Estilo

O estilo brota de um líquido turvo.
Inicialmente viscoso.
De começo dissolvidos nele
líquidos menores, essências supérfluas.
O estilo ainda ali não nasceu. Espera.
Filtros. Destilações, adsorventes.
O líquido flui mais solto nos jarros.
Só a purificação laboriosa
traz o estilo transparente.
Mas como a completa permeabilidade à luz?
Esta utopia, a da pura pureza
é a que se busca com olho lente.
Do outro lado, mas paralelamente
o artista busca a vida destilada.
Uma existência de arquitetura precisa.
Burilar o estilo e a vida,
projetos conjuntos, utopias irmãs.
Não amplificar a vida. Reduzi-la.
Desbastar seus ramos.
Faze-la disciplinada.
Mirrar os caules verdes,
secar todos os oásis da angústia.
Planura e horizonte azul.
Num ponto se confundem estilo e vida:
no seu ir para.

Fóssil

Entre rochedos,
sob um céu azul e imaculado,
um homem procura,
algo semelhante a fósseis,
tal crânios de primatas,
como lenho petrificado,
uma vida estéril
aos garimpos da angústia.
Entre pedras a procura
de um modo de existir
alheio a vento e tempestade.
Uma pesquisa entre pedras,
este desejo de uma vida pétrea,
a vida como um objeto inerte,
de onde não nascem brotos,
onde não minam lágrimas,
não será pesquisa estéril?
Este ideal de ser para ver,
de ser para ser,
pode ou apenas se promete?

Arquitetura moderna

Adeus ao martírio dos sonhos.
Adeus sentimentos que deixam lanhos.
Minha revolução pessoal
se assemelha à revolução arquitetônica.
Adeus Art Nuveau.
A curva francesa cedendo lugar à régua T.
Vertical. Horizontal.
O expurgo dos excessos.
A arcada sentimental desce do pódium.
Agora a reta e o ponto. Parede nua.
A beleza simples dos objetos geométricos simples.
Cubos, prismas caem do céu.
Descem como pluma.
Leves, assentam cuidadosamente no solo.
Pelo pouco peso
nem precisam se agarrar ao chão.
Como bailarinas ficam no ar,
pela ponta do pé, querendo levitar.
Formas simples, formas claras.
Esta arquitetura não é própria ao pesadelo.
Minha revolução:
Fazer da vida um edifício leve
que abusa do vão livre.
Estes prédios leves são para o ver
e não para o por quê.
Este projeto de vida
que não nasceu nas pranchetas da angústia
tem o estilo claro da moderna arquitetura.
Arquitetura e vida fundidas no mesmo projeto:
Gerar o objeto fácil,
sem dilemas, sem perguntas.
Simples, leve e limpo.

Roma

Todos os caminhos levam a Roma
e Roma, dizem, é uma cidade magnífica,
mas distante e misteriosa.
Todos querem ir a Roma, pois,
no sonho de qualquer viajante
existe a promessa de uma cidade
que é o centro do mundo
para onde todos vão.
Conheço velhos andarilhos
que há muito buscam Roma
mas nem por isso
estão mais próximos dela
que afoitos iniciantes.
Já disseram que um louco incendiou Roma
mas ninguém crê.
Todos seguem palmilhando o caminho
batido pelas pegadas dos que se foram
e muito antes queriam Roma.
E não há mapas. Não há placas.
Não há estrelas no céu indicando Roma.
As bússolas apontam o Norte,
não apontam para Roma.
E o corpo cansa e a mente fraqueja
mas o viajante prossegue
porque só em Roma há pousada.
Roma é a capital do Império,
para onde todos vão.

Cacto e pedras

O hábito de viver se limitando
ao hábito de persistir,
como pedras ao sol,
como cacto no deserto,
como pedras, como cacto.
Que ciência mais profunda
que esta ausência de sabedoria
encontrável nos desertos?
O deserto nos ensina
por não dar lições
a lição do silêncio pleno.
Uma vida sem oásis,
sem problemas, sem contrastes.
Ser para ver.
Ser para ser.
E tudo que vai além
da mensagem dos sentidos
fenece como erva no deserto,
nesse deserto de vida,
nessa vida sem umidade,
plana e horizontal,
como cacto,
como pedras no deserto.