{"id":309,"date":"2013-10-06T18:51:34","date_gmt":"2013-10-06T21:51:34","guid":{"rendered":"http:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/?p=309"},"modified":"2020-11-19T14:54:13","modified_gmt":"2020-11-19T17:54:13","slug":"estruturas-sintaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/estruturas-sintaticas\/","title":{"rendered":"Estruturas sint\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao estudar a l\u00edngua, temos apenas os discursos como ponto de partida. A gram\u00e1tica da l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel em si. As estruturas sint\u00e1ticas n\u00e3o est\u00e3o vis\u00edveis para observa\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 bons ind\u00edcios de que o sistema de regras que constitui a compet\u00eancia dos falantes \u00e9 formado por estruturas sint\u00e1ticas. Vamos exemplificar. Uma primeira evid\u00eancia est\u00e1 em frases como:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"332\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/gram%C3%A1tica.jpg?resize=500%2C332&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3236\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/gram%C3%A1tica.jpg?w=500&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/files\/gram%C3%A1tica.jpg?resize=300%2C199&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><em>Pedro encontrou a senha do cart\u00e3o de cr\u00e9dito que ele tinha perdido.<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O exemplo dado \u00e9 uma ambiguidade sint\u00e1tica. Afinal, Pedro perdeu a senha ou o cart\u00e3o? Podemos resolver a confus\u00e3o com o uso de par\u00eanteses. Observe:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><em>Pedro encontrou a senha (do cart\u00e3o de cr\u00e9dito que tinha perdido).<\/em><\/li><li><em>Pedro encontrou (a senha do cart\u00e3o de cr\u00e9dito) que ele tinha perdido.<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O emprego de par\u00eanteses gera dois sentidos v\u00e1lidos para a frase, Isso indica que a forma como agrupamos os itens da frase influi no seu sentido. Outra evid\u00eancia est\u00e1 na categoria de caso, presente em v\u00e1rios idiomas. No portugu\u00eas, temos um exemplo dessa categoria nos pronomes pessoais. Observe as frases seguintes:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Eu<\/strong><em> entreguei&nbsp; o livro a Pedro.<\/em><\/li><li><em>Pedro recebeu o livro de&nbsp;<strong>mim<\/strong>.<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Nas duas frases, a mesma pessoa \u00e9 designada ora pela palavra&nbsp;<em>eu<\/em>, ora pela palavra&nbsp;<em>mim<\/em>. Isso ocorre porque os pronomes pessoais t\u00eam formas diferentes dependendo do caso. E qual seria a diferen\u00e7a considerada que justifica o uso de diferentes formas do pronome? N\u00e3o \u00e9 uma diferen\u00e7a que se explica por raz\u00f5es sem\u00e2nticas como nas varia\u00e7\u00f5es de g\u00eanero ou n\u00famero. <\/p>\n\n\n\n<p>O uso das diferentes formas do pronome nos exemplos, deve-se ao fato de o pronome estar sendo usado em diferentes contextos sint\u00e1ticos. Na primeira frase, o pronome desempenha uma fun\u00e7\u00e3o na estrutura sint\u00e1tica da frase e, na segunda, desempenha outra. O latim cl\u00e1ssico \u00e9 uma l\u00edngua que faz uso intensivo de flex\u00f5es de caso. Os substantivos, em latim cl\u00e1ssico, t\u00eam seis formas diferentes, uma para cada caso, ou de outra forma, uma para cada fun\u00e7\u00e3o exercida na estrutura da frase.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de evid\u00eancias como essas, somos levados a crer que os falantes realmente segmentam as frases em partes, relacionando cada parte com uma fun\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica, tanto quando geram frases como quando as interpretam. Os falantes t\u00eam consci\u00eancia intuitiva dessas partes, tanto que em l\u00ednguas como o latim, empregam diferentes formas dependendo da fun\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica desempenhada pela palavra na frase. Esses segmentos se organizam em uma estrutura sint\u00e1tica. \u00c9 dessas estruturas que vamos nos ocupar daqui por diante.