Quem dá corda nos relógios públicos?

Quem já assistiu ao filme A invenção de Hugo Cabret deve lembrar que o personagem principal tem um talento especial para restaurar e consertar engenhocas sofisticadas e, graças a isso, mantêm em perfeito funcionamento os relógios da estação ferroviária de Paris. Atualmente, vivemos rodeados por computadores e smartphones e os mais jovens nem sabem que dar corda no relógio é a ação de pressionar uma mola para que ela acumule energia e mantenha o mecanismo em operação. Com tanta hora disponível, muitos devem achar desnecessário manter relógios públicos em perfeito funcionamento. Mesmo assim, quando olhamos para o relógio da catedral ou de algum prédio histórico esperamos encontrar a hora correta exibida nele. Poucos levam em conta as dificuldades para manter o tic tac daquele relógio, talvez centenário, e construído com tecnologia perdida no tempo.

Há algum tempo atrás uma reportagem da RPC (Rede Paranaense de Comunicação) chamou minha atenção para a situação precária dos relógios públicos de Curitiba. Segundo o repórter poucos funcionavam bem e turistas atentos podiam perceber essa impontualidade. Passada a Copa do Mundo resolvi conferir pessoalmente se os relógios curitibanos estão batendo bem. Meu objetivo era verificar se ganