Navegante solitário

A décima segunda badalada
desperta o vampiro bandalho.
A milenar flor de luxúria
que move o mundo.
Vaga o velho vampiro
pelos caminhos batidos da perdição.
Onde boca fresca e entre aberta
a esta hora deserta?
Onde coxa roliça e rija
para meu carinho ríspido?
Onde bundinha empinadinha
para meu doce açoite?
A cidade das sombras se abre
deserta para meu pecado brutal.
Em vão deslizo pelas paredes escorregadias
de virtual Sodoma.
O comércio ambulante do desejo
cintila em promessas úmidas.
Pelo volante da infovia passam
coxas tesas,
o biquinho de seio mais tenro,
a virilha melada,
o gemido crispado,
o torso contraído,
o leite condensado.
Viajo um mundo,
um mundo se cria,
um mundo se esvai.
Mas um raio de sol
perfura o horizonte
e o vampiro eremita
se recolhe à cripta lúgubre.
A torneira gelada pinga.
Os morcegos se penduram no cabide.
Um gif animado, mecanicamente,
abre e fecha as pernas,
fecha e abre,
abre e fecha.

Esferas celestes

Não se trata de Metafísica,
do homem perdido no infinito
das esferas celestes,
mas de solidão vulgar,
esta comum falta de comunicação
dos centros urbanos,
de homens perdidos entre homens.
Não se trata de espaços celestes,
mas do espaço do apartamento
a esta hora tardia
onde tanto me falta
a presença de alguém.

Sombras

A solidão que neste momento
frequenta as sombras de meu quarto
e está em mim como um bicho na selva,
está em tantos que da janela não vejo,
mas suponho, espalhados e anônimos
sob as luzes da cidade
e que pulsam e penam como eu
neste instante de solidão fria.
Talvez bastasse um aceno
e a solidão se evolasse na noite.
Somos tantos, que sem rosto nos fechamos
em nossos quartos e nos desconhecemos.
Privamo-nos uns dos outros,
entregues ao silêncio
da noite que se derrama.
A solidão, porém, não é de alvenaria.
Não está neste quarto assim como a vejo.
está em algum lugar na raiz de mim mesmo,
de nós todos, cobertos pela mesma noite.

Mensagem

O náufrago se aproxima da arrebentação
e lança a garrafa ao mar.
O que nela se contém?
Pedido de socorro,
oferenda aos deuses,
declaração de amor?
As águas tecnológicas devoram as palavras
e as levam para destino incerto.
Noutra praia, noutra máquina,
outro náufrago, sentado espera.