{"id":214,"date":"2013-09-29T18:55:42","date_gmt":"2013-09-29T21:55:42","guid":{"rendered":"http:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/?p=214"},"modified":"2020-11-17T18:51:48","modified_gmt":"2020-11-17T21:51:48","slug":"fonema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/fonema\/","title":{"rendered":"Fonema"},"content":{"rendered":"\n<p>O fonema \u00e9 a unidade formal inferior da Fon\u00e9tica. Usamos fonemas com naturalidade em nossa comunica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 dif\u00edcil dizer em que medida os falantes t\u00eam uma consci\u00eancia natural deles. O que se pode dizer \u00e9 que essa consci\u00eancia se firma principalmente durante a alfabetiza\u00e7\u00e3o em sistemas fonol\u00f3gicos de escrita. \u00c9 durante a aquisi\u00e7\u00e3o da escrita que nos aproximamos dos fonemas. <\/p>\n\n\n\n<p>Como nos sistemas fonol\u00f3gicos o grafema geralmente corresponde a um fonema, o falante alfabetizado passa a distinguir com clareza essas unidades m\u00ednimas da fala. A consci\u00eancia dos fonemas requer, portanto, aprendizado cultural. A hist\u00f3ria da escrita nos mostra o longo e \u00e1rduo caminho percorrido at\u00e9 se chegar a sistemas consistentes de escrita fonol\u00f3gica. Isso nos d\u00e1 uma ideia do esfor\u00e7o envolvido no processo de compreens\u00e3o do fonema.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonema \u00e9 o m\u00f3dulo abstrato m\u00ednimo da fala em n\u00edvel de significante. \u00c9 o \u00e1tomo de constru\u00e7\u00e3o do significante do discurso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"333\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/fonetica.jpg?resize=500%2C333&#038;ssl=1\" alt=\"Fon\u00e9tica\" class=\"wp-image-3250\" title=\"Fon\u00e9tica\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/fonetica.jpg?w=500&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/fonetica.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Possibilidades de isolamento<\/h3>\n\n\n\n<p>Para verificar o aspecto m\u00ednimo das unidades formais da lingu\u00edstica costumamos recorrer \u00e0 segmenta\u00e7\u00e3o. Alguns fonemas podem ser isolados com facilidade, ou seja, podem ser pronunciados entre duas pausas. Exemplos s\u00e3o as vogais, que em nossa l\u00edngua, podem constituir palavras, como \u00e9 o caso de:&nbsp;<em>a<\/em>,&nbsp;<em>\u00e9<\/em>,&nbsp;<em>e<\/em> ou&nbsp;<em>o<\/em>. As consoantes, ao contr\u00e1rio, precisam ser pronunciadas junto com vogais e n\u00e3o h\u00e1 como isol\u00e1-las entre duas pausas de pron\u00fancia. <\/p>\n\n\n\n<p>Se quisermos explicar o que representa o grafema&nbsp;<em>p<\/em>, por exemplo, teremos que citar ocorr\u00eancias do fonema em segmentos como&nbsp;<em>p\u00e1<\/em>,&nbsp;<em>p\u00e9<\/em>,&nbsp;<em>pi<\/em>,&nbsp;<em>p\u00f3<\/em> e&nbsp;<em>pu<\/em>. \u00c9 certo que existem consoantes que podem ser pronunciadas isoladamente como \/s\/ ou \/f\/. O resultado, por\u00e9m, \u00e9 acusticamente diferente do que se registra quando s\u00e3o pronunciadas na adjac\u00eancia de uma vogal. Isso nos leva a uma primeira constata\u00e7\u00e3o: os fonemas s\u00e3o m\u00ednimos, mas nem todos ocorrem isoladamente. <\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de segmenta\u00e7\u00e3o do discurso em fonemas \u00e9 parcial. Certos fonemas n\u00e3o podem ser pronunciados isoladamente, sem o apoio de outro fonema adjacente. O que nos d\u00e1 a certeza da exist\u00eancia do fonema nesses casos, s\u00e3o as possibilidades de comut\u00e1-lo com outros fonemas ou de encontr\u00e1-lo em outros contextos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entidade abstrata<\/h3>\n\n\n\n<p>O fonema n\u00e3o \u00e9 um som, mas uma classe de sons da