1000 posts!

Em 27-12-2016, o milésimo post. Obrigado a todos pelas centenas de comentários, milhares de curtidas e milhões de acessos.

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Quem dá corda nos relógios públicos?

Quem já assistiu ao filme A invenção de Hugo Cabret deve lembrar que o personagem principal tem um talento especial para restaurar e consertar engenhocas sofisticadas e, graças a isso, mantêm em perfeito funcionamento os relógios da estação ferroviária de Paris. Atualmente, vivemos rodeados por computadores e smartphones e os mais jovens nem sabem que dar corda no relógio é a ação de pressionar uma mola para que ela acumule energia e mantenha o mecanismo em operação. Com tanta hora disponível, muitos devem achar desnecessário manter relógios públicos em perfeito funcionamento. Mesmo assim, quando olhamos para o relógio da catedral ou de algum prédio histórico esperamos encontrar a hora correta exibida nele. Poucos levam em conta as dificuldades para manter o tic tac daquele relógio, talvez centenário, e construído com tecnologia perdida no tempo.

Há algum tempo atrás uma reportagem da RPC (Rede Paranaense de Comunicação) chamou minha atenção para a situação precária dos relógios públicos de Curitiba. Segundo o repórter poucos funcionavam bem e turistas atentos podiam perceber essa impontualidade. Passada a Copa do Mundo resolvi conferir pessoalmente se os relógios curitibanos estão batendo bem. Meu objetivo era verificar se ganhamos relógios pontuais como legado da Copa 2014. Fiz uma caminhada pelo centro da cidade e fotografei dez relógios bem conhecidos pelos curitibanos. Seis marcavam a hora certa, salvo pequenas diferenças com a hora do meu celular. Outros quatro estavam fora de combate. Confira pelas fotos.

Batendo bem

Catedral Metropolitana
Catedral Metropolitana
Relógio das flores
Relógio das flores
Relógio da Praça Osório
Relógio da Praça Osório
Relógio do Paço Municipal
Relógio do Paço Municipal
Relógio da Rua 24 horas
Relógio da Rua 24 horas
Relógio da Igreja de Bom Jesus
Relógio da Igreja de Bom Jesus

Fora de combate

Relógio da Igreja da Ordem
Relógio da Igreja da Ordem
Relógio da Secretaria de Cultura
Relógio da Secretaria de Cultura
Relógio digital da Rua das Flores
Relógio digital da Rua das Flores
Relógio da Santa Casa
Relógio da Santa Casa

Diante dos problemas mais urgentes da nossa realidade social parece devaneio ficar checando a hora de relógios velhos, entretanto essas máquinas de contar o tempo estragadas têm algo a nos dizer. O pouco zelo dos curitibanos com seus relógios públicos contrasta com a pontualidade europeia. No velho continente relógio público com defeito é exceção; lá a regra é marcar a hora certa. Tudo bem que eles inventaram os relógios e ganham muito dinheiro com turismo, mas penso que esses relógios contam histórias e além de marcar a hora também indicam a preocupação de uma cidade com seu patrimônio cultural e histórico.

Orgulho e indignação de um atleticano

Sou atleticano e tenho assistido indignado pela TV as notícias que colocam em dúvida a realização de jogos da Copa 2014 em Curitiba. Mas como se até alguns anos atrás a Arena da Baixada era considerada o estádio mais moderno do Brasil e bastariam algumas adaptações para deixa-la no padrão FIFA? O estádio do Atlético deveria ser o primeiro a ficar pronto para a Copa 2014 e com o menor custo. Nos últimos dias, porém, tenho visto com desgosto a repercussão negativa nacional e internacional dos atrasos na conclusão da Arena.