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Unidades formais da sintaxe<\/h2>\n\n\n\n<p>No n\u00edvel sint\u00e1tico de an\u00e1lise encontramos tr\u00eas unidades formais: <strong>per\u00edodo<\/strong>, <strong>frase <\/strong>e <strong>sintagma<\/strong>. Podemos dizer que o modelo \u00e9 conc\u00eantrico. O per\u00edodo \u00e9 a unidade superior e se comp\u00f5e por frases. Estas, por sua vez, se comp\u00f5em de sintagmas que s\u00e3o as unidades inferiores do n\u00edvel sint\u00e1tico. Observe o exemplo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>(Niemeyer projetou os edif\u00edcios) e (L\u00facio Costa criou o projeto urban\u00edstico.)<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>No exemplo, temos um per\u00edodo composto por duas frases:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Niemeyer projetou os edif\u00edcios.<\/li><li>L\u00facio Costa criou o projeto urban\u00edstico.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Cada frase do exemplo se decomp\u00f5e em sintagmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Niemeyer projetou os edif\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Sujeito<\/strong>:&nbsp;<em>Niemeyer<\/em>.<\/li><li><strong>Sintagma verbal<\/strong>:&nbsp;<em>projetou<\/em>.<\/li><li><strong>Objeto direto<\/strong>:&nbsp;<em>os edif\u00edcios<\/em>.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>L\u00facio Costa criou o projeto urban\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Sujeito<\/strong>:&nbsp;<em>L\u00facio Costa<\/em><\/li><li><strong>Sintagma verbal<\/strong>:&nbsp;<em>criou<\/em><\/li><li><strong>Objeto direto<\/strong>:&nbsp;<em>o projeto urban\u00edstico.<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Encaixes de unidades<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma an\u00e1lise mais aprofundada, no entanto, nos mostra que gra\u00e7as ao recurso do encaixe, podemos encontrar per\u00edodos contidos em per\u00edodos, frases contidas em frases e sintagmas contidos em sintagmas, al\u00e9m de per\u00edodos contidos em frases, per\u00edodos contidos em sintagmas e frases contidas em sintagmas. Veja exemplos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Per\u00edodo contido em per\u00edodo:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>[Eu o convoquei para a reuni\u00e3o], mas [(ele alegou agenda cheia) e (n\u00e3o garantiu presen\u00e7a.)]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Per\u00edodo contido em frase:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Todos esperam que [(ele reconsidere) e (perdoe o amigo.)]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Per\u00edodo contido em sintagma:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Temos {a esperan\u00e7a de que [(a justi\u00e7a tarda) mas (n\u00e3o falha.)]}<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Frase contida em frase:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>[Eu garanto (que ele vir\u00e1 \u00e0 reuni\u00e3o.)]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Frase contida em sintagma:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Estava obcecado [pela ideia de (que podia atingir o objetivo.)]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Sintagma contido em sintagma:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Ela \u00e9 [filha de (Cl\u00e1udia e M\u00e1rcio.)]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Aparentemente, as v\u00e1rias possibilidades de encaixe que a sintaxe nos permite perturbam a ideia de que per\u00edodo, frase e sintagma se organizam em um modelo conc\u00eantrico. