Ofício

Curvar-se sobre si,
dia após dia,
engastando palavras
num arranjo incerto,
sob contínuo açoite da dúvida,
enquanto na janela
um avião passa em chamas,
e pela fresta da porta
o suicida deixa
seu bilhete de adeus.

Tecer, parir
cordões de discurso,
po-los no mundo
para que tomem o próprio rumo
tal pergaminho queimado
da biblioteca de Alexandria,
htm tragado pelos hiper-computadores
da rede deserta.

Tornar palavras em objeto,
de suposta beleza,
de intangível valor.
Inocular na palavra
poderes secretos
de dilatar céptica pupila,
de mover ponteiros
em sentido contrário.

Mergulhar na água turva das formas.
Arpoar metáfora, oxímoro,
que tragam no ventre
emoção e pensamento.
Atender às perguntas
que pululam como vermes
na flácida massa da incerteza:
Que rima para tanger
as cordas retesadas do
sentimento?
Onde a harmonia celeste
entre o jarro e o vinho?
vinho que de tão pura vinha
remonta aos ritos ancestrais.

Amar a palavra. Ama-la,
sem esperar nada em troca.
Servir à palavra e só a ela servir.

Desabafo

Que sei da poesia?
Sei que a fazem
longe de mim
e de meu parco entendimento.
Na cadeia da escrita
sou o copista.
Não me encontrei.
Me encontrarei?
Baterei eternamente
a cabeça no vidro blindado
que me separa
do mínimo verso feliz?
Ah, que fosse o menor
da história da Literatura
mas que brilhasse sob luz intensa,
que tivesse ínfimo poder
e curto reinado
na retina do incauto,
que vendo-o num canto torto da estante
o colhesse e por um lampejo de instante
se deparasse diante do milagre da arte.
Que belo exemplo sou eu.
Não de poeta, mas de tentativa.
Diariamente levo das palavras
drible humilhante
e como cachorro estúpido
volto para lamber-lhe os pés.
Diariamente fujo
dos velhos poetas e os encontro
no armário, nas gavetas,
no verso brilhante que escrevo
e já oxida tão logo esfria.
Saibam todos que me lerem:
(há alguém lendo aí?)
Eu tento. Juro que tento
mas a arte é maior.
Como hei de toca-lo
amigo leitor?
Não somos patéticos?
Eu cá com meus pães
de farinha impura
e você buscando
a jazida oculta
na minha fala rala.
Garimpeiros, você eu.
Desejo-te mais sorte da próxima vez.

Poema final

Um poema único,
um único poema,
rolado do alto da serra,
água primeira
da primeira fonte.

Um poema de sete portas
que se abrem para sete corredores
com sete portas cada.

Um poema milenar,
legado remoto de ancestrais,
cinzelado na pedra mais dura
inerte, invulnerável, absoluto.

Um poema que te justifique,
que chegue à tua última víscera,
te exiba em tiras,
mantas de charque no varal.

Um poema caído do Olimpo,
idéia perfeita tecida com palavra,
úmido de transcendência.

Um poema final.
Depois dele, silêncio,
refúgio no deserto,
jejum eterno.

Um poema que não virá.