo que soprais palavras de fogo,
sábias mensagens dignas de lavrar no mármore,
preciso tom para as sumas verdades,
que verdade há, senão, a contínua renovação
das águas do rio?
O mundo que habitamos: uma chama palpitante,
caminhos que sobem e que descem,
num perpétuo mágico fogo contínuo.
Tudo, a púrpura túnica que te orna o corpo,
os fumos olorosos que procuram o céu,
as espadas que se cruzam em batalha,
os corpos que se queimam na brasa do amor,
tudo não é a mesma coisa por mais
que um incomensurável instante.
Neste mundo o eterno devir,
a luta entre contrários, a tudo rege.
E não nasce o mesmo astro por duas repetidas vezes.
Já outro astro lhe assumiu a rota quando se pôs.
O fogo: a moeda de tudo.
Todas as trocas se dão pelo fogo.
A matéria se retrai, resfolega e crepita.
Os fumos da combustão, por movimento descendente
se adensam de novo e de novo formam
matéria para o eterno fogo.
Saibam os que desejarem na razão se alimentar:
a eternidade para nada há.
A cada avanço do carro celestial de fogo
o cosmos é um novo cosmos.
Oh, voz do oráculo, segredai aos pobres mortais
que tudo nada dura.
Apenas assistimos ao eterno devir.

Pedra de Sísifo

Sísifo sobe a encosta e do seu rosto
verte o suor de seu esforço.
Rolando a pedra sempre para cima
imagina um término para sua sina.
Sísifo, não sabes por ventura
que habitas um inferno de procura?
Pensas no fardo que te coube por Destino:
levar a pedra, tua vida, ao alto do cimo.
Não te conformas de ser a vida pedra
que o tempo todo se promete e não se entrega
e nem se completa mesmo que tanto se prometa
nem se explica por mais intensa a busca aflita.
Labutas nesta faina noite e dia
enquanto alheio desta luta o tempo fia
uma túnica que lhe serve de mortalha.
Inútil querer vencer esta batalha.
Só te resta rolar a pedra pela escarpa
esperando a resposta que te escapa.
O teu trabalho é desígnio de Destino
e Destino é o nome que dás ao mistério.
Destino para ti é o que não tem caminho,
além de todos, entre deuses, um deus sozinho.
É a palavra para o que não se explica,
onde toda palavra nada explicita
e o que ali não termina
com certeza dali germina.
Sísifo sobe a encosta e a vida segue igual,
vida de um ponto de vista mais geral
igual em tudo a tudo que virá.
Ser Sísifo é este hábito de labuta
de quem sabe o que no topo se dará.
Sempre a metódica busca
de prosseguir e resignar-se,
de não atingir e enfrentar impasses.
Sísifo me respondas: a pedra te justifica?
Esta caminhada para o cimo nos explica?
Mal de Sísifo não é eterno.
Chega a morte e o leva ao termo.
Mas por mais que a morte insista
vem a vida e já se infiltra.
A vida se renova em cada fruto
e assim se propaga a eterna luta.
A vida na vida se inaugura
e Sísifo, és eterno, pois, nalgum ventre
outro Sísifo agora se encasula.
A mesma pedra, o mesmo olhar a frente
o Sísifo menino presencia.
E se não fosse a luta, esta criança, o que faria?