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 aparente e vamos explicar por que. <\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo \u00e9 composto por frases e as frases s\u00e3o compostas por sintagmas. Este princ\u00edpio \u00e9 o nosso ponto de partida, v\u00e1lido para todos os enunciados, tirando de lado apenas os casos em que acontece encaixe. No encaixe, uma unidade formal sint\u00e1tica aparece em posi\u00e7\u00e3o inesperada, como por exemplo: um per\u00edodo toma o lugar de uma frase ou uma frase toma o lugar de um sintagma. Mas quando a unidade de n\u00edvel mais alto ocupa a posi\u00e7\u00e3o de uma unidade de n\u00edvel mais baixo, a unidade superior assume o perfil sint\u00e1tico da unidade de n\u00edvel inferior. <\/p>\n\n\n\n<p>Tomada no seu conjunto, quando uma frase est\u00e1 encaixada em outra, ela se transforma em sintagma da frase m\u00e3e. Ela torna-se simultaneamente sintagma da frase m\u00e3e e frase se considerada isoladamente. O recurso do encaixe faz com que o item encaixado assuma dupla funcionalidade. No encaixe, um segmento pode ser ao mesmo tempo unidade de n\u00edvel inferior no contexto da unidade m\u00e3e e unidade de n\u00edvel superior se considerada isoladamente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Delimita\u00e7\u00e3o das unidades formais da sintaxe<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 simples definir com rigor as unidades formais da sintaxe (per\u00edodo, frase e sintagma), dada a complexidade e a riqueza da estrutura gramatical. Essa afirma\u00e7\u00e3o contrasta com a facilidade com que os falantes captam intuitivamente esses conceitos<\/p>\n\n\n\n<p>Os usu\u00e1rios do idioma entendem rapidamente o que queremos dizer com o termo&nbsp;<em>frase<\/em>, se introduzirmos o conceito atrav\u00e9s de exemplos, se fizermos aproxima\u00e7\u00f5es ou se apelarmos \u00e0 intui\u00e7\u00e3o dos falantes. Na verdade, a Gram\u00e1tica Tradicional sempre usou desses expedientes para apresentar o conceito de frase. Mas quando buscamos uma defini\u00e7\u00e3o formal para a frase, a situa\u00e7\u00e3o se complica consideravelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, os falantes t\u00eam uma intui\u00e7\u00e3o clara do que seja um per\u00edodo, pois conseguem segmentar facilmente os discursos em per\u00edodos. Fazem isso quando, no discurso escrito, utilizam mai\u00fasculas e sinais se pontua\u00e7\u00e3o para delimitar o in\u00edcio e o fim de per\u00edodos. No discurso oral, delimitam os per\u00edodos usando pausas e modula\u00e7\u00f5es de entoa\u00e7\u00e3o. No entanto, se quisermos uma defini\u00e7\u00e3o rigorosa de per\u00edodo, precisamos contornar algumas dificuldades.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos sintagmas, \u00e9 dif\u00edcil dizer em que medida os falantes t\u00eam uma intui\u00e7\u00e3o forte dessas unidades formais, pois s\u00e3o poucos os contextos em que a consci\u00eancia deles seja cobrada do usu\u00e1rio, a n\u00e3o ser na esfera dos estudos gramaticais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia, vamos apresentar considera\u00e7\u00f5es relevantes para a delimita\u00e7\u00e3o das unidades formais da sintaxe.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Delimitadores de in\u00edcio e fim<\/h3>\n\n\n\n<p>Uma constata\u00e7\u00e3o imediata acerca de per\u00edodos \u00e9 que no discurso escrito os per\u00edodos s\u00e3o iniciados com grafema mai\u00fasculo e terminam com um sinal de pontua\u00e7\u00e3o final. Essas constata\u00e7\u00f5es, v\u00e1lidas para a maioria dos per\u00edodos, nos levam \u00e0 quest\u00e3o: essas caracter\u00edsticas s\u00e3o relevantes para a defini\u00e7\u00e3o do per\u00edodo ou s\u00e3o consequ\u00eancia do fato de o enunciado ser um per\u00edodo? Usamos letra mai\u00fascula no in\u00edcio de um per\u00edodo porque o reconhecemos como per\u00edodo ou para estabelec\u00ea-lo como per\u00edodo? A mai\u00fascula inicial apenas refor\u00e7a informa\u00e7\u00f5es contidas em outros elementos de que estamos diante de um per\u00edodo? Trata-se de uma sinaliza\u00e7\u00e3o redundante que se for subtra\u00edda n\u00e3o prejudica o entendimento do falante, que poder\u00e1 facilmente se localizar dentro do contexto e delimitar o per\u00edodo, mesmo sem a presen\u00e7a de um sinalizador gr\u00e1fico de come\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p>E quanto aos sinais de pontua\u00e7\u00e3o final? Bem, eles s\u00e3o decisivos para definir o tipo de frase que comp\u00f5e o per\u00edodo, principalmente, para distinguir entre frase interrogativa e n\u00e3o interrogativa. Se comutarmos o ponto final pelo ponto de interroga\u00e7\u00e3o, veremos que nos dois casos continuamos tendo uma frase, embora de natureza diversa uma da outra.