Não sou um torcedor fervoroso. Futebol é um esporte que acompanho sem fanatismo, mas me orgulho de ter apenas três times desde a infância: o Iguaçu (time amador de Curitiba), o Atlético Paranaense e a seleção brasileira. Sou, portanto, curitibano, paranaense e brasileiro no quesito futebol. O Atlético Paranaense, digam o que quiserem, é um time que supera as expectativas. Em anos recentes esteve sempre em posição de destaque: conquistou o Campeonato Brasileiro da primeira e da segunda divisão, disputou várias edições da Libertadores indo inclusive à final, ganhou campeonatos estaduais, foi à final da Copa do Brasil, enfim, um time que vai longe considerando as dificuldades que enfrenta. Para quem não conhece a geopolítica esportiva do Paraná, vale saber que o Atlético não tem abrangência estadual de torcida como acontece com times do Rio Grande do Sul ou de Minas Gerais, além disso, não pertence ao grande eixo Rio – São Paulo. Apesar das condições, o Atlético ocupa lugar de destaque entre as equipes nacionais.

Paulo Baier

Alegrias em campo e decepções fora do gramado. Ao longo do ano passado, a imprensa noticiou várias irregularidades nas obras do estádio do clube que provocaram uma série de atrasos. No final de 2013, a torcida organizada do Atlético foi manchete nacional pela truculência. Em Joinville, jogando contra o Vasco integrantes da Fanáticos exibiram uma violência deplorável nas arquibancadas de um estádio onde as autoridades não tomaram as providências necessárias para garantir a segurança. Alguns dias mais tarde, recebemos a notícia de que a direção do clube não renovou o contrato com o capitão do time e ídolo da torcida Paulo Baier desonrando a palavra dada ao jogador.

2014 começou para o Atlético sem o maestro Paulo Baier, com o time penalizado pela CBF graças à selvageria ocorrida em Joinville, com alguns torcedores presos e outros hospitalizados e com as obras do estádio atrasadas a ponto de acender o sinal vermelho da FIFA. Os atleticanos merecem esse cenário desolador? Como disse, não sou um torcedor fanático e os bandidos infiltrados na torcida organizada não me representam. Infelizmente, ainda não chegou o dia em que as autoridades brasileiras vão enquadrar as torcidas organizadas.  Torcida não é organização paramilitar para abrigar vagabundos desajustados. Se não houver maneira de civilizar as torcidas organizadas, que sejam extintas de vez.

Esta semana ouvi a notícia de que a Suécia desistiu de sediar as olimpíadas de inverno 2022 alegando que teria prioridades maiores para cuidar como a educação e a saúde. Parece que as pessoas mais esclarecidas estão acordando para a realidade de que sediar mega eventos não é a prioridade. Ok, o Brasil decidiu fazer a Copa, então vamos fazê-la bem feita com legado ou “largado”. Tenho fé que as obras da Arena serão concluídas a tempo, apesar de toda a incompetência que gerou esse “case” de má administração. O clube, a prefeitura e o governo do estado se acusam mutuamente e não se entendem. Apesar dessa bateção de cabeças, tenho esperança de que o Brasil vai fazer a melhor copa de todos os tempos e que Curitiba vai fazer bonito, porque agora é hora de unir forças, mas depois da Copa espero ver as responsabilidades apuradas. Quanto a dirigentes que não cumprem a palavra dada e que sem cerimônia substituem ídolos do bem por jogadores de histórico duvidoso, o dia deles vai chegar. O Atlético é dos atleticanos, não é propriedade particular de cartolas personalistas, corruptos e sem caráter. O Paulo Baier me representa, P. Tralhas, não.

Você calcula o preço por kg dos produtos?

Quando vamos ao supermercado, muitas vezes ficamos assustados com o preço de alguns produtos vendidos por kg. É clássico o assombro com o preço do bacalhau de primeira nas vésperas da semana santa, mas poucas são as pessoas que fazem o cálculo do preço por kg de produtos comercializados em apresentações leves como um bombom, por exemplo. Não é possível comparar produtos diferentes com apresentações diferentes e, por isso, em alguns países, além do preço do produto embalado, o cliente deve ser informado do preço por kg, o que é uma forma interessante de avaliar se o que você está pagando considerando uma mesma base de comparação entre os produtos. Veja na tabela a seguir o comparativo entre produtos alimentícios comuns nas gôndolas do supermercado. balança

