Faxina

Tiro o dia para uma faxina
nas gavetas de meu vocabulário.
Amarelados e gastos
alguns termos sem uso
vão surgindo
no meio de palavras vivas.
‘Injustiça social’
é o primeiro que mando
para o cesto de lixo.
Depois, ‘opressão’,
‘esquerda’, ‘imperialismo’,
‘exploração’.
Sigo vasculhando.
No fundo da gaveta
preso numa fresta da madeira
acho ‘socialismo’.
Todos devem ser eliminados
para adequar minha linguagem
aos novos tempos.
Quantas palavras, nem imaginava,
e agora inúteis, dispensáveis.
Amasso ‘progressista’.
Até ‘gauche’ encontro e jogo ao cesto.
A tarefa me consome bom tempo.
Encho o cesto de palavras ocas
que só serão vistas no futuro
em museus filológicos.
Que tipo de problemas
fizeram os homens
criar tanto vocabulário
agora sem sentido?
Decerto problemas resolvidos.
Que outra explicação
para este cesto cheio
de vocabulário obsoleto.

Risco

Eu vinha para casa do serviço
pensando no caminho
sobre o que escrever
quando estivesse aqui sentado.
E enquanto eu vinha
um carro da polícia
passou por mim em disparada,
um moleque me pediu esmola,
vi gente morando sob o viaduto
e no rádio falavam
de confronto entre posseiros e jagunços.
Eu, pensando no que escrever, pensei:
Poesia social é campo minado.
São muitos os perigos:
o de se inflamar à noite
e amanhecer em cinzas.
O de semear paraíso
e colher inferno.
O de praticar o que se critica.
O da crítica cega
com proposta muda.
Mas se uma criança revolve o lixo
e a FEBEM faz parte da vida
então a criança, o lixo e a FEBEM
fazem parte da poesia.
Por isso, caro leitor,
me apóie ou me critique,
me elogie ou me piche.
Só não fique inerte.
Divida comigo este alto risco.

Partido

Já não vivo encharcado de utopia.
Basta-me uma luta a cada dia.
Já não tenho sonho de redenção.
Construo o mundo com pé no chão.
Não serei o homem novo.
Não me queiram homem do povo,
que novo sou a cada instante
e povo é o omisso e o atuante.
E se me cobram um partido,
digo que separados ou unidos
a esperança lá no firmamento
é uma chama em risco a todo momento.
Nos revezamos para nutrir sua luz casta
mas a chama é fraca e a luta é vasta.
E assim vamos em miséria de recursos
aqui e ali buscando um novo curso.
Bem ou mal vamos juntos.

Muro de Berlim

Pela tevê assisto a queda
do muro de Berlim
e as picaretas trabalham
em mim.
Cai o muro de Berlim.
A utopia chega ao fim.
Desmorona, se esfacela,
tijolo por tijolo
um sonho implode, por fim.
Não. Não sou a favor do muro.
É o que o que com ele chega ao fim.
Já agonizava, bem sabia,
mas a morte anunciada
não te alivia
quando se vê a morte, enfim.
E tantos sonharam com a utopia.
Por ela tantos lutaram no dia-a-dia
e agora morta assim.
Não lamentarei mais
que a morte não volta atrás.
Um sonho está morto.
Os erros foram tantos.
É o fim?