Risco

Eu vinha para casa do serviço
pensando no caminho
sobre o que escrever
quando estivesse aqui sentado.
E enquanto eu vinha
um carro da polícia
passou por mim em disparada,
um moleque me pediu esmola,
vi gente morando sob o viaduto
e no rádio falavam
de confronto entre posseiros e jagunços.
Eu, pensando no que escrever, pensei:
Poesia social é campo minado.
São muitos os perigos:
o de se inflamar à noite
e amanhecer em cinzas.
O de semear paraíso
e colher inferno.
O de praticar o que se critica.
O da crítica cega
com proposta muda.
Mas se uma criança revolve o lixo
e a FEBEM faz parte da vida
então a criança, o lixo e a FEBEM
fazem parte da poesia.
Por isso, caro leitor,
me apóie ou me critique,
me elogie ou me piche.
Só não fique inerte.
Divida comigo este alto risco.

Nós

Não nascemos irmãos,
nos fazemos irmãos
num duro aprendizado
de renúncia, desprendimento.
No sangue trazemos só
uma tímida vocação para o outro
que lançada na correta estação
e cultivada no justo procedimento
das lavouras sensíveis
dá sua flor, seu fruto exuberante.
Não nascemos solidários.
A mão estendida, o gesto fraterno
não pertencem à seqüência natural
de movimentos de nossa complexa arquitetura.
O que existe em nós é uma possibilidade,
uma seta que aponta o caminho íngreme.
Enxergar o outro, sair de si,
fazer sua a dor do outro,
atos que por vezes
nos é difícil admirar,
que dizer de neles nos aventurarmos,
ou deles fazer nosso propósito.
Forte e raro é o que se doa, o que abdica.
O bom é raro,
tanto mais raro quanto melhor.

Crianças dormindo

Agora, enquanto escrevo,
perto daqui, crianças dormem na rua.
Precisava dizer isso?
Você sabe melhor que eu, não é?
Crianças dormem na rua, ora.
Ou talvez eu seja um afortunado
e você esteja lendo-me num tempo
em que crianças já não dormem na rua.
Mas se esse tempo ainda não veio
talvez seja preciso dizer:
Crianças dormem na rua.
Sim, sou piegas, demagogo,
hipócrita, o quê mais?
Paciência. Crianças dormem na rua.
Isso não é nada poético.
E escrever sobre este tema
não traz cama quente e limpa
para as crianças lá fora.
Poemas não contém proteínas
e não distribuem renda.
Poemas são poemas
e crianças são crianças.
Logo irei dormir e confesso,
dormirei bem, mesmo com
crianças na rua.
E você não perderá o sono
por causa deste poema, certo?
Bem, sono tranqüilo a parte,
se as matérias primas do poema
são palavra e vida,
tem que ser possível incluir nele
as crianças que dormem na rua.
Eu queria falar sobre o tema,
só não sabia como
neste mundo de utopias fracassadas.
Primeiro quis descrever a cena
com metáforas e metonímias.
Depois pensei em refletir
sobre possíveis soluções.
Mas achei melhor dizer simplesmente:
Crianças dormem na rua.
Precisa dizer mais?