Tudo certo

Caminho pela rua ao final da tarde.
Numa banca, de passagem,
leio as manchetes dos jornais.
Tragédias, horrores ocorrendo longe de mim.
Volto para casa de consciência limpa.
Nada do que li me diz respeito.
Sou maior, vacinado,
estou feliz e em dia com meus impostos.
Um mendigo me pede esmola
e conta uma história triste
que não me diz respeito.
Passo no bar para comprar cigarros.
O dono do bar comenta
que foi assaltado e me pergunta
onde vamos parar desse jeito.
Digo-lhe qualquer coisa e saio.
O que lhe acontece não me diz respeito.
Volto cansado mas tranqüilo.
Chegando em casa tomo um banho,
me refaço, me tranco, estou satisfeito.
A noite correndo lá fora, decididamente,
não me diz respeito.

Faxina

Tiro o dia para uma faxina
nas gavetas de meu vocabulário.
Amarelados e gastos
alguns termos sem uso
vão surgindo
no meio de palavras vivas.
‘Injustiça social’
é o primeiro que mando
para o cesto de lixo.
Depois, ‘opressão’,
‘esquerda’, ‘imperialismo’,
‘exploração’.
Sigo vasculhando.
No fundo da gaveta
preso numa fresta da madeira
acho ‘socialismo’.
Todos devem ser eliminados
para adequar minha linguagem
aos novos tempos.
Quantas palavras, nem imaginava,
e agora inúteis, dispensáveis.
Amasso ‘progressista’.
Até ‘gauche’ encontro e jogo ao cesto.
A tarefa me consome bom tempo.
Encho o cesto de palavras ocas
que só serão vistas no futuro
em museus filológicos.
Que tipo de problemas
fizeram os homens
criar tanto vocabulário
agora sem sentido?
Decerto problemas resolvidos.
Que outra explicação
para este cesto cheio
de vocabulário obsoleto.

Quem me viu, quem me vê

VENCER NA VIDA.
De todas as minhas ilusões
esta foi a mais ridícula e obtusa.
Quantos agora não se engalfinham
nas disputas mais cerradas
para realizar este sonho vão
que para mim faz parte do passado
e não se concretizará.

Quem me viu, quem me vê.
Como tantos que tanto
prometem na juventude
e se desenham aos olhos
de seus entes queridos
como o vencedor dos vencedores
eu mesmo acreditava em mim.

Vencer na vida era poder dizer:
‘Você sabe com quem está falando?’
Era um cargo de dar inveja,
um carro de tirar o fôlego,
uma mulher de parar o trânsito.
Hoje não há vitórias.
Não há horizontes.
Por que frincha, por que porta
me perdi desse paraíso
que é ser pessoa comum?

Quem me viu, quem me vê.
Todos que me cercavam apostavam
no meu futuro de jovem promissor.
Hoje me consideram um corpo estranho
no seu mundo de verdades saudáveis.
Me olham de esguelha
porque não levo cinzelado na fronte
o vasto código de certezas
que é bom para as pessoas de bem.

Vencer na vida.
Que sombra de vitória pode haver
para quem se sente inepto
para este tipo de disputa
e assume isto como fato consumado?

Quem me viu, quem me vê.
Se hoje sou diferente,
se desaponto os que apostaram em mim,
não foi por gosto ou pirraça.
Acordei. Aconteceu.
Deu no que deu.

Vencer na vida.
Já foi o tempo
em que se justificava ser apenas promissor.
Eu devia estar completo,
servir de exemplo,
mas minha vocação foi sempre
para tudo e nada.
Me desculpem.
Não venci.
Não vencerei.

Inacinho

Esses dias lembrei do Inacinho,
crítico sistemático
da sociedade consumista,
que se definia como
o legítimo rebelde sem causa,
o errado de carteirinha,
o avesso da cartilha do bom moço,
que adorava passar na rua
com seu cabelão comprido,
seboso e desgrenhado
para ouvir o comentário:
‘Este mundo está perdido.’
Hoje, em que se use
comprido, raspado ou colorido
ninguém pára mais
para olhar o cabelo dos outros
ainda bem que o Inacinho
se tornou empresário,
dono de uma grife
de moda alternativa
e contestatória.

Gilda

Lembra da Gilda,
curitibano dos trezentos anos?
Não a mulher fatal do cinema,
a Gilda de Curitiba.
Esses dias passei na Rua das Flores:
Cadê a placa póstuma da Gilda
ao pé da árvore
na frente do bondinho?
Para quem não é daqui:
Gilda foi um mendigo, louco e bicha.
Já viu combinação mais infeliz?
Daqueles loucos que havia,
estavam sempre na rua,
como se vivessem do vento.
Gilda foi o último louco
folclórico de Curitiba.
Sua residência oficial
era a Rua das Flores,
o cartão postal da cidade.
Para uns incômodo, vergonha.
Para outros, motivo de galhofa.
Por muito tempo foi o louquinho
que a família curitibana
não trancou no porão.
Um dia apareceu morto,
provável, numa briga de mendigos.
E pergunto:
Por que não Rua Gilda?
ou Alameda Gilda?
ao menos Travessa Gilda?
Ou os loucos folclóricos
não são história?
Que memória é esta
que preserva generais sem guerra,
corruptos de bitola larga,
aristocratas inatingíveis,
enganadores do povo diplomados
e se esquece da Gilda.
Tá certo: louco, mendigo e bicha.
Mas se lhe falta título
por que não:
filósofo do cotidiano,
humorista performático,
vanguardista dos costumes?
Se lembraram de tantos
que nem mereciam.
Por que não da Gilda?
Cala-se Curitiba,
classe média em tudo.
Tua memória será
a do pinheiro tombado,
a da gralha que já não voa,
mas não da Gilda.