Pedra de Sísifo

Sísifo sobe a encosta e do seu rosto
verte o suor de seu esforço.
Rolando a pedra sempre para cima
imagina um término para sua sina.
Sísifo, não sabes por ventura
que habitas um inferno de procura?
Pensas no fardo que te coube por Destino:
levar a pedra, tua vida, ao alto do cimo.
Não te conformas de ser a vida pedra
que o tempo todo se promete e não se entrega
e nem se completa mesmo que tanto se prometa
nem se explica por mais intensa a busca aflita.
Labutas nesta faina noite e dia
enquanto alheio desta luta o tempo fia
uma túnica que lhe serve de mortalha.
Inútil querer vencer esta batalha.
Só te resta rolar a pedra pela escarpa
esperando a resposta que te escapa.
O teu trabalho é desígnio de Destino
e Destino é o nome que dás ao mistério.
Destino para ti é o que não tem caminho,
além de todos, entre deuses, um deus sozinho.
É a palavra para o que não se explica,
onde toda palavra nada explicita
e o que ali não termina
com certeza dali germina.
Sísifo sobe a encosta e a vida segue igual,
vida de um ponto de vista mais geral
igual em tudo a tudo que virá.
Ser Sísifo é este hábito de labuta
de quem sabe o que no topo se dará.
Sempre a metódica busca
de prosseguir e resignar-se,
de não atingir e enfrentar impasses.
Sísifo me respondas: a pedra te justifica?
Esta caminhada para o cimo nos explica?
Mal de Sísifo não é eterno.
Chega a morte e o leva ao termo.
Mas por mais que a morte insista
vem a vida e já se infiltra.
A vida se renova em cada fruto
e assim se propaga a eterna luta.
A vida na vida se inaugura
e Sísifo, és eterno, pois, nalgum ventre
outro Sísifo agora se encasula.
A mesma pedra, o mesmo olhar a frente
o Sísifo menino presencia.
E se não fosse a luta, esta criança, o que faria?

A besta de Tebas

Há muito tempo, próximo a Tebas
habitava uma besta com corpo de animal,
rosto de mulher e frágeis sentimentos humanos.
Obcecada por um enigma,
a besta atacava os viajantes,
ofertando-lhes a vida ou a morte
segundo a resposta que lhe dessem.
Como os mortais não satisfaziam
sua ânsia de esclarecer o enigma
a besta a todos devorava
e passou a ter consigo a certeza
que apenas um semideus saciaria
sua angustiada curiosidade.
E ocorreu que certa feita
Édipo, um semideus,
cruzou o caminho da besta.
O enigma foi proposto
mas Édipo não compreendeu
e disse à besta que o enigma era o homem.
A besta, estranhamente não o devorou
mas desistiu de buscar a solução do enigma.
Acometida de repentino desespero
lançou-se ao abismo.
Então propagou-se a lenda
que Édipo venceu a esfinge.