Produto Apresentação Peso
embalado
(g)
Preço
(R$)
Preço
por kg
(R$)
Açúcar refinado Caravelas Pacote 1000 1,58 1,58
Laranja Pacote 3000 4,98 1,66
Arroz tipo 1 Tio João Pacote 5000 12,98 2,60
Óleo de soja Soya Garrafa 900 ml 837 2,38 2,84
Banana caturra Cacho 1000 3,88 3,88
Feijão carioquinha Caldo Bom Pacote 1000 4,69 4,69
Feijão preto Caldo Bom Pacote 1000 5,48 5,48
Arroz integral Tio João Pacote 500 2,80 5,60
Frango resfriado Peça 1000 5,99 5,99
Feijão preto cozido Wapza Pacote 500 4,60 9,20
Açúcar mascavo Jasmine Pacote 500 6,68 13,36
Açúcar Fit União Sache 75 1,14 15,20
Pipoca de micro-ondas Elma Chips Pacote 80 1,39 17,38
Biscoito integral Club Social Pacote 156 2,98 19,10
Sucrilhos Kellogg’s Pacote 300 6,20 20,67
Azeite extra virgem Carbonell Garrafa 500 ml 460 11,58 25,17
Vinagre balsâmico La Violetera Garrafa 500 ml 500 12,98 25,96
Energético Red Bull Lata 250 6,49 25,96
Chocolate Talento Garoto Unidade 100 2,80 28,00
Manteiga com sal Aviação Lata 200 5,99 29,95
Salgadinho Cheetos Elma Chips Pacote 55 1,68 30,55
Bicoito Bom Gouter Nabisco Pacote 100 3,28 32,80
Chocolate Twix Unidade 45 1,48 32,89
Polenguinho tradicional Polenghi Pacote 34 1,28 37,65
Arroz desidratado Tio João Pacote 175 6,81 38,91
Picanha bovina resfriada Peça 1500 65,18 43,45
Sustagen chocolate Lata 380 16,98 44,68
Salgadinho Baconzitos Elma Chips Pacote 55 2,48 45,09
Palmito inteiro Barriga Verde Vidro 300 13,98 46,60
Doritos queijo Nacho Pacote 55 2,68 48,73
Queijo Parmesão Parmíssimo Pacote 250 12,48 49,92
Sapoti (fruta) Unidade 400 19,99 49,98
Batata Stax Cheddar Elma Chips Tubo 156 7,98 51,15
Bombom Lacta Lancy Unidade 30 1,68 56,00
Cereja Granel 250 14,75 59,00
Bacalhau do Porto Peça 800 63,18 78,98
Confeti Lacta Pacote 25 1,98 79,20
Tictac Menta Ferrero Rocher Frasco 16 1,48 92,50
Bombom Ferrero Rocher Pacote 170 20,48 120,47
Chiclete WinterGreen Mentos Frasco 56 9,98 178,21

Uma conclusão imediata da análise da tabela é que a expressão “a preço de banana” já não faz sentido. A banana não é mais o alimento mais barato do Brasil. Alguns vão dizer que não vale comparar alimentos básicos com produtos gourmet. Realmente, o valor agregado em cada tipo de alimento varia. A conveniência atualmente costuma valer muito e produtos fracionados em quantidades pequenas costumam esconder preços altos pelo kg. Por isso defendo que todo produto deveria ter seu preço por kg declarado na etiqueta do supermercado, pois o bolso do cliente não tem papilas gustativas e decide por critérios mais avaros.

Piratas invencíveis

“A pirataria é invencível, o melhor é deixar o mar livre aos piratas.” Esta frase não é o desabafo de algum executivo desiludido da indústria fonográfica nem confissão de botequim de delegado que combate a pirataria virtual. A frase foi escrita por Olavo Bilac em artigo de 24 de agosto de 1900. Para que o nobre escritor não role na tumba em desgosto post mortem transcrevo o artigo completo devidamente creditado no final deste post e lembrando que se trata de matéria em domínio público.

A pirataria de obras artísticas é para lá de centenária como comprova a lamúria do poeta Olavo Bilac que há mais de cem anos reclamava da falta de respeito à propriedade intelectual. Bilac se queixava que pessoas comuns não entendiam que o trabalho intelectual precisa ser remunerado. Pior que isso, naquela época já existiam aproveitadores que sem cerimônia divulgavam a obra alheia sem dar crédito adulterando o conteúdo a ponto de fazer o autor verdadeiro se sentir ultrajado.

