Fantasmas do retrato

Súbito, você que já se habituava
a isso que chamam vida e seus revezes
ouve a voz de gente conversando na sala
onde bem sabe não há ninguém.
Os fantasmas perambulam pela casa.
Esfumados, mas presentes, te acenam
e emitem sons que você já ouviu
não sabe onde.
Você escuta a conversa dos fantasmas
Algo em teu coração range como o soalho há pouco.
Uma palavra mais rude que volta do passado,
uma tua esperança de amor
que nunca veio a ser.
Inevitavelmente os fantasmas retornam
e o que era calmaria em teu peito
se converte em pulsação forte,
intensidade pura.
Inútil mudar de sala, de casa, cidade.
Os fantasmas viajam contigo.
Por todos os lugares, acorrentados a você
seguem cadáveres de manhãs geladas,
fósseis de um entardecer de junho.
Após a última badalada
esta arca de coisas perdidas
se recupera das entranhas
renasce e cresce.
Os fantasmas eternos.

Serraria

Faz tempo meu avô
levou meu pai, então garoto,
de carroça por uma picada estreita,
de lado a lado cercada
por uma muralha de pinheiros
até chegarem a uma serraria
construída pelas mãos grossas
e pelo raciocínio fino de meu avô
e depois de mostrar ao meu pai
toda a serraria
o levou até o pinhal
que rescendia a madeira recém cortada
e disse:
‘Veja, filho,
um pinheiro de muitos séculos.
Três homens não o conseguem abracar.
Veja quantos pinheiros mais há.
Quanta riqueza, a riqueza do Paraná.
Onde a vista alcança
você vê, você verá.
É tanta madeira.
Nunca há de se acabar.
É nossa riqueza, o pinheiro do Paraná.’
Um dia quando eu era apenas um garoto
meu pai tomou-me pela mão
e me levou por uma estrada poeirenta
e num descampado me mostrou:
‘ Aqui um dia teu avô chegou
abrindo picada no mato fechado.
Derrubou o mato, muito mato derrubou.
Fez uma serraria, aquela lá, abandonada.
Serrou muito pinheiro,
vendeu muita madeira.
Agora aqui, madeira já não há
e saiba, filho, se ninguém cuidar
um dia vai acabar
toda a madeira do Paraná.’

Esses dias passei de carro
pela estrada asfaltada
que um dia foi a picada
para a serraria do meu avô.
Da serraria, nada mais há.
Ao longe encherguei no descampado
um par de pinheiros miúdos e mirrados
que, provável, não interessaram a
madeireiro algum.
Na imaginação falo
ao filho que não tive:
‘Veja, filho, o pinheiro do Paraná.
Aqui um dia houve outros, muitos,
pinheiros e mais pinheiros,
fortes e inabaláveis,
seculares e intermináveis,
uma grande riqueza,
símbolos desta terra,
tombados para sempre,
para sempre tombados
os símbolos do Paraná.’

Rio Belém

Rio Belém
que já correu solto,
como um jorro,
como um potro.
Do Rio Belém,
agora o que se tem?
Nem um litro
de água clara no museu.
Nem um peixe seu
empalhado por zoólogo.
Nem endereço
de alguém que lembre
de quando,
afogado em si,
morreu o Rio Belém.

Rio Belém,
que já matou sede,
que já foi claro,
que já deu peixe.
Rio Belém,
agora retificado,
reprimido,
estuprado,
escondido.

Rio Belém,
que desgosto,
rio esgoto,
rio morto.
Rio Belém.
Adeus.
Amém.

Museu paranaense

Visito o Museu Paranaense.
Nas salas e nos corredores
retratos pintados de figuras ilustres do passado.
Este de ar altivo,
a praça em frente leva seu nome,
famoso e irremediavelmente morto.
Mais adiante um cavalheiro de olhar confiante,
distinto e irreversivelmente morto.
Ao fundo, um que comandou por décadas
a política paranaense,
solene, a mão firme apontando para o futuro,
mas interminavelmente morto.
Ali, em tamanho natural, um bispo,
severo, como se dono das chaves do Reino,
porém, inevitavelmente morto.
Desfila a procissão de rostos diante de mim.
Capitães de indústria, empreendedores e mortos.
Políticos matreiros, aristocráticos e mortos.
Jovens senhoras, lindas
e infinitamente mortas.
Professores, médicos, advogados,
sólidos, serenos, sábios e mortos,
como eu na minha hora,
talvez sem fama,
sem classe, sem título,
sem retrato, sem nome de rua,
mas principalmente
morto.