<\/p>\n\n\n\n<p>As constata\u00e7\u00f5es que fizemos sobre o discurso escrito podem ser transpostas para o discurso oral. Quando pronunciados, os per\u00edodos seguem padr\u00f5es definidos de entoa\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 esta uma caracter\u00edstica importante para a conceitua\u00e7\u00e3o de per\u00edodo, ou, a entoa\u00e7\u00e3o \u00e9 um refor\u00e7o \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de que o segmento \u00e9 um per\u00edodo. Vale lembrar que os padr\u00f5es de entoa\u00e7\u00e3o servem, tamb\u00e9m, para distinguir entre tipos de frase que comp\u00f5em o per\u00edodo, em especial, para diferenciar as interrogativas, das n\u00e3o interrogativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fizemos esses questionamentos iniciais para abordar o problema presente nos dois enunciados a seguir:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Vim, vi, venci.<\/li><li>Vim. Vi. Venci.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>No primeiro enunciado, em que temos apenas um ponto final, existe s\u00f3 um per\u00edodo. No segundo enunciado, com os segmentos delimitados por tr\u00eas pontos finais, temos tr\u00eas per\u00edodos. A partir do exemplo, vemos que, em alguns casos, o uso de delimitadores de in\u00edcio e fim \u00e9 crucial para estabelecer o segmento como per\u00edodo. No exemplo dado, sem os delimitadores n\u00e3o temos como antecipar a proposta do emissor para segmenta\u00e7\u00e3o do enunciado em per\u00edodos. <\/p>\n\n\n\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 que, em alguns casos, a delimita\u00e7\u00e3o dos per\u00edodos de um enunciado \u00e9 estabelecida pela vontade do emissor, em fun\u00e7\u00e3o de graus de liberdade que o enunciado oferece. Se o emissor considerar que as tr\u00eas frases do exemplo formam um conjunto concatenado, organiza-as num agrupamento maior, o per\u00edodo, e deixa isso claro para o receptor por meio dos sinalizadores de in\u00edcio e fim. <\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se o emissor entender que as frases do enunciado n\u00e3o formam um grupo concatenado, faz uma distribui\u00e7\u00e3o diferente dos delimitadores de in\u00edcio e fim.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00e3o todos os enunciados que oferecem mais de uma possibilidade de segmenta\u00e7\u00e3o. Analise o exemplo a seguir:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>ele se esfor\u00e7ou mas n\u00e3o atingiu a nota m\u00ednima<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Apresentarmos o enunciado sem os delimitadores de in\u00edcio e fim, mas mesmo assim ser\u00e1 poss\u00edvel delimitar o per\u00edodo e suas frases, pois nesse caso s\u00f3 existe uma possibilidade de segmenta\u00e7\u00e3o que produz enunciados aceit\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Ele se esfor\u00e7ou, mas n\u00e3o atingiu a nota m\u00ednima.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Resumindo: os delimitadores de in\u00edcio e fim cooperam com outros elementos da estrutura sint\u00e1tica para estabelecer as unidades formais da sintaxe. Em alguns casos, s\u00e3o redundantes e, se subtra\u00eddos, mesmo assim ser\u00e1 poss\u00edvel discernir qual \u00e9 a segmenta\u00e7\u00e3o correta do enunciado. Em outros casos, o uso dos delimitadores \u00e9 crucial para determinar a segmenta\u00e7\u00e3o proposta pelo emissor. Se forem subtra\u00eddos, surge uma incerteza que n\u00e3o se dissipada pela an\u00e1lise de outros elementos da estrutura sint\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Enunciado completo<\/h3>\n\n\n\n<p>Uma caracter\u00edstica b\u00e1sica das unidades formais sint\u00e1ticas \u00e9 que s\u00e3o enunciados completos. Isso quer dizer que as informa\u00e7\u00f5es nelas contidas formam um todo consistente e que n\u00e3o&nbsp; se identifica a aus\u00eancia de elementos necess\u00e1rios \u00e0 compreens\u00e3o. Quando ouvimos ou lemos uma frase bem formada, por exemplo, nosso entendimento n\u00e3o constata aus\u00eancias que nos causam estranheza ou dificuldades na decodifica\u00e7\u00e3o. Mas conv\u00e9m lembrar que a completude das unidades formais se d\u00e1 na camada gramatical de an\u00e1lise e n\u00e3o na camada contextual. S\u00e3o diferentes entre si o enunciado gramaticalmente completo e o contextualmente completo. Por exemplo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Eu vou.