Presente

Não serei nostálgico.
Bons velhos tempos?
Não se faz como antigamente?
Não é para mim
que vivo do presente.
Se tudo vai mal,
se só vejo dor a minha frente,
quero sempre e sempre
existir para o presente.
Qualquer coisa pode parecer ótima
depois que passa,
ao se tornar idealidade
expurgada das mil sujas contingências,
mas o que eu quero
é o que se dá no presente.
O tempo passa, sei que passa,
que vou fazer?
Só trato de questões urgentes.
Estou completo no presente.

Águas em junho

Da janela do apartamento assisto
a morte dos sonhos frágeis.
Um a um despencando pela sacada.
É junho e meu coração em desatada sangria,
como estas águas frias
correndo nas ruas.
Neste tempo de frio e águas
meus sonhos sumindo na sarjeta,
se dissolvendo nas águas.
Em junho os sonhos se vão.
Não todos, apenas sonhos vãos.
Versos e versos se perdendo pelo vento,
que me importa.
A quinta essência escorrega da janela
e se arrebenta no asfalto.
Adeus sonhos transcendentes.
Recomeço com coisas simples e realizáveis.
Não realização fácil, mas palpável.
Abro os braços ao mundo do imediato.
Coisas simples:
amor e vida sem tormentos,
emoções simples, só e simplesmente.

Quatro estações

Primavera

… que sopra seu hálito fecundo
e enche o ventre da planície
com sêmen denso e quente.
Ressurge viva a floresta petrificada.
Tempo de deitar a semente
e rogar aos deuses
pela messe farta.
Os curumins se exercitam
em fantasias à roda do fogo,
entre caçadas e heróicas batalhas.
O mundo é novo, é imenso
e cheio de mistérios.
Os animais falam, os brinquedos ouvem.
As coisas são muito boas ou muito ruins.
Os campos se cobrem de esperança
e os jovens se queimam pela primeira vez
com a brasa nova.
O pai chama o filho,
mostra-lhe as armas e os segredos
e o instrui na arte da caça.
E partem os dois para os perigos da mata.
O curumim se defronta
com a palpitante solidão da aventura,
conhece o medo e a superação do medo,
se extasia em afrontar a morte
quase tocando-a, crendo-se intocável.
No duelo entre o homem e a fera,
fera contra fera disputam o exíguo espaço
no círculo da vida.
No sangue da fera
escorrendo das mãos
vai-se o curumim, faz-se o homem.
Pai e filho retornam à casa
com a caça ao ombro
e todos celebram
a morte da morte,
a plenitude da vida.
O sol doura o trigo
e chega a hora
de apresentar as virgens à tribo.
As flores desfilam
seu carmim na pradaria.
Um olhar furtivo,
a palavra presa na garganta.
A história de amor,
tantas vezes encenada,
acontece de novo pela primeira vez.
Os dois se tocam,
agora como homem,
agora como mulher.
Dançam com volúpia
aos olhos e cochichos dos seus
e preparam o tempo da colheita.
Quem és para merecer esta beleza,
que é tanta, quase um desperdício,
este tempo que flui denso
sem passado nem futuro,
este mundo como banquete farto
posto em tua honra
sem que o saibas.
Pouco és para tanto mundo.
E o que fazer senão dançar
de mãos dadas com tua flor
fruindo a dádiva concedida
à mão farta por deuses generosos.

Verão

O calor aquece as pedras,
as folhas tenras e os corpos suados.
Abrem-se os gineceus.
Os amantes se lambuzam em mel grosso
e os corpos se devoram
como serpes enroscadas.
Mas por um complô insondável,
por um excessivo acúmo de energia latente,
o paraiso azul tinge-se de cinza
e do seu cerne escapa o relâmpago.
Chega o tempo de seguir o vento.
O inquieto potro e o ousado vôo.
Tempo em que o filho não reconhece o pai
e o guerreiro galopa na campina.
O horizonte se afasta e chama.
Os tambores distantes anunciam a tempestade.
Pouco a pouco cresce a ira dos elementos.
O vento açoita as velhas árvores
e todo fúria, muda o imutável.
E com autoridade divina, extermina.
Os homens se pintam para a batalha.
As mulheres se vestem para a dor.
Os bravos apresentam os estandartes
aos deuses da guerra
e embarcam na nave da morte.
A bravura como escudo,
A estupidez como lança,
bêbados de valhalas,
os soldados se arremetem
contra a boca do leviatã.
Mecanicamente,
o monstro traga a vida
e cospe gente estilhaçada.
A quilômetros de tua última ingenuidade
marchas na terra devastada
e contemplas a grande obra
erigida em cinza, ódio e carniça.
A lança quebrada, o escudo partido.
Este peito outrora de tanto ardor,
tão repleto de legítima energia,
o que nele agora se aninha?
A medíocre sabedoria dos entediados
com a brutalidade da comédia?
Frieza e desprezo por si e pelo outro?