Quando circulamos nas ruas, adotamos uma entre duas perspectivas: a de motorista ou a de pedestre. As pessoas não são 100% motorista nem 100% pedestre. Em alguns momentos simplesmente estamos motorista e, em outros, incorporamos o pedestre. No universo da propriedade intelectual não é diferente. Quase todos somos ao mesmo tempo autores e consumidores. Essa duplicidade de papeis vai ficar a cada dia mais evidente e não considero exagero afirmar que no futuro nem todos vão piratear, mas todos serão pirateados.

Quando navegamos por blogs, por sites de fotografia ou de vídeo é comum encontrar advertências em letras garrafais do tipo: “Todos os direitos reservados. Não é permitida cópia sem a expressa autorização do autor.” Esses avisos deselegantes, desnecessários ao meu ver, apenas reafirmam o óbvio previstoem lei. Creioque são consequência de dissabores com cópias não autorizadas ou não creditadas. As advertências feitas por esses autores lembram os lamentos centenários do Olavo Bilac. Pois é, os mares do passado eram infestados por piratas e no oceano da informação digital os piratas continuam navegando com as velas enfunadas.  Apesar deles, a obra de Olavo Bilac chegou aos nossos dias intacta.

Para complementar, leia um dos artigos de Olavo Bilac para o jornal “A Notícia”, do Rio, escritos entre 1900 a 1908 e reunidos em “Registro – Crônicas da Belle Époque Carioca” (Editora Unicamp, 496 págs., R$ 40), organizado por Alvaro Santos Simões Jr.

É inútil, Artur Azevedo, clamar contra os que se apropriam do trabalho alheio, e comodamente o exploram, sem gastar um ceitil! É inútil!

Muitos anos correrão ainda antes que se firme no Brasil a convicção de que “a propriedade literária é uma propriedade”. Neste particular todo o Brasil tinha, e ainda tem, a opinião de D. Pedro II: o pão do espírito deve ser dado de graça, e é feio auferir lucros do trabalho cerebral.

Verdade é que o editor não dá de graça os seus livros ao leitor: de modo que, dado o alto preço de todos os livros neste mercado, o povo, ao receber esse pão do espírito, deve achar singularíssima a esmola… Mas é inútil, Artur Azevedo, insistir neste ponto. O uso, nas outras terras, faz lei; aqui, o que principalmente faz lei, é o abuso. A pirataria é invencível, o melhor é deixar o mar livre aos piratas.

O que devemos fazer é pedir, nós todos escritores, a esses amáveis senhores, que nos ataquem a bolsa, mas que nos respeitem a sintaxe. Peçamo-lhes isso, de joelhos, de lágrimas nos olhos, rojando-nos a seus pés!

Porque, enfim, se chegam à nossa casa e sem cerimônia nos vão arrebatando o pão do espírito, –não devem, ao menos, desmanchá-lo, avariá-lo, estragá-lo, para prejuízo do consumidor e desmoralização nossa. Imaginemos que os fornecedores do pão do corpo tivessem as mesmas regalias dos fornecedores do pão do espírito. E suponhamos este caso: o fornecedor fulano ia à casa do padeiro sicrano, tomava-lhe de graça todo o pão, desmanchava-o, misturava a massa da boa farinha com uma ignóbil massa de cal, transformava assim cem pães em duzentos, e vendia essa mercadoria venenosa aos seus fregueses, gritando: “Vejam bem! Vejam bem que este é o melhor pão do mundo! Este é o pão do inimitável, do sublime, do extraordinário, do divino padeiro sicrano!…”. Que sucederia? O consumidor seria envenenado, o fornecedor fulano ficaria rico e o padeiro sicrano ficaria, além de roubado, difamado.

Pois é o que nos fazem os negociantes do pão do espírito, os compiladores das mil e uma seletas que andam por aí. Apoderam-se do que é nosso, quebram-nos os versos, escorcham-nos a prosa, arrastam-nos a gramática por todas as ruas da Amargura, –e nem ao menos nos dizem: “Desculpe-me, senhor poeta! Desculpe-me senhor prosador! Não foi por querer…”.

Valha-nos Deus! Pois nem ao menos a sintaxe nos hão de deixar, esses bárbaros?!