fala. Estes s\u00e3o aud\u00edveis, os fonemas n\u00e3o. Fonemas s\u00e3o conceitos abstratos inferidos da percep\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas comuns em grupos de sons da fala. Podemos compreender melhor essa caracter\u00edstica dos fonemas apelando para uma experi\u00eancia. Digamos que reunimos alguns falantes e a cada um damos c\u00f3pia de um texto simples para ser lido em voz alta. Um ouvinte que n\u00e3o v\u00ea os falantes, apenas ouve o que dizem, relata o que ouviu. O resultado das descri\u00e7\u00f5es pode ser parecido com o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Uma menina falou lentamente, entre v\u00e1rios titubeios pr\u00f3prios de quem est\u00e1 aprendendo a ler, a frase \u201cAs armas e os bar\u00f5es assinalados\u201d.<\/li><li>Um homem de voz grave leu com solenidade a frase \u201cAs armas e os bar\u00f5es assinalados\u201d.<\/li><li>Uma mulher de voz aguda leu com emo\u00e7\u00e3o, em alto e bom som a frase \u201cAs armas e os bar\u00f5es assinalados\u201d.<\/li><li>Um jovem leu rapidamente em tom burocr\u00e1tico e em volume baixo a frase \u201cAs armas e os bar\u00f5es assinalados\u201d.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Os sons da fala apresentam uma grande variedade de caracter\u00edsticas, que combinadas entre si resultam em uma infinidade de maneiras diferentes de proferir um mesmo enunciado. Algumas dessas caracter\u00edsticas como o timbre da voz, altura, volume e dura\u00e7\u00e3o, em conjunto, definem o que chamamos de entoa\u00e7\u00e3o do discurso. Os fonemas, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o definidos por essas caracter\u00edsticas. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o os fonemas que nos permitem reconhecer a mesma frase na fala das v\u00e1rias pessoas que participaram da experi\u00eancia. H\u00e1 uma abstra\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel no reconhecimento de fonemas. Para chegarmos a eles temos que expurgar todas as caracter\u00edsticas circunstanciais dos sons da fala e nos determos no essencial, no conjunto necess\u00e1rio e suficiente de caracter\u00edsticas que estabelecem os fonemas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Delimita\u00e7\u00e3o meton\u00edmica<\/h3>\n\n\n\n<p>Diferenciamos um fonema de outro pelas suas propriedades ac\u00fasticas. O ouvido tem a capacidade de identificar qual fonema est\u00e1 associado a determinado som da fala. Mas como delimitar os fonemas de forma rigorosa sem ter de contar apenas com o apuro do ouvido? Os foneticistas recorrem a duas solu\u00e7\u00f5es que chamaremos meton\u00edmicas porque n\u00e3o delimitam o fonema em si, mas o que o circunda.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira solu\u00e7\u00e3o consiste em analisar o espectrograma do som. As ondas sonoras podem ser representadas em gr\u00e1fico, com o aux\u00edlio de aparelho pr\u00f3prio, o espectr\u00f3grafo, que registra caracter\u00edsticas, tais como amplitude e freq\u00fc\u00eancia do som ao longo do tempo. O registro em gr\u00e1fico das varia\u00e7\u00f5es das propriedades do som no tempo constitui o espectrograma. Sons de um mesmo fonema apresentam espectrogramas similares.