Poesia que eu não faria

(à guisa de humour)
Aos taxidermistas da poesia

‘… fechando-se no como escrever o escritor acaba por encontrar a pergunta aberta por excelência: Por que o mundo? Qual o sentido das coisas?’

Roland Barthes

Se não sois também poeta,
crítico literário,
doutor em letras,
editor, exegeta,
quer dizer,
se sois o tipo de leitor
a quem deviam se destinar
todas as poesias
estais liberado
de percorrer estas
por demais enfadonhas
mal traçadas linhas.

Poesia.
Mas o que é a poesia?
pergunta-se o poeta
diante da página vazia.

Ó tarefa dorida,
ó sonho dantesco,
ó áspero ofício.
Garimpar o oculto verso:
sublime sacrifício.

E enquanto o verso não aparece
o latifúndio cresce
e o operário meu irmão
é explorado pelo patrão.

Poesia é vida?
Poesia é sonho?
Poesia é noite?
Poesia é amor?
Poesia é ser?
O sorriso da criança é poesia?
O beijo longo dos amantes é poesia?
O pôr do sol é poesia?
Poesia. Onde estás que não respondes.

VERSO (?)

(RE)VERSO

(Trans)VERSO

(Uni) VERSO

(CON)VERSO

(DI)VERSO(S)

Poesia é palavra.
Sendo palavra
fala de palavra enquanto palavra.
Palavra voltada sobre si.
Poesia fala de poesia.
Palavra sobre palavra.

E o poeta? Este quem é?
Garimpeiro de estrelas,
intrépido combatente das causas perdidas,
pastor da singela metáfora,
bardo que tange a lira,
operário da palavra,
ourives da preciosa rima,
cavaleiro solitário,
o poeta/ o asceta/ o profeta,
homem comum ao lado do povo,
anacoreta de nuvens,
aquele que eleva sua voz mais alto,
tudo isto é o poeta
e muito mais, pois,
não há barreiras ao que canta.

Distante voz alada
um retrato morto no firmamento ebúrneo
caverna hermética oculta
sarsa, como torre se alevanta
no poente um grito pungente: poesia.

O poema atravessa o signo.
O signo libera o sema.
O sema habita no fonema.

Não há mais poesia.
Canibal de si
o poeta se engoliu.
Levou consigo seus poemas.
Resta-nos o vazio.

Pô: poesia?
Sei lá, entende?

Poeta guru

O poeta guru agoniza no leito.
Três exegetas seus
fazem vigília à sua cabeceira.
O poeta guru abre os olhos.
De sua boca sai um murmúrio débil.
Os três exegetas se apressam
em trazer os ouvidos
para junto da boca do poeta guru.
– O que ele disse?
– Não ouvi.
– Não podemos perder suas palavras finais.
– Vejam. Vai falar de novo.
O poeta guru balbucia ansiado:
– Co …
Os exegetas se afligem.
– Que sublimes palavras quer nos passar?
– Estamos aqui mestre,
ávidos para interpreta-lo.
– Honre-nos com o divino verbo.
– Co … ma … co…
Os exegetas se agitam.
– Oh, desgraça. Seu último verso,
talvez o melhor,
paira na boca e não encontra saída.
– O que dizem tais sílabas misteriosas?
– Será que medita a forma perfeita?
O poeta guru se contorce no leito.
– Co … mm…
Nisso, o enfermeiro, que entrava:
– Comadre, gente. Ele quer a comadre.
O enfermeiro pega a comadre
embaixo da cama e ajeita
sob o corpo do poeta.
Alguns minutos depois
o poeta expira.
Em seu rosto, um ar
de alívio e libertação.

Lições de poesia

Manuel Bandeira

Caderno de classificados

João Cabral

Mapa do Brasil

Camões

Lista telefônica

Drummond

Corrente de orações

Fernando Pessoa

Banheiro de rodoviária

Forma e fundo

forma fundo poesia público
FORMA fundo poesia público
forma FUNDO poesia público
FORMA FUNDO POESIA PÚBLICO

O vento e a vela

Vamos esclarecer uma coisa
que são duas: a poesia e a poesia.
A primeira está no ar,
na rua, na praia, ou
na soleira da porta
ao lado do vira-lata que dorme.
A primeira é bela em si,
se não é, faz-se,
graças a um quê de pungência,
a uma inédita combinação
de objetos banais.
A segunda está no papel
e engarrafa a primeira
em frasco de palavras.
A segunda, se é bela,
é porque deu-se
a harmonia rara
entre o vento e a vela.