Fantasmas do retrato

Súbito, você que já se habituava
a isso que chamam vida e seus revezes
ouve a voz de gente conversando na sala
onde bem sabe não há ninguém.
Os fantasmas perambulam pela casa.
Esfumados, mas presentes, te acenam
e emitem sons que você já ouviu
não sabe onde.
Você escuta a conversa dos fantasmas
Algo em teu coração range como o soalho há pouco.
Uma palavra mais rude que volta do passado,
uma tua esperança de amor
que nunca veio a ser.
Inevitavelmente os fantasmas retornam
e o que era calmaria em teu peito
se converte em pulsação forte,
intensidade pura.
Inútil mudar de sala, de casa, cidade.
Os fantasmas viajam contigo.
Por todos os lugares, acorrentados a você
seguem cadáveres de manhãs geladas,
fósseis de um entardecer de junho.
Após a última badalada
esta arca de coisas perdidas
se recupera das entranhas
renasce e cresce.
Os fantasmas eternos.

Sítio arqueológico

Alta madrugada em noite fria.
Meus passos reboam
pela Rua XV, ora vazia.
Meu footing
fundamental e interminável.
Minha rua, meu grande sertão:
és pedra, asfalto, aço.
És além?
Quem me dera
sétimo, oitavo sentido
capaz de farejar na turfa do tempo,
rastrear debaixo deste calçadão,
fossilizado no piche,
o curitibano imemorial,
pai de todos os meus cacoetes.
Sob estas pedras,
talvez louças delicadas,
que serviram chá,
bolo de fubá e escasso sentimento.
Talvez agulha de radiola,
que já fez dançar curitibano frio,
que raro aplaude, mais raro sorri,
muito raro dança.
Uma busca diligente,
pode ser desentranhe,
aliança de ouro gravada,
o nome dele e o dela enlaçados,
perdida na sarjeta,
numa fenda de desamor.
Meus passos ecoam na calçada.
Suas vibrações penetram
o frio petit-pavé,
se incrustam
na memória basáltica
deste longo rio.
Caminho e um pouco de mim
fica na alma das pedras.
Lentamente me incorporo
ao solo sagrado
para ser um dia resquício,
relógio sem ponteiro,
lambrequim rachado,
canino de vampiro,
amálgama de rocha e tempo
que incertos arqueólogos
sondarão perplexos.

Lambrequins

Na minha Curitiba
tem uma casa de madeira.
Na varanda com mureta de alvenaria,
a samambaia, a gaiola e o canário
melhor que qualquer radiola.
O teto, desnecessariamente inclinado
para o clima sem neve
abriga o sótão baixo onde
três gerações empilharam segredos.
Os pilares de tijolo a mantém suspensa.
No vão que se cria abaixo do piso
o vento gelado galopa como um huno,
guarda-se restos de uma vida
e nascem ninhadas de viralatas pulguentos.
Do beiral pingam lambrequins rendados.
Estalactites de saudade?
Lágrimas de passado?
Na sala, o quadro oval colorido a mão.
O casal eterno solidifica o lar.
Uma chaminé estreita
desenrola novelos de fumaça.
O fogão econômico aquece os calafrios da alma
com brasa boa de bracatinga.
Pela janela da cozinha
uma iaia com lenço na cabeça espia longamente
a espera de quem não vem.
Na parede do quarto o Cristo com coração em chamas,
olha por todos, até pelos de alma rota.

Vez ou outra esta casa passa
pela janela do ônibus ligeiríssimo.
Passa de relance e fica para trás,
não sei onde, não sei quando.
Decrépita, alguns lambrequins faltam no beiral.
A casinha sorri seu sorriso banguela
para o curitibano expresso.