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda solu\u00e7\u00e3o \u00e9 delimitar o fonema a partir das caracter\u00edsticas de sua produ\u00e7\u00e3o no aparelho fonador. Podemos delimitar um fonema descrevendo com rigor a forma como ele \u00e9 gerado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Delimita\u00e7\u00e3o por idioma e universal<\/h3>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 delimitar os fonemas utilizados em um idioma espec\u00edfico, outra \u00e9 buscar uma delimita\u00e7\u00e3o universal que considere todas as possibilidades de fonemas que existem nas l\u00ednguas do mundo ou que possam ser gerados pelo aparelho fonador humano. As delimita\u00e7\u00f5es por idioma proliferaram ao longo da hist\u00f3ria principalmente com vistas ao estabelecimento de sistemas fonol\u00f3gicos de escrita. As delimita\u00e7\u00f5es universais, por outro lado, s\u00e3o cultivadas principalmente nos c\u00edrculos de estudos lingu\u00edsticos. A delimita\u00e7\u00e3o universal mais importante \u00e9 a da Associa\u00e7\u00e3o Fon\u00e9tica Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Universal como conjunto m\u00e1ximo<\/strong>. Quando se inventaria os fonemas usados em um idioma espec\u00edfico, a contagem costuma oscilar entre trinta ou quarenta itens. Por outro lado, o n\u00famero de fonemas considerado pela Associa\u00e7\u00e3o Fon\u00e9tica Internacional \u00e9 muito maior. Isso quer dizer que em cada idioma utiliza-se um conjunto de fonemas bem menor do que permitem as possibilidades do aparelho fonador. Cabe \u00e0 delimita\u00e7\u00e3o universal esgotar as possibilidades de fonemas. A princ\u00edpio, os fonemas de qualquer idioma s\u00e3o um subconjunto do conjunto de fonemas da delimita\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Comuta\u00e7\u00e3o plena<\/strong>. Em determinado idioma, dois fonemas distintos segundo a API podem ser usados com a mesma fun\u00e7\u00e3o. Ou seja, naquele idioma os falantes usam indiscriminadamente ora um, ora outro nos mesmos contextos. Nesse idioma, os dois fonemas universais t\u00eam o mesmo valor. Os falantes n\u00e3o fazem distin\u00e7\u00e3o entre um e outro. Podemos dizer que essas duas classes de sons s\u00e3o variantes comut\u00e1veis naquele idioma. Esse tipo de rela\u00e7\u00e3o costuma ocorrer entre fonemas universais similares, que se diferenciam por alguma sutileza.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Propriedades dos fonemas<\/h3>\n\n\n\n<p>Vamos imaginar um c\u00f3digo hipot\u00e9tico em que as unidades de significa\u00e7\u00e3o s\u00e3o colares de contas coloridas. Dispomos de um n\u00famero reduzido e fixo de tipos de contas. As contas de um mesmo tipo n\u00e3o s\u00e3o todas iguais. Umas s\u00e3o maiores, outras menores, apresentam diferen\u00e7as sutis na forma e a cor pode variar um pouco para um mesmo tipo. Mas o importante \u00e9 que a cor de cada tipo contrasta com as dos demais de forma inequ\u00edvoca, n\u00e3o deixando d\u00favidas a quem observa sobre o grupo a que a conta pertence. <\/p>\n\n\n\n<p>Combinando as contas de diferentes maneiras produzimos uma infinidade de colares com tamanhos diferentes, cada um dotado de um significado pr\u00f3prio. A conta colorida n\u00e3o possui significado nesse c\u00f3digo. O significado est\u00e1 ligado aos colares. Assim ocorre com os fonemas. Eles s\u00e3o a mat\u00e9ria prima para a produ\u00e7\u00e3o de segmentos de discurso dotados de significa\u00e7\u00e3o. Cada idioma considera um n\u00famero fixo e reduzido de fonemas que funcionam como \u00e1tomos da constru\u00e7\u00e3o dos enunciados. Fonemas n\u00e3o portam significado. \u00c9 a combina\u00e7\u00e3o linear de fonemas em segmentos maiores que gera unidades de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No c\u00f3digo hipot\u00e9tico dos colares de contas coloridas \u00e9 poss\u00edvel usar qualquer tipo de combina\u00e7\u00e3o entre contas. O mesmo n\u00e3o ocorre com a l\u00edngua. Existem in\u00fameras limita\u00e7\u00f5es para a combina\u00e7\u00e3o de fonemas. Se program\u00e1ssemos um computador para gerar segmentos com fonemas da l\u00edngua portuguesa sem impor nenhuma restri\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1quina obter\u00edamos as palavras da l\u00edngua portuguesa, al\u00e9m de um n\u00famero muito grande de segmentos como:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Brqsj, auiofdj, mnxts.