Sodoma e Gomorra

Renascerão Sodoma e Gomorra.
E todo amor legítimo será banido.
Tudo que é permanente será relegado
em favor do transitório.
Prevalecerá a conjunção bestial.
Será o tempo das grandes prostitutas,
que não estarão duas noites
com o mesmo homem,
ou com a mesma mulher.
E todo homem não estará duas noites
com a mesma mulher
ou com o mesmo homem,
embora todas as noites
homens e mulheres estarão
para a orgia.
Não haverá lugar para suavidade.
Será o amor ao chicote e ao excremento.
Serão idolatrados o corpo e o couro.
Renascerão Sodoma e Gomorra
porque as pedras de suas fundações lendárias
não são pedra,
mas outras pedras
que jazem no fundo
da caverna do desejo.

Adoração de Baal

Eu vi em sonho
no futuro esquecido
primitivos adorando
a imagem de Baal.
E Baal era um deus
do início dos tempos,
tempo em que o bem
não havia se separado do mal
e tanto o bem como o mal
existiam no mesmo deus.
Baal tinha duas faces
numa só cabeça.
Numa face havia amor
e na outra, ódio.
Enquanto amor mirava o Norte
ódio fitava o Sul.
E logo ódio estava a Norte
e amor a Sul, pois,
a cabeça girava continuamente.
Com uma mão Baal
semeava maná
e com a outra praga.
Eu vi o ciclo dos tempos
se fechando.

Cosmogonia

No momento primordial o Divino
que pairava sobre o Nada
olhou para a palma de sua mão
e sentenciou: ‘Expande-te, organiza-te
segundo minha vontade,
para meus fins,
tudo conforme minha lei que ora te dou.’
E soprando sua vontade sobre sua palma
fez-se do Nada na sua palma
uma bolha infinitesimal
de absoluto caos.
E como no sopro da vontade do Divino
se estabelecera a existência do tempo
foi num tempo infinitesimal
que a bolha de caos
se expandiu explosivamente
na direção do infinito.
E do que era caos absoluto
emergiram coisas diferenciadas
que se atraem e repelem
segundo as leis sopradas
pelo hálito do Divino.
Começou assim a longa história
da organização das coisas:
por uma bola de fogo
que vinda do Nada
se expande para o infinito.
A contagem do tempo
se distanciou do momento original.
Surgiram coisas como a matéria e a energia.
A bruma cósmica incandescente
se adensou originando bolas rubras
a girar em torno de si e em torno de outras.
Fez-se a luz e o som,
a terra e o fogo,
a água e o ar.
Estando formados os corpos celestes,
num deles, cuja crosta já não ardia,
recoberto por mares estéreis
que cingiam continentes de terra escalavrada
resolveu o Divino pousar sua mão
para que se desse o segundo ato da criação.
E o verbo divino rugiu sobre os mares:
‘ Reproduze-te, modifica-te.’
Isto dito, a mão do Divino inoculou
nas águas uma molécula
que tragou a matéria próxima
unindo pedaços esparsos numa ordem rígida
e liberando no final
outra molécula igual a si.
Assim nasceu a vida
que se organizou mais e mais,
de mutação em mutação,
crescendo em número, variedade e complexidade.
E quando os seres vivos dominaram as águas
passaram à terra e também ao ar
e toda crosta da esfera ficou habitada.
No terceiro ato da criação
estando um símio a espreita da caça
deslizou ao seu lado a sombra do Divino
e o verbo sibilou como brisa leve
na planície onde habitava o símio:
‘ Doravante desejarás ser o que sou.
Lego-te o desejo de atingires
a consciência de tua natureza
e o desejo de suplanta-la,
mas não os meios.
Vai, modifica o mundo
norteado pelo sentido
que tu mesmo darás a tua vida.
Buscarás tudo o que for dado
a tua razão saber.
Para o que tua razão não alcança
e teus sentidos não percebem
criarás tuas próprias conjeturas
que nunca serão confirmadas
mas que usarás como base à tua ética
ou como mera literatura.
Nada saberás de mim,
mesmo que me invoques ou renegues.
Agora estás no mundo com a consciência de si.’
Isto dito, nada mais falou.
O símio que permanecia encolhido
atrás de um arbusto,
vendo que a caça o percebera
e já insinuava a fuga
teve o ímpeto
de catar uma pedra ao chão
e arremessa-la contra a caça em fuga.
Atingiu-a, debilitando-a com o golpe,
o suficiente para captura-la.
Com a caça dominada entre os braços
o símio guinchava de satisfação
enquanto a sombra do Divino
se dissipava na planície.

Pedra de Sísifo

Sísifo sobe a encosta e do seu rosto
verte o suor de seu esforço.
Rolando a pedra sempre para cima
imagina um término para sua sina.
Sísifo, não sabes por ventura
que habitas um inferno de procura?
Pensas no fardo que te coube por Destino:
levar a pedra, tua vida, ao alto do cimo.
Não te conformas de ser a vida pedra
que o tempo todo se promete e não se entrega
e nem se completa mesmo que tanto se prometa
nem se explica por mais intensa a busca aflita.
Labutas nesta faina noite e dia
enquanto alheio desta luta o tempo fia
uma túnica que lhe serve de mortalha.
Inútil querer vencer esta batalha.
Só te resta rolar a pedra pela escarpa
esperando a resposta que te escapa.
O teu trabalho é desígnio de Destino
e Destino é o nome que dás ao mistério.
Destino para ti é o que não tem caminho,
além de todos, entre deuses, um deus sozinho.
É a palavra para o que não se explica,
onde toda palavra nada explicita
e o que ali não termina
com certeza dali germina.
Sísifo sobe a encosta e a vida segue igual,
vida de um ponto de vista mais geral
igual em tudo a tudo que virá.
Ser Sísifo é este hábito de labuta
de quem sabe o que no topo se dará.
Sempre a metódica busca
de prosseguir e resignar-se,
de não atingir e enfrentar impasses.
Sísifo me respondas: a pedra te justifica?
Esta caminhada para o cimo nos explica?
Mal de Sísifo não é eterno.
Chega a morte e o leva ao termo.
Mas por mais que a morte insista
vem a vida e já se infiltra.
A vida se renova em cada fruto
e assim se propaga a eterna luta.
A vida na vida se inaugura
e Sísifo, és eterno, pois, nalgum ventre
outro Sísifo agora se encasula.
A mesma pedra, o mesmo olhar a frente
o Sísifo menino presencia.
E se não fosse a luta, esta criança, o que faria?

A besta de Tebas

Há muito tempo, próximo a Tebas
habitava uma besta com corpo de animal,
rosto de mulher e frágeis sentimentos humanos.
Obcecada por um enigma,
a besta atacava os viajantes,
ofertando-lhes a vida ou a morte
segundo a resposta que lhe dessem.
Como os mortais não satisfaziam
sua ânsia de esclarecer o enigma
a besta a todos devorava
e passou a ter consigo a certeza
que apenas um semideus saciaria
sua angustiada curiosidade.
E ocorreu que certa feita
Édipo, um semideus,
cruzou o caminho da besta.
O enigma foi proposto
mas Édipo não compreendeu
e disse à besta que o enigma era o homem.
A besta, estranhamente não o devorou
mas desistiu de buscar a solução do enigma.
Acometida de repentino desespero
lançou-se ao abismo.
Então propagou-se a lenda
que Édipo venceu a esfinge.