Quê te consome?

Quê te consome na rua?
O primeiro fio de cabelo branco
na cabeleira já não tão vasta.
O zero a menos no teu contracheque.
O rebolado da morena
que passou há pouco.
Teu encontro com quem não vem.
Aquela dor de dente?

O que te consome
diante da folha em branco
na hora de parir um verso?
Falta de assunto.
A seita literária da semana.
Aquele poeta guru
que tanto falam mas ninguém leu.
A nova rima tecnoendergonorgética.
O iminente apocalipse poético?

Ora, meu amigo.
Há algo errado com você.

Dor

A dor verdadeira,
a legítima dor,
dor de perda imensa,
de injustiça atroz,
esta dor te beneficia?
A dor te torna duro?
Torna-te puro?
Te faz exemplo
ou cão sarnento?
A dor presente te
impermeabiliza
contra a dor futura?
A dor te recoze a têmpera?
Arrasa ou solidifica?
Revolta ou edifica?
Pode a dor tatuar
linhas de virtude
entre os calos de tua mão?
Se não pode, quê pode então?
Só açoita pelo sabor do estalo?
Só escarifica a alma porque
também o vento escarifica a pedra?
Ah, mas para quê
se ocupar das mil
mal vislumbradas
funções da dor
se te basta saber
que ela existe em ti
como o espinho pertence ao cacto
que produz belas flores no deserto.

Sentido

O sentido das coisas?
Só preciso dele para compor versos.
E se não o tenho
sai o verso melhor ainda.
Na rua, inexplicavelmente,
o sentido está dado.
Cortar o cabelo,
arrumar emprego,
atingir o orgasmo.
Onde está o sentido?
Não sei. Terei de procurá-lo?
Consolar um doente,
explicar de onde vem os bebês,
pintar um quadro.
Mas qual o sentido?
Não sei. Vivo bem sem cogitá-lo.
Perder o sono,
amar sem ser amado,
morrer no dia de Finados.
Por quê? Por quê? Por quê?
Não sei.
Não foi de perguntar que perdi o sono.
Não foi por falta de sentido
que deixei de ser amado.
Com ou sem resposta
tudo pode acontecer em Finados.

Risco

Eu vinha para casa do serviço
pensando no caminho
sobre o que escrever
quando estivesse aqui sentado.
E enquanto eu vinha
um carro da polícia
passou por mim em disparada,
um moleque me pediu esmola,
vi gente morando sob o viaduto
e no rádio falavam
de confronto entre posseiros e jagunços.
Eu, pensando no que escrever, pensei:
Poesia social é campo minado.
São muitos os perigos:
o de se inflamar à noite
e amanhecer em cinzas.
O de semear paraíso
e colher inferno.
O de praticar o que se critica.
O da crítica cega
com proposta muda.
Mas se uma criança revolve o lixo
e a FEBEM faz parte da vida
então a criança, o lixo e a FEBEM
fazem parte da poesia.
Por isso, caro leitor,
me apóie ou me critique,
me elogie ou me piche.
Só não fique inerte.
Divida comigo este alto risco.

Crianças dormindo

Agora, enquanto escrevo,
perto daqui, crianças dormem na rua.
Precisava dizer isso?
Você sabe melhor que eu, não é?
Crianças dormem na rua, ora.
Ou talvez eu seja um afortunado
e você esteja lendo-me num tempo
em que crianças já não dormem na rua.
Mas se esse tempo ainda não veio
talvez seja preciso dizer:
Crianças dormem na rua.
Sim, sou piegas, demagogo,
hipócrita, o quê mais?
Paciência. Crianças dormem na rua.
Isso não é nada poético.
E escrever sobre este tema
não traz cama quente e limpa
para as crianças lá fora.
Poemas não contém proteínas
e não distribuem renda.
Poemas são poemas
e crianças são crianças.
Logo irei dormir e confesso,
dormirei bem, mesmo com
crianças na rua.
E você não perderá o sono
por causa deste poema, certo?
Bem, sono tranqüilo a parte,
se as matérias primas do poema
são palavra e vida,
tem que ser possível incluir nele
as crianças que dormem na rua.
Eu queria falar sobre o tema,
só não sabia como
neste mundo de utopias fracassadas.
Primeiro quis descrever a cena
com metáforas e metonímias.
Depois pensei em refletir
sobre possíveis soluções.
Mas achei melhor dizer simplesmente:
Crianças dormem na rua.
Precisa dizer mais?