<\/li><li>Eu vou com voc\u00ea ao \u2026<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O primeiro enunciado pode ser considerado gramaticalmente completo, mas talvez seja insuficiente para satisfazer as necessidades de comunica\u00e7\u00e3o em&nbsp; contexto espec\u00edfico. O ouvinte pode perguntar: Vai onde? No entanto, se o ouvinte estiver imerso em um contexto em que sabe onde o emissor vai, a comunica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 satisfatoriamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo enunciado \u00e9 gramaticalmente incompleto, mas talvez seja suficiente para o receptor captar o sentido da mensagem. Gramaticalmente incompleto porque em portugu\u00eas \u00e9 necess\u00e1rio um sintagma substantivo ap\u00f3s a preposi\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia desse sintagma gera estranheza ao receptor. Por outro lado, se o receptor souber pelo contexto onde \u00e9 que o emissor vai, a comunica\u00e7\u00e3o acontece sem problemas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Enunciado auto contido<\/h3>\n\n\n\n<p>As partes de um enunciado se interligam por uma rede de relacionamentos sint\u00e1ticos. Uma das caracter\u00edsticas das unidades formais sint\u00e1ticas \u00e9 que os relacionamentos se resolvem dentro dos limites da unidade, ou seja, as unidades s\u00e3o auto contidas do ponto de vista sint\u00e1tico e n\u00e3o dependem de elementos externos a elas para serem compreens\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Enunciado sintaticamente bem formado<\/h3>\n\n\n\n<p>Dizer que um enunciado \u00e9 bem formado \u00e9 se referir a uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es que devem ser satisfeitas para que a boa forma\u00e7\u00e3o seja confirmada. Sem d\u00favida, existe uma enormidade de regras gramaticais que devem ser obedecidas para que um enunciado possa ser chamado de bem formado. Mas para nossa delimita\u00e7\u00e3o das unidades formais, a condi\u00e7\u00e3o mais importante \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o dos elementos sint\u00e1ticos segundo modelos v\u00e1lidos da gram\u00e1tica do idioma. Em outras palavras: na unidade formal, podemos reconhecer segmentos de n\u00edvel inferior, mas que pertencem ao n\u00edvel sint\u00e1tico de an\u00e1lise, organizados segundo um dos modelos v\u00e1lidos da gram\u00e1tica do idioma. N\u00e3o deve haver falta de elementos, nem excesso, nem conflito, nem problemas na ordem em que eles se distribuem, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradicionalmente, sempre se despendeu esfor\u00e7o em determinar quais seriam os constituintes sint\u00e1ticos essenciais da frase. O esfor\u00e7o resultou debalde, pois provavelmente, n\u00e3o existem tais constituintes. Existem sim, v\u00e1rias combina\u00e7\u00f5es de constituintes sint\u00e1ticos que s\u00e3o reconhecidas como frase, no entanto, nessas combina\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguimos extrair uma regularidade universal ou componente essencial. Talvez a \u00fanica caracter\u00edstica universal que se pode atribuir \u00e0s frases seja a de serem constitu\u00eddas por uma combina\u00e7\u00e3o gramatical de constituintes sint\u00e1ticos de n\u00edvel inferior, entre os quais destacamos: sujeito, sintagma verbal, sintagma adjetivo, objeto direto, objeto indireto e sintagma adverbial.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Enunciado m\u00ednimo<\/h3>\n\n\n\n<p>Uma das condi\u00e7\u00f5es para um enunciado ser uma unidade formal sint\u00e1tica \u00e9 que n\u00e3o seja poss\u00edvel dividi-lo em dois outros segmentos em que os dois por sua vez, tamb\u00e9m sejam completos, autocontidos e sintaticamente bem formados.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Interdepend\u00eancia entre frase e sintagma<\/h3>\n\n\n\n<p>Uma das dificuldades para a defini\u00e7\u00e3o de frase e sintagma \u00e9 a interdepend\u00eancia dos dois conceitos, o que dificulta a defini\u00e7\u00e3o de um antes do outro. S\u00f3 reconhecemos uma frase bem formada, ou aceit\u00e1vel, na medida em que identificamos os sintagmas que a comp\u00f5e. Por outro lado, os sintagmas s\u00f3 s\u00e3o compreens\u00edveis na medida em que s\u00e3o vistos como constituintes da frase.