Adoração de Baal

Eu vi em sonho
no futuro esquecido
primitivos adorando
a imagem de Baal.
E Baal era um deus
do início dos tempos,
tempo em que o bem
não havia se separado do mal
e tanto o bem como o mal
existiam no mesmo deus.
Baal tinha duas faces
numa só cabeça.
Numa face havia amor
e na outra, ódio.
Enquanto amor mirava o Norte
ódio fitava o Sul.
E logo ódio estava a Norte
e amor a Sul, pois,
a cabeça girava continuamente.
Com uma mão Baal
semeava maná
e com a outra praga.
Eu vi o ciclo dos tempos
se fechando.

Cosmogonia

No momento primordial o Divino
que pairava sobre o Nada
olhou para a palma de sua mão
e sentenciou: ‘Expande-te, organiza-te
segundo minha vontade,
para meus fins,
tudo conforme minha lei que ora te dou.’
E soprando sua vontade sobre sua palma
fez-se do Nada na sua palma
uma bolha infinitesimal
de absoluto caos.
E como no sopro da vontade do Divino
se estabelecera a existência do tempo
foi num tempo infinitesimal
que a bolha de caos
se expandiu explosivamente
na direção do infinito.
E do que era caos absoluto
emergiram coisas diferenciadas
que se atraem e repelem
segundo as leis sopradas
pelo hálito do Divino.
Começou assim a longa história
da organização das coisas:
por uma bola de fogo
que vinda do Nada
se expande para o infinito.
A contagem do tempo
se distanciou do momento original.
Surgiram coisas como a matéria e a energia.
A bruma cósmica incandescente
se adensou originando bolas rubras
a girar em torno de si e em torno de outras.
Fez-se a luz e o som,
a terra e o fogo,
a água e o ar.
Estando formados os corpos celestes,
num deles, cuja crosta já não ardia,
recoberto por mares estéreis
que cingiam continentes de terra escalavrada
resolveu o Divino pousar sua mão
para que se desse o segundo ato da criação.
E o verbo divino rugiu sobre os mares:
‘ Reproduze-te, modifica-te.’
Isto dito, a mão do Divino inoculou
nas águas uma molécula
que tragou a matéria próxima
unindo pedaços esparsos numa ordem rígida
e liberando no final
outra molécula igual a si.
Assim nasceu a vida
que se organizou mais e mais,
de mutação em mutação,
crescendo em número, variedade e complexidade.
E quando os seres vivos dominaram as águas
passaram à terra e também ao ar
e toda crosta da esfera ficou habitada.
No terceiro ato da criação
estando um símio a espreita da caça
deslizou ao seu lado a sombra do Divino
e o verbo sibilou como brisa leve
na planície onde habitava o símio:
‘ Doravante desejarás ser o que sou.
Lego-te o desejo de atingires
a consciência de tua natureza
e o desejo de suplanta-la,
mas não os meios.
Vai, modifica o mundo
norteado pelo sentido
que tu mesmo darás a tua vida.
Buscarás tudo o que for dado
a tua razão saber.
Para o que tua razão não alcança
e teus sentidos não percebem
criarás tuas próprias conjeturas
que nunca serão confirmadas
mas que usarás como base à tua ética
ou como mera literatura.
Nada saberás de mim,
mesmo que me invoques ou renegues.
Agora estás no mundo com a consciência de si.’
Isto dito, nada mais falou.
O símio que permanecia encolhido
atrás de um arbusto,
vendo que a caça o percebera
e já insinuava a fuga
teve o ímpeto
de catar uma pedra ao chão
e arremessa-la contra a caça em fuga.
Atingiu-a, debilitando-a com o golpe,
o suficiente para captura-la.
Com a caça dominada entre os braços
o símio guinchava de satisfação
enquanto a sombra do Divino
se dissipava na planície.

Éden

Deus criou
o Homem e a Mulher
à sua imagem e semelhança.
Um dia arrependeu-se
da dor que lhes causava
e os tornou mortais
para livra-los
do castigo da eternidade.

Muleta

O velhinho trêmulo
entra na igreja.
Rio de sua fé.
A fé é a sua muleta
E eu, velho,
no que vou me apoiar?

Roma

Todos os caminhos levam a Roma
e Roma, dizem, é uma cidade magnífica,
mas distante e misteriosa.
Todos querem ir a Roma, pois,
no sonho de qualquer viajante
existe a promessa de uma cidade
que é o centro do mundo
para onde todos vão.
Conheço velhos andarilhos
que há muito buscam Roma
mas nem por isso
estão mais próximos dela
que afoitos iniciantes.
Já disseram que um louco incendiou Roma
mas ninguém crê.
Todos seguem palmilhando o caminho
batido pelas pegadas dos que se foram
e muito antes queriam Roma.
E não há mapas. Não há placas.
Não há estrelas no céu indicando Roma.
As bússolas apontam o Norte,
não apontam para Roma.
E o corpo cansa e a mente fraqueja
mas o viajante prossegue
porque só em Roma há pousada.
Roma é a capital do Império,
para onde todos vão.