Outono

No meio do caminho
a troca da guarda na usina dos ventos.
Falam agora de um general
marchando do sul
que não governa pelo fogo,
nem adota estratégias rebuscadas.
De face inerte e dura,
quer apenas resultado.
Todas as folhas ao chão.
Os seres pressentem a lâmina
fria que devasta e purifica.
O artesão dá polimento
na emoção bruta, no ímpeto cego.
Nasce uma jóia de duvidoso brilho
que não vence pela exuberância,
mas pela sólida resistência.
Chegas a soleira da velha casa
e na varanda a cadeira de balanço
mecanicamente, como um badalo,
oscila vazia e te chama a ocupar o posto.
Eis que o filho se reconhece no pai.
Como ficou simples entender
as forças da vontade
e conduzir os outros ao sabor
de teus desígnios.
Que conforto ver o celeiro repleto
de grãos e o espírito pleno
de duvidosa sabedoria.

Inverno

Tudo volta ao princípio. Ou quase.
O mundo não é o mesmo depois de ti.
E se não foste Dante
foste o mendigo que com Dante
um dia cruzou
e fez espirrar as faíscas
que atearam fogo
a um verso da Comédia.
A mesa está posta
para o banquete vazio
de homens sem fome.
A obra inacabada
é dada por pronta.
Alguém te sugere
uma serena contemplação
da face do abismo.
Tua experiência.
Tão inútil aos outros.
Quase inútil a ti.
Feno acumulado no estábulo
onde ruminam tua renúncia,
teu desprendimento.
Os que permanecem
preparam a aurora e
à boca pequena,
organizam teu rito final.
Todo som se evade,
toda luz se consome,
todo aroma foge
e a boca seca
e o tato dorme
na noite ártica,
mas antes do último sopro
bruxuleante do acetileno,
antes de se recolher ao útero escuro,
ainda consegues ouvir
um derradeiro murmúrio do vento …

Ano novo

Mais um ano passou.
Tantas você fez.
Quantas por fazer.
Você se dividiu
em páginas, buzinas,
promessas e pele suada.
Você viu o arco-íris
em preto e branco
e no meio do caminho
não havia pedra,
não havia nada.
Você colocou um tango argentino
mas o toca discos pifou.
E lhe serviram
dobrada à moda do Porto,
mais que fria, gelada.
Você correu atrás do metal,
ganhou uma gastrite,
saldou uma velha dívida.
Você lutou,
foi forte, foi fraco.
Você acordou tarde,
tropeçou no saguão.
O pneu furou
no meio da tempestade.
Você encheu de orgulho
alguém que lhe quer bem.
E não lhe reconheceram,
lhe puxaram o tapete,
E você passou rasteira,
ficou entre o corpóreo e o etéreo,
o ato e a omissão.
Amou quem não lhe amou,
mas alguém lhe amou
e você nem notou.
Você adiou seu sonho
e não viu mudança nem melhora.
Com você alguém gozou,
por você alguém sonhou,
sem você alguém sofreu.
Você apostou,
ganhou e perdeu,
se perdeu, amadureceu,
oxidou, reciclou e se restabeleceu.
Agora põe tudo na balança
que vai pender para onde você quiser,
pois é você quem dá o peso aos fatos.
Você, talvez contente
só de estar vivo.
Talvez inconsolável
sobre as honras de muitas conquistas.
Em balanço de vida
nunca batem ativo com passivo.
Ora, para uns a vida é bela,
para outros bela merda.
No fim o que importa
é o seu compromisso com a vida.
Se você está pronto para ela
está pronto para o novo ano.

Papel em branco

Fatigado esperas um dia
em que o tempo comece de novo.
O passado se esfumando por mágica
e voltas a ser prancheta vazia.
Tua vida rescrita
em límpido couche.
Aguardas teu dia de remissão,
teu segundo nascimento,
não um sinal no calendário,
mas um dia em que a vida exala
um ar de pureza e frescor
e as esperanças não resultam inúteis,
os problemas são objetos solúveis
e há um excelente motivo
para continuar a viver.
Que impulso te compele a esta busca,
a esse brilho nos olhos
que te faz tão humano
e nos faz tão iguais
na espera desse dia:
Quem não o espera?