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de fonemas ao acaso produz segmentos invi\u00e1veis, que n\u00e3o t\u00eam chance de se converter em palavras do idioma. Analisando-os come\u00e7amos a entender as regras que regem a combina\u00e7\u00e3o de fonemas.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem regras ligadas \u00e0 pron\u00fancia. A pron\u00fancia de um segmento s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se os fonemas se organizarem em s\u00edlabas, pois estas s\u00e3o a unidade m\u00ednima da pron\u00fancia. A gera\u00e7\u00e3o de s\u00edlabas tem suas regras. Por exemplo: a s\u00edlaba apresenta uma e s\u00f3 uma vogal ou, ent\u00e3o, uma consoante com fun\u00e7\u00e3o de vogal, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem regras ligadas aos h\u00e1bitos fon\u00e9ticos do idioma. Em portugu\u00eas, por exemplo, temos uma resist\u00eancia contra s\u00edlabas travadas no final da palavra, aquelas que terminam em consoante como em&nbsp;<em>Yor<strong>k<\/strong><\/em>,&nbsp;<em>clu<strong>b<\/strong><\/em> ou&nbsp;<em>hi<strong>p-<\/strong>ho<strong>p<\/strong><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, o estudo das regras de combina\u00e7\u00e3o de fonemas em um idioma \u00e9 uma \u00e1rea ampla ainda pouco explorada pelos ling\u00fcistas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fonem\u00e1rios<\/h3>\n\n\n\n<p>Em cada idioma encontramos um conjunto reduzido e fixo de fonemas que chamaremos de fonem\u00e1rio. Todo fonem\u00e1rio de idioma est\u00e1 integralmente contido no fonem\u00e1rio universal. Este, por sua vez, deve encerrar todas as possibilidades de fonemas das l\u00ednguas conhecidas. A delimita\u00e7\u00e3o de um fonem\u00e1rio universal realmente completo \u00e9 uma quest\u00e3o ainda a ser comprovada, mas temos de reconhecer a efici\u00eancia do fonem\u00e1rio da API.<\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de um fonem\u00e1rio de idioma \u00e9 regida por princ\u00edpios de efici\u00eancia e economia. Um fonem\u00e1rio deve ter um n\u00famero razo\u00e1vel de fonemas que permita gerar sem problemas os enunciados do idioma. Por outro lado, o n\u00famero n\u00e3o deve ser exagerado, pois isso acarretaria em maior esfor\u00e7o para a aquisi\u00e7\u00e3o do idioma. Outra boa raz\u00e3o para limitar o n\u00famero de fonemas de um idioma \u00e9 a necessidade de manter bom contraste entre os fonemas, o que facilita sua discrimina\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o com o c\u00f3digo dos colares de contas coloridas podemos dizer que as cores das contas devem ser bem contrastantes, pois \u00e9 f\u00e1cil distinguir entre amarelo e azul, mas \u00e9 necess\u00e1rio esfor\u00e7o maior para distinguir tons de amarelo ou de azul. Quanto mais tons, maior a possibilidade de equ\u00edvocos. Um fonem\u00e1rio com n\u00famero elevado de itens exigiria o uso de fonemas pouco contrastantes entre si, que se diferenciam apenas por sutilezas, exigindo, portanto, um apuro maior na emiss\u00e3o e decodifica\u00e7\u00e3o dos enunciados.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A quest\u00e3o da diferen\u00e7a distintiva<\/h3>\n\n\n\n<p>Alguns ling\u00fcistas prop\u00f5em que s\u00f3 tratamos duas classes de sons como fonemas distintos se comutando essas classes entre si pudermos gerar enunciados distintos. Por exemplo: a classe dos sons representados por \/p\/ \u00e9 um fonema distinto de \/b\/ em portugu\u00eas porque&nbsp;<em>pato<\/em> e&nbsp;<em>bato<\/em> s\u00e3o palavras com sentidos distintos. Embora tenham v\u00e1rias caracter\u00edsticas fon\u00e9ticas em comum, \/p\/ e \/b\/ s\u00e3o fonemas distintos no portugu\u00eas porque a diferen\u00e7a entre eles \u00e9 usada na estrutura do idioma para criar enunciados distintos.