Risco

Eu vinha para casa do serviço
pensando no caminho
sobre o que escrever
quando estivesse aqui sentado.
E enquanto eu vinha
um carro da polícia
passou por mim em disparada,
um moleque me pediu esmola,
vi gente morando sob o viaduto
e no rádio falavam
de confronto entre posseiros e jagunços.
Eu, pensando no que escrever, pensei:
Poesia social é campo minado.
São muitos os perigos:
o de se inflamar à noite
e amanhecer em cinzas.
O de semear paraíso
e colher inferno.
O de praticar o que se critica.
O da crítica cega
com proposta muda.
Mas se uma criança revolve o lixo
e a FEBEM faz parte da vida
então a criança, o lixo e a FEBEM
fazem parte da poesia.
Por isso, caro leitor,
me apóie ou me critique,
me elogie ou me piche.
Só não fique inerte.
Divida comigo este alto risco.

Poema final

Um poema único,
um único poema,
rolado do alto da serra,
água primeira
da primeira fonte.

Um poema de sete portas
que se abrem para sete corredores
com sete portas cada.

Um poema milenar,
legado remoto de ancestrais,
cinzelado na pedra mais dura
inerte, invulnerável, absoluto.

Um poema que te justifique,
que chegue à tua última víscera,
te exiba em tiras,
mantas de charque no varal.

Um poema caído do Olimpo,
idéia perfeita tecida com palavra,
úmido de transcendência.

Um poema final.
Depois dele, silêncio,
refúgio no deserto,
jejum eterno.

Um poema que não virá.