Muro de Berlim

Pela tevê assisto a queda
do muro de Berlim
e as picaretas trabalham
em mim.
Cai o muro de Berlim.
A utopia chega ao fim.
Desmorona, se esfacela,
tijolo por tijolo
um sonho implode, por fim.
Não. Não sou a favor do muro.
É o que o que com ele chega ao fim.
Já agonizava, bem sabia,
mas a morte anunciada
não te alivia
quando se vê a morte, enfim.
E tantos sonharam com a utopia.
Por ela tantos lutaram no dia-a-dia
e agora morta assim.
Não lamentarei mais
que a morte não volta atrás.
Um sonho está morto.
Os erros foram tantos.
É o fim?

Ursa maior

Existe uma estrela
que indica o Norte.
Não o meu, o seu,
mas o Norte do Norte.

Existe uma estrela
de brilho opaco,
de luz escura,
intangível aos móveis
referenciais cartesianos.

Existe uma estrela imóvel
que não está nas cartas celestes,
que brilha fora do alcance
da luneta dos cínicos.

Existe uma estrela
além do além do firmamento,
invulnerável, absoluta.
Existe uma estrela.

Poema final

Um poema único,
um único poema,
rolado do alto da serra,
água primeira
da primeira fonte.

Um poema de sete portas
que se abrem para sete corredores
com sete portas cada.

Um poema milenar,
legado remoto de ancestrais,
cinzelado na pedra mais dura
inerte, invulnerável, absoluto.

Um poema que te justifique,
que chegue à tua última víscera,
te exiba em tiras,
mantas de charque no varal.

Um poema caído do Olimpo,
idéia perfeita tecida com palavra,
úmido de transcendência.

Um poema final.
Depois dele, silêncio,
refúgio no deserto,
jejum eterno.

Um poema que não virá.

Biblioteca

Meu sonho é uma biblioteca
de mansão inglesa.
Daquelas que se organizam em círculo,
com mezanino para acessar
a parte alta das estantes.
Ao centro, o tapete persa,
a escrivaninha vitoriana,
o sofá chesterfield.
As edições raras de clássicos,
com capas duras
em marroquim vermelho.
Num canto, o carrilhão
faz do passar das horas
um momento de ascese.
E talvez, em alguma prateleira,
o livro de páginas infinitas de Borges.
Uma biblioteca, uma fortaleza.
Não é o mundo,
mas é um mundo.