<\/p>\n\n\n\n<p>A tese da diferen\u00e7a distintiva \u00e9 v\u00e1lida em muitos casos, mas em algumas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o pode ser aplicada. Vamos exemplificar. Na l\u00edngua portuguesa brasileira usamos os fonemas \/\u00e1\/ e \/\u00e2\/, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma situa\u00e7\u00e3o de uso em que a comuta\u00e7\u00e3o entre os dois tenha valor distintivo no idioma. Pelo contr\u00e1rio, os dois fonemas ocorrem em distribui\u00e7\u00e3o complementar. Nas situa\u00e7\u00f5es de uso em que um ocorre o outro n\u00e3o \u00e9 usado com certeza. <\/p>\n\n\n\n<p>O fonema \/\u00e2\/ ocorre apenas antecedendo consoantes nasais, enquanto que \/\u00e1\/ nunca ocorre antes de consoante nasal. Os dois fonemas, portanto, n\u00e3o podem ser comutados em nenhum contexto. Tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser considerados variantes do mesmo fonema pela impossibilidade de serem comutados indistintamente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A quest\u00e3o das dicotomias<\/h3>\n\n\n\n<p>Muitos foneticistas prop\u00f5em um modelo de especifica\u00e7\u00e3o para os fonemas de uma l\u00edngua baseado em dicotomias. Vamos exemplificar este m\u00e9todo analisando o fonema \/p\/ que pode ser especificado por algumas decis\u00f5es dicot\u00f4micas. Na dicotomia consoante\/vogal, \/p\/ \u00e9 consoante. Na dicotomia nasal\/oral, \/p\/ \u00e9 oral. Na dicotomia oclusivo\/constritivo, se classifica como oclusivo. Na dicotomia sonoro\/surdo, \u00e9 surdo. O m\u00e9todo das dicotomias funciona satisfatoriamente para boa parte das caracter\u00edsticas que especificam um fonema a partir de seu modo de produ\u00e7\u00e3o no aparelho fonador. <\/p>\n\n\n\n<p>Para algumas situa\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 como especificar o fonema no modelo dicot\u00f4mico. Voltando ao exemplo do fonema \/p\/: Quanto ao modo de articula\u00e7\u00e3o este fonema se classifica como bilabial. A caracter\u00edstica bilabial, no entanto, pertence um grupo amplo em possibilidades. Se n\u00e3o for bilabial, o fonema pode ser labiodental, linguodental, alveolar, p\u00f3s-alveolar, palatal, velar ou uvular. N\u00e3o temos aqui duas possibilidades, mas oito, que se distribuem de forma complementar. <\/p>\n\n\n\n<p>Alguns podem propor uma solu\u00e7\u00e3o criando dicotomias for\u00e7adas do tipo: bilabial\/n\u00e3o-bilabial, labiodental\/n\u00e3o-labiodental, etc. Essa solu\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, mascara a rela\u00e7\u00e3o de complementariedade que rege o grupo bilabial + labiodental + linguodental + alveolar + p\u00f3s-alveolar + palatal + velar + uvular.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quantos fonemas existem?<\/h3>\n\n\n\n<p>Fonemas s\u00e3o entidades ligadas a idiomas. O fonema s\u00f3 existe na estrutura do idioma. Sob essa perspectiva podemos dizer que o n\u00famero de fonemas \u00e9 finito e determin\u00e1vel em um dado momento hist\u00f3rico a partir do invent\u00e1rio exaustivo dos fonemas de todos os idiomas conhecidos e considerando que muitos fonemas s\u00e3o comuns a v\u00e1rios idiomas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o n\u00famero de fonemas potencias que o aparelho fonador pode gerar \u00e9 indeterminado e provavelmente, muito alto. Esse universo amplo de possibilidades s\u00f3 \u00e9 parcialmente explorado pelos idiomas do mundo. Seria temer\u00e1rio dizer que o n\u00famero de fonemas potenciais \u00e9 ilimitado, pois \u00e0 medida que agrupamos os sons da fala em tipos cada vez mais restritos, corremos o risco de chegar a um ponto em que o ouvido humano n\u00e3o conseguir\u00e1 mais discriminar diferen\u00e7as t\u00e3o sutis.