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse problema \u00e9 milenar, tanto que na Gram\u00e1tica Tradicional define-se o modelo mais t\u00edpico de frase como o enunciado que apresenta sujeito e predicado, ou ao menos predicado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Elipses<\/h3>\n\n\n\n<p>Observe o per\u00edodo a seguir:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Tive sorte e voc\u00ea, n\u00e3o.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Nesse exemplo, temos duas elipses, ou seja, a aus\u00eancia previs\u00edvel de algum item da frase. A primeira elipse \u00e9 a aus\u00eancia do pronome&nbsp;<em>eu<\/em>&nbsp;na frase&nbsp;<em>tive sorte<\/em>. A segunda elipse \u00e9 a aus\u00eancia de<em>teve sorte&nbsp;<\/em>na frase&nbsp;<em>voc\u00ea, n\u00e3o.&nbsp;<\/em>O per\u00edodo de exemplo pode ser parafraseado da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Eu<\/strong>&nbsp;tive sorte e voc\u00ea n\u00e3o&nbsp;<strong>teve sorte<\/strong>.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A elipse do pronome\u00a0<em>eu<\/em>\u00a0\u00e9 poss\u00edvel porque o sujeito da a\u00e7\u00e3o est\u00e1 impl\u00edcito na flex\u00e3o do verbo. <em>Tive<\/em>\u00a0\u00e9 flex\u00e3o de primeira pessoa singular do verbo <em>ter<\/em>, o que \u00e9 suficiente para determinar o sujeito da a\u00e7\u00e3o como sendo\u00a0<em>eu<\/em>. A segunda frase do per\u00edodo de exemplo, tomada isoladamente, \u00e9 inaceit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>* Voc\u00ea, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a elipse \u00e9 permitida nesse caso porque os itens elididos foram citados na frase anterior. Trata-se de um caso particular de elipse, conhecido como zeugma.<\/p>\n\n\n\n<p>A elipse \u00e9 um recurso vastamente empregado em todas as variantes lingu\u00edsticas e se constitui em um desafio para a teoria sint\u00e1tica. A teoria sint\u00e1tica se baseia na an\u00e1lise de frases completas. A elipse perturba a an\u00e1lise sint\u00e1tica porque n\u00e3o h\u00e1 como garantir, sen\u00e3o por especula\u00e7\u00e3o, como se deu a elis\u00e3o de itens do enunciado<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa an\u00e1lise, vamos nos focar em enunciados completos. Vamos considerar que a elipse \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica da frase. Trataremos a elipse como uma opera\u00e7\u00e3o al\u00e9m do n\u00edvel sint\u00e1tico de an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sintaxe<\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\" id=\"block-68a89e66-5807-411d-a391-343c76873415\"><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/sintaxe-dedutiva\/\">Sintaxe dedutiva<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/notacao-formal\/\">Nota\u00e7\u00e3o formal sint\u00e1tica<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/estruturas-sintaticas\/\">Estruturas sint\u00e1ticas<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/estrutura-sintatica-da-lingua-portuguesa\/\">Estrutura sint\u00e1tica da l\u00edngua portuguesa<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/frase\/\">Per\u00edodo, frase, encaixe e sintagma avulso<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/sintagmas-da-lingua-portuguesa\/\">Sintagmas da l\u00edngua portuguesa<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/aposicao\/\">Aposi\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/bifurcacao-com-remissivos\/\">Bifurca\u00e7\u00e3o com remissivos<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/conexao\/\">Conex\u00e3o sint\u00e1tica<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/radames.manosso.nom.br\/linguagem\/gramatica\/sintaxe\/intercalacao\/\">Intercala\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica<\/a><\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao estudar a l\u00edngua, temos apenas os discursos como ponto de partida. 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