Opções

Tenha muita paciência.
Ainda lhe restam todas as opções.
Não se altere. Fique calmo.
Ainda lhe resta saltar do 15º andar
mas você não saltará.
Ainda lhe resta bater a cabeça na parede
até o crânio rachar
mas você não baterá.
Ainda lhe resta se afogar na bebida
mas você não se afogará.
Lhe resta ainda se redimir e rezar
mas você não rezará.
Resta um grito na noite
mas você não gritará.
Resta ainda ficar louco
mas você não ficará.
Resta se iludir com promessas e esperanças
mas você não se iludirá.
Resta dormir e sonhar
mas o sono não virá.
Como vê, tudo e nada lhe resta.
Mais certo, te resta esperar.

Quem me viu, quem me vê

VENCER NA VIDA.
De todas as minhas ilusões
esta foi a mais ridícula e obtusa.
Quantos agora não se engalfinham
nas disputas mais cerradas
para realizar este sonho vão
que para mim faz parte do passado
e não se concretizará.

Quem me viu, quem me vê.
Como tantos que tanto
prometem na juventude
e se desenham aos olhos
de seus entes queridos
como o vencedor dos vencedores
eu mesmo acreditava em mim.

Vencer na vida era poder dizer:
‘Você sabe com quem está falando?’
Era um cargo de dar inveja,
um carro de tirar o fôlego,
uma mulher de parar o trânsito.
Hoje não há vitórias.
Não há horizontes.
Por que frincha, por que porta
me perdi desse paraíso
que é ser pessoa comum?

Quem me viu, quem me vê.
Todos que me cercavam apostavam
no meu futuro de jovem promissor.
Hoje me consideram um corpo estranho
no seu mundo de verdades saudáveis.
Me olham de esguelha
porque não levo cinzelado na fronte
o vasto código de certezas
que é bom para as pessoas de bem.

Vencer na vida.
Que sombra de vitória pode haver
para quem se sente inepto
para este tipo de disputa
e assume isto como fato consumado?

Quem me viu, quem me vê.
Se hoje sou diferente,
se desaponto os que apostaram em mim,
não foi por gosto ou pirraça.
Acordei. Aconteceu.
Deu no que deu.

Vencer na vida.
Já foi o tempo
em que se justificava ser apenas promissor.
Eu devia estar completo,
servir de exemplo,
mas minha vocação foi sempre
para tudo e nada.
Me desculpem.
Não venci.
Não vencerei.

Proteína

E o que você quer mais?
Não basta a felicidade
fugaz e esporádica?
Que é ilusão,
claro, claro, ilusão
mas você esperava mais?
É transitória, rara,
aparece quando você nem quer,
quando precisa não aparece.
Desejava mais?
Ilusória, certo
se vista de perto.
Mas por que mais?
Não lhe serve a felicidade
que alguém vai provar
tratar-se de uma proteína
perambulando entre neurônios,
que é breve,
que é frágil,
vem de leve,
vai num sopro,
mas lhe serve,
não serve?
Ou você sonhava mais?
Mais que ilusão,
mais que um comichão
atravessando a espinha.
Sonhava.
Então esperarava mais.
Sonhava com o quê?
Esperava por quem?
Com o que não tem?
Com quem não vem?
Se você quiser,
ilusão tem.
Se não quiser,
passar bem.

Muleta

O velhinho trêmulo
entra na igreja.
Rio de sua fé.
A fé é a sua muleta
E eu, velho,
no que vou me apoiar?

Um país

Brasil,
Brasil que me pariu,
eu sou você
e você é mil,
é mais, é quantos?
é tantos,
quantas caras,
tantos tipos,
muitos jeitos,
quantos ritos.
Brasil,
que eu faço
e que me faz.
Que vai a mil
para o ano dois mil.
Para onde, Brasil?
se a inflação explodiu,
se o ministro caiu,
o corrupto fugiu,
o emprego sumiu.
A rebelião no presídio,
uma chacina no vídeo,
o genocídio do índio,
um desempregado
comete suicídio.
O milagre gorou,
o ufanismo acabou,
o progresso parou,
o povo chorou,
a grande obra ficou
pelos alicerces.
Um pivete na rua,
a realidade crua
e o homem na lua.
Para onde, Brasil?
Brasil de matas e queimadas,
de ouro e de trapaças,
de alegrias e desgraças,
sob um céu de anil,
no Brasil varonil,
que amor, que sonhos, que flores,
numa terra de tantos primores,
debaixo de palmeiras
onde canta o sabiá.
Pra onde, Brasil?
Terra de Santa Cruz,
Terra de Vera Cruz,
da minha, da tua, da nossa cruz.
Para onde?
Pra quando?
Pra quem?
se ordem não tem,
se o progresso não vem,
se o sabiá já não canta
na palmeira que já não há.
Pra quem?
Pra quando?
Pra onde?
me diga, Brasil,
se Deus é brasileiro,
se teu céu tem mais estrelas,
se não verei país nenhum como este.
Sem resposta
você segue, Brasil,
mesmo no escuro,
mesmo contra o muro,
mesmo levando murro.
Brasil,
não me engano,
não me ufano,
não reclamo.
Amo
e assumo.