<\/p>\n\n\n\n<p>As l\u00ednguas se estruturam por alguns crit\u00e9rios de produtividade e economia operando com uma quantidade restrita, mas eficiente de fonemas. Uma quantidade exagerada prejudicaria a aquisi\u00e7\u00e3o do idioma e o seu uso, visto que ampliando a quantidade, inevitavelmente come\u00e7amos a operar com fonemas semelhantes entre si e isso prejudica a discrimina\u00e7\u00e3o. O n\u00famero de fonemas por idioma \u00e9 otimizado para atender as necessidades de uma boa comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fon\u00e9tica<\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/fonema\/\">Fonema<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/fonemas-da-lingua-portuguesa-brasileira\/\">Fonemas da l\u00edngua portuguesa brasileira<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/silaba\/\">S\u00edlaba<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/vogal\/\">Vogal<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Unidades formais m\u00ednimas da Lingu\u00edstica<\/h4>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/fonema\/\">Fonema<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/silaba\/\">S\u00edlaba<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/grafologia\/grafema\/\">Grafema<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/morfologia\/morfema\/\">Morfema<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/morfologia\/palavra\/\">Palavra<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/morfologia\/lexema\/\">Lexema<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/sintagmas-da-lingua-portuguesa\/\">Sintagma<\/a><\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fonema \u00e9 a unidade formal inferior da Fon\u00e9tica. Usamos fonemas com naturalidade em nossa comunica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 dif\u00edcil dizer em que medida os falantes t\u00eam uma consci\u00eancia natural deles. O que se pode dizer \u00e9 que essa consci\u00eancia se firma principalmente durante a alfabetiza\u00e7\u00e3o em sistemas fonol\u00f3gicos de escrita. \u00c9 durante a aquisi\u00e7\u00e3o da &hellip; <a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/fonema\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Fonema<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[147],"tags":[148,149,150,142],"class_list":["post-214","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fonetica","tag-fonema","tag-fonemario","tag-fonetica-2","tag-linguistica"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s74YWN-fonema","jetpack-related-posts":[{"id":231,"url":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/silaba\/","url_meta":{"origin":214,"position":0},"title":"S\u00edlaba","author":"Radam\u00e9s","date":false,"format":false,"excerpt":"Na maioria dos casos, os falantes n\u00e3o encontram dificuldades para segmentar o discurso em s\u00edlabas, pois h\u00e1 v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de uso da l\u00edngua em que a consci\u00eancia da s\u00edlaba \u00e9 exigida. Isso ocorre, por exemplo, quando o falante emite o discurso em pequenos segmentos para enfatizar a mensagem ou para\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Fon\u00e9tica&quot;","block_context":{"text":"Fon\u00e9tica","link":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/category\/gramatica\/fonetica\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/fonetica.