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Black bloc em um país sem oposição

Nos protestos que ganharam as ruas brasileiras em 2013 pelo menos três grupos ganharam destaque: os manifestantes pacíficos, os baderneiros e os Black blocs. No começo dos protestos não havia uma percepção clara de que a ala não pacífica dos protestos era formada por dois grupos bem distintos entre si nos propósitos embora semelhantes em algumas formas de atuação. Os baderneiros roubaram a cena na fase mais aguda das manifestações quando havia uma grande massa de manifestantes pacíficos nas ruas. O propósito dos baderneiros é se aproveitar da situação tensa e da diluição na massa para objetivos torpes como o vandalismo gratuito e o saque puro e simples. Na fase mais recente dos protestos o número de participantes caiu drasticamente e pôs em evidência o grupo Black bloc que usa a violência como tática. Para o baderneiros desejo os rigores da lei, que prevê punição cabível para seus delitos. Mas e quanto à turma dos Black blocs? Devem ser colocados na mesma cela junto com os saqueadores? Mesmo a grande imprensa tem modificado o vocabulário para se referir ao grupo citando-os pelo nome (Black bloc) ou por adjetivos como anarquistas, mascarados, manifestantes violentos evitando o uso indiscriminado de expressões como vândalos, arruaceiros ou saqueadores.

black bloc

O movimento Black bloc é internacional e tem índole anarquista. Seus integrantes são geralmente jovens que usam a violência como maneira de chamar a atenção para causas como o combate à corrupção, por exemplo. São questionáveis os métodos usados pelos rapazes de preto e há dúvidas se eles contribuem para o sucesso das causas que defendem. Deixo essa análise para os sociólogos, pois o meu questionamento aqui é sobre a razão de o movimento Black bloc estar em evidência a ponto de ser citado pelos telejornais em horário nobre.

O anarquismo não é uma novidade; estudamos o assunto nas aulas de História. Embora antigo, esse movimento continua vivo e volta e meia ganha força dependendo das condições sociais em vigor. Aplaudam ou critiquem os black blocs, mas entendam que eles estão aí por conta de condições sociais favoráveis a esse tipo de ação política. Black blocks são sintoma de uma doença grave.

Já ouvi várias pessoas dizendo que os black blocs não têm causa, não têm foco, não têm líderes nem estratégia. Ouso dizer, que se os black blocs não seguem líderes é porque não se sentem representados por nenhuma entidade política da atualidade. Antes de mandarmos os black blocks militarem em um partido, sindicato ou ONG, melhor é perguntar se no Brasil de hoje existe oposição militante, aguerrida e sintonizada com as demandas da população. Que tal darmos uma espiada nos partidos que se dizem de oposição, defensores das causas sociais ou de perfil revolucionário. Temos partidos de centro que na teoria são oposicionistas ao governo, mas que só fazem oposição de fachada em função de interesses e compromissos presentes e futuros. Temos partidos de esquerda acomodados à sombra do poder; temos partidos revolucionários com propostas estalinistas que cheiram a mofo; enfim há uma crise de representatividade na oposição brasileira que abre espaço ao movimento black bloc. Se os garotos de preto são rebeldes sem causa é porque no Brasil é um país sem oposição.