Sodoma e Gomorra

Renascerão Sodoma e Gomorra.
E todo amor legítimo será banido.
Tudo que é permanente será relegado
em favor do transitório.
Prevalecerá a conjunção bestial.
Será o tempo das grandes prostitutas,
que não estarão duas noites
com o mesmo homem,
ou com a mesma mulher.
E todo homem não estará duas noites
com a mesma mulher
ou com o mesmo homem,
embora todas as noites
homens e mulheres estarão
para a orgia.
Não haverá lugar para suavidade.
Será o amor ao chicote e ao excremento.
Serão idolatrados o corpo e o couro.
Renascerão Sodoma e Gomorra
porque as pedras de suas fundações lendárias
não são pedra,
mas outras pedras
que jazem no fundo
da caverna do desejo.

Vampiro de Curitiba

Ah, ele virá.
Certo virá.
Agora que a noite se aproxima.
Em meu pescoço. Ele virá.
A força de seu corpo
navegando por meu corpo.
Os dentes nas carótidas,
nos meus seios, ai, meu púbis angelical.
Não assim tão fundo.
É a paixão que me devora.
Presa dos caprichos do vampiro.
Que noite densa o relógio anuncia.
Os passos na escada.
Os dentes no pescoço.
Não, menos , ai, agora, mais no fundo.
Meu vampiro particular que me possuis.
A maldição me faz escrava.
O vampiro pede. Sim, eu dou.
Triste sina, doce servidão.
Sim e não.
Ao abrir a porta, meu espanto dentro da noite.
Fugirei? O corpo se esquiva, recusa
os afagos ásperos do morcego.
Por fim, como cera, me derreto
no calor dos sussurros, perdida nos lençóis.
A vida inteira tua escrava.
Claro, a vida toda, enquanto a servidão durar.
Os olhos do vampiro me chamando
para as delícias do leito.
A confusão de pernas, bocas libidinosas,
linguagem de carícias.
Este ser que durante o dia é operário,
advogado, contador, soldado,
qualquer coisa masculina e não sexual.
Mas à noite. Todos os vampiros vem à noite.
E noite é febre de paixão
que invade minha carne tenra e suada.
Se tens de vir aplaca tua fúria no meu sangue.
Morde meu pescoço.
Com o sol se vão os vampiros.
Com o sol, resolver assuntos profissionais,
questões anticoncepcionais e tabus sexuais.
Mas da noite é que se trata
e do corpo masculino do vampiro,
cheiro de homem, bicho da terra, invadindo meu corpo.
Eu me dou, tu me dás.
Batem à porta. Por que estes olhos fundos?
E esta voragem toda?
Esta necessidade de me ver por baixo da roupa?
Vampiros não tem psicologia.
Nada de romantismos.
É fúria de macho.
Inclino a cabeça para o lado.
Meu pescoço fresco a vista.
Não, ele não compreende. Deseja meu sangue.
Só isso?
Pensa que assim sou feliz?
Há algo errado em amar vampiros.
A essência, a compreensão do amor
cada vez mais distante.
Toda noite penso em dizer:
‘Pare. É preciso algo mais que esta sangria noturna.’
Então ele me diz que se não me amasse
não viria toda noite.
Bicho noturno. Coisa soturna.
Esta vida: vencer a luta pelo pão nosso.
Mas nem só de pão e a noite chega.
Turvo e esquivo. De início vago e distante.
Logo, braços me enlaçam.
O hálito de alguém que funga em minha nuca.
E já estou entregue ao ritual.
Missa silenciosa de amor noturno.
Tomai e comei, este é o meu corpo.
O sangue da nova e eterna aliança
que é derramado por vós.
Bicho masculino, coisa de rapina.
Os vampiros não amam. Os vampiros sangram.
Que perturbação. A porta, eu sempre abro
e deixo vir. É feitiço. Que fazer?
Tudo está consumado.
Em tuas mãos entrego meu corpo.
… O dia já se desenha na janela.
As mãos no pescoço. O espelho acusa
marcas quase imperceptíveis.
Mordida de algum animal
com caninos desenvolvidos.

Navegante solitário

A décima segunda badalada
desperta o vampiro bandalho.
A milenar flor de luxúria
que move o mundo.
Vaga o velho vampiro
pelos caminhos batidos da perdição.
Onde boca fresca e entre aberta
a esta hora deserta?
Onde coxa roliça e rija
para meu carinho ríspido?
Onde bundinha empinadinha
para meu doce açoite?
A cidade das sombras se abre
deserta para meu pecado brutal.
Em vão deslizo pelas paredes escorregadias
de virtual Sodoma.
O comércio ambulante do desejo
cintila em promessas úmidas.
Pelo volante da infovia passam
coxas tesas,
o biquinho de seio mais tenro,
a virilha melada,
o gemido crispado,
o torso contraído,
o leite condensado.
Viajo um mundo,
um mundo se cria,
um mundo se esvai.
Mas um raio de sol
perfura o horizonte
e o vampiro eremita
se recolhe à cripta lúgubre.
A torneira gelada pinga.
Os morcegos se penduram no cabide.
Um gif animado, mecanicamente,
abre e fecha as pernas,
fecha e abre,
abre e fecha.