|
omo acontece com a metáfora, a
leitura imediata de uma metonímia nos revela uma impertinência.
O leitor tentará resolvê-la usando um algoritmo próprio para
metonímias. Os elementos desse algoritmo são:
-
substituto
-
substituído
-
relação de contigüidade
-
decifração
Decifrar a metonímia consiste em
chegar ao termo substituído, ou seja, ao referente que atende à
dupla condição de ocupar a posição do substituto e manter com
este uma relação de contigüidade. A decifração depende do
contexto e deve ser pertinente a ele.
Um exemplo: Leu Drummond.
Substituto: Drummond
Relação de contigüidade: Drummond
é autor das poesias.
Substituído: poesias de Drummond.
Decifração: Leu poesias de
Drummond.
Tipos de metonímia
As metonímias normalmente são
classificadas pelo tipo de relação que vincula o substituído ao
substituto. Alguns casos notáveis:
-
A parte pelo todo. Ex.: Ficou
sem teto. Substituído: casa.
-
A espécie pelo indivíduo. Ex.:
O homem foi à Lua. Substituído: alguns astronautas.
-
O efeito pela causa. Ex.:
Respeite-lhe os cabelos brancos. Substituído: velhice.
-
A coisa por seu símbolo. Ex.: A
suástica paira sobre a Europa. Substituído: nazismo.
-
A coisa por um seu atributo. É a
perífrase. Neste tipo de metonímia é comum o enunciado
metonímico tornar-se símbolo do seu substituto. Ex.: Poeta
dos escravos, Cidade Luz. Substituídos: Castro
Alves e Paris.
-
O continente pelo conteúdo. Ex.:
Um litro de leite.
-
O autor pela obra. Ex.:
Leiloaram um Portinari. Substituído: um quadro pintado
por Portinari.
-
O local pela coisa. Ex.: O
Palácio do Planalto divulgou nota. Substituído: o
porta-voz da Presidência.
-
O singular pelo plural: O
imigrante povoou o Norte. Substituído: os imigrantes.
-
A matéria pela coisa: Trajava
um pano de primeira. Substituído: roupa.
Delimitação da metonímia
Se apresentarmos alguns exemplos
do que se entende por metonímia para uma pessoa que nunca
estudou Retórica não será difícil, dali por diante, que ela
identifique outras ocorrências de metonímia que lhe sejam
apresentadas. É simples reconhecer intuitivamente uma metonímia,
mas é muito difícil dar a ela uma definição compreensiva. Essa
dificuldade decorre de questões como:
Dizer que uma metonímia se forma
permutando a parte pelo todo é uma informação relevante mas não
suficiente para gerar metonímias adequadas pois nem toda parte
que substitui o todo produz o efeito desejado. Exemplo: Após
o incêndio ficou sem casa. Este enunciado pode ser
substituído por uma metonímia: Ficou sem teto. Se a
escolha da parte fosse arbitrária, poderíamos obter boas
metonímias dizendo: Ficou sem janela ou Ficou sem
parede ou Ficou sem soalho. Mas não é o que acontece.
É comum ouvirmos: Leu Aristóteles, Hoje, concerto. No
programa: Stravinski. Mas já não se ouve Queimou uma
Edison no lugar de Queimou uma lâmpada embora
lâmpada/Edison gozem da mesma relação obra/autor que existe
nas metonímias válidas. Também não se diz Amputou um dedo
no lugar de Amputou uma mão embora a relação dedo/mão
seja do tipo parte/todo. Para a metonímia ser bem-sucedida
algumas condições a mais precisam ser observadas.
Observando uma boa amostragem de
metonímias podemos induzir alguns tipos como: parte/todo,
continente/conteúdo, obra/autor, etc. Cada tipo apresenta
peculiaridades e é razoavelmente distinto dos demais, o que
dificulta a redução da disparidade. Na metonímia triste
madrugada há uma tradução bem diversa da metonímia um
quilo de batatas. Na primeira temos uma personificação, e na
segunda, uma equivalência de quantidades.
Efeito modificador da
metonímia
Em princípio, no enunciado
metonímico o substituto equivale em significação ao substituído.
Só em princípio, pois, boa parte das metonímias não se sobrepõe
perfeitamente em significado às suas decifrações.
Analisemos o seguinte exemplo:
Completou quinze anos.
Completou quinze primaveras.
Completou quinze invernos.
O primeiro enunciado é a
decifração das duas metonímias que lhe seguem. São metonímias do
tipo parte pelo todo. A metonímia que usa 'primaveras' é bem
comum. A metonímia que usa invernos não é adequada para
substituir a que usa primaveras. Quando usamos a
metonímia das primaveras, o discurso ganha um acréscimo
de significação que não teria se fosse usado o enunciado não
metonímico. Com a metonímia das primaveras a mensagem
além de afirmar um fato dá um juízo de valor sobre o fato. A
metonímia tem este potencial modificador da mensagem
relativamente ao enunciado próprio.
A metonímia O Brasil todo está
clamando não é equivalente por completo ao significado de
Os brasileiros todos estão clamando. Nessa metonímia, o
clamor se estende para além do seu sítio natural. Poderíamos
dizer tratar-se de uma metonímia hiperbólica.
Alguns tipos de modificação
notáveis que a metonímia pode operar:
Redução: na metonímia
Ficou sem teto, a dimensão do fato que envolve a perda de
uma casa fica reduzida ao seu aspecto mais dramático. Dizer
Ficou sem teto está mais próximo de Ficou desamparado
do que de Ficou sem casa.
Ampliação: na metonímia
O Brasil está clamando procura-se amplificar a dimensão do
fato.
Agregado de conotação. É o
caso do exemplo Completou quinze primaveras.
Funções da metonímia
-
Economia: uma metonímia em que o
substituto é menos extenso que o substituído se presta à
economia. Também temos economia quando o enunciado metonímico
tem significação mais extensa que a do enunciado próprio.
-
Variar para não repetir.
-
Atenuação ou agravamento. Muitos
eufemismos e disfemismos são metonímias.
-
Ênfase.
-
Modificação, redução, ampliação
do espectro de significação do enunciado próprio.
Interface entre metonímia e
metáfora
Alguns casos de metonímia se
assemelham à definição da metáfora. Exemplo: O homem foi à
Lua. No exemplo encontramos a metonímia. O substituto é
homem enquanto espécie e o substituído é alguns astronautas.
Também é plausível considerar o enunciado como uma metáfora.
'Homem' é um conceito semelhante a alguns astronautas. Na
verdade todas as características de homem são pertinentes
a alguns astronautas. O que descarta o enquadramento do
enunciado como metáfora é a falta da intenção de comparar.
Metonímia e sentido
preferencial
Pela própria definição, a
metonímia é um enunciado que pode ser substituído por um
enunciado equivalente que admite leitura imediata.
Certos tipos de metonímia
impuseram-se de tal modo que a forma não metonímica que os
substitui nunca é usada. As metonímias do tipo
continente-conteúdo são exemplo.
Uma garrafa de leite.
Um pacote de biscoitos.
Uma caixa de tomates.
Quem haveria de usar as formas:
Volume de leite que se contém
em uma garrafa.
Quantidade de biscoitos que
cabem num pacote.
Tomates em quantidade para
encher uma caixa.
O enunciado um quilograma de
carne é mais pitoresco. Um enunciado para substituir a
metonímia seria: Quantidade de massa de carne idêntica à da
massa do protótipo-padrão, armazenado no Bureau Internacional de
Pesos e Medidas. É uma metonímia do tipo: número de unidades
de medida por quantidade. O que seria da concisão sem a
metonímia num caso como este? |