Porão

Um dia desses, alta madrugada,
apague as luzes, cerre as cortinas,
desligue tudo que produz ruido,
vá até a porta do teu porão
e ouça.
Apure o ouvido
e tente sondar além
das grossas paredes
que você edificou.
Quem sabe
ruídos mínimos venham
pelas frestas da porta.
Sons abafados, lúgubres,
como vozes, como gemidos,
como súplicas.
Preste atenção
ao que lhe chega de além da porta.
Algo se move no cubículo
continuamente,
de um lado para o outro
Seriam passos?
Encoste o ouvido à porta com cuidado.
Um arfar úmido,
uma agitação primitiva,
e então algo arranha a porta
com raiva crescente
e logo passa a bater contra ela.
O arfar se converte em rosnado
e as pancadas começam
a comprometer as grossas tábuas,
pois, o que está lá dentro
já se arremessa contra elas.
O que você fará então?
Te adianto que alguns abrem a porta.
Você tem a chave.
Vai jogá-la ao mar?
Desista.
Sempre haverá uma chave no teu bolso
enquanto a fera urra do outro lado.
A decisão sempre será sua.

Cenobitas

Os cenobitas estão entre nós.
Não confies nas aparências.
Aquele respeitável senhor
há pouco, com seus óculos,
sua gravata cinza,
sua Gazeta Mercantil,
talvez ele também um cenobita.
Os cenobitas se camuflam
em mil singelos disfarces,
se escondem nas mais escuras tocas,
usam portas ocultas que ninguém vê,
passam por ti várias vezes ao dia
sem que percebas.
Como vírus oportunistas,
jamais se revelam à luz do dia e
nunca atacam a alma saudável.
Mas te espreitam e farejam a dor
a quilômetros.
Ocultes tua ferida exposta.
É a tua dor que atrai
estes abutres da alma.
Não penses neles,
não os vejas e, principalmente,
jamais os invoques.
Não relaxes,
mantenha-se sempre alerta,
onde menos esperas, eis o cenobita,
talvez aí mesmo,
diante do espelho que miras.