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]},{"id":220,"url":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/fonetica\/fonemas-da-lingua-portuguesa-brasileira\/","url_meta":{"origin":214,"position":1},"title":"Fonemas da l\u00edngua portuguesa brasileira","author":"Radam\u00e9s","date":false,"format":false,"excerpt":"O idioma portugu\u00eas utiliza 34 fonemas, sendo 13 vogais, 19 consoantes e 2 semivogais. Est\u00e3o representados na tabela a seguir: Tabela de fonemas Fonema* Caracter\u00edsticas fon\u00e9ticas Exemplos ** \u00e1 Aberta, frontal, oral, n\u00e3o arredondada. \u00e1tomo,\u00a0arte \u00e2Semi-aberta, central, oral, n\u00e3o arredondada.pano, ramo, lanho\u00e3Semi-aberta, central, nasal, n\u00e3o arredondada.antes,\u00a0amplo, ma\u00e7\u00e3,\u00e2mbito,\u00a0\u00e2nsia\u00e9Semi-aberta, frontal, oral, n\u00e3o\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Fon\u00e9tica&quot;","block_context":{"text":"Fon\u00e9tica","link":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/category\/gramatica\/fonetica\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/fonetica.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]},{"id":261,"url":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/grafologia\/grafemas-da-ortografia-brasileira\/","url_meta":{"origin":214,"position":2},"title":"Grafemas da ortografia brasileira","author":"Radam\u00e9s","date":false,"format":false,"excerpt":"No Brasil, usamos 78 grafemas para representa\u00e7\u00e3o de fonemas: a\u00e0\u00e1\u00e2\u00e3bc\u00e7de\u00e9\u00eafghi\u00edjklmno\u00f3\u00f4\u00f5pqrstu\u00fc\u00favxywzA\u00c0\u00c1\u00c2\u00c3BC\u00c7DE\u00c9\u00caFGHI\u00cdJKLMNO\u00d3\u00d4\u00d5PQRSTU\u00dc\u00daVXYWZ Consideramos mai\u00fasculas e min\u00fasculas distintamente, em vez de trat\u00e1-las como variantes do mesmo grafema, porque em nossa ortografia mai\u00fasculas e min\u00fasculas t\u00eam fun\u00e7\u00f5es distintas e n\u00e3o podem ser comutadas livremente. Sinais ortogr\u00e1ficos n\u00e3o fonol\u00f3gicos Al\u00e9m dos grafemas fonol\u00f3gicos, empregamos outros\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Grafologia&quot;","block_context":{"text":"Grafologia","link":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/category\/gramatica\/grafologia\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/gram%C3%A1tica.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]},{"id":243,"url":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/grafologia\/transcricoes\/","url_meta":{"origin":214,"position":3},"title":"Transcri\u00e7\u00f5es e ortografias","author":"Radam\u00e9s","date":false,"format":false,"excerpt":"Chamamos de transcri\u00e7\u00e3o ao conjunto coeso e abrangente de regras de escrita que viabiliza a representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica do discurso oral de pelo menos um idioma. Transcri\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas Muitas transcri\u00e7\u00f5es foram criadas pelos povos ao longo da Hist\u00f3ria, quase sempre voltadas para as necessidades de uma l\u00edngua espec\u00edfica, tanto que \u00e9\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Grafologia&quot;","block_context":{"text":"Grafologia","link":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/category\/gramatica\/grafologia\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/morfologia.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]},{"id":247,"url":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/grafologia\/alfabeto-romano\/","url_meta":{"origin":214,"position":4},"title":"Alfabeto romano (latino)","author":"Radam\u00e9s","date":false,"format":false,"excerpt":"A escrita romana ou latina, criada para o latim da Roma Antiga, deu origem a in\u00fameras transcri\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas contempor\u00e2neas, entre elas, a do portugu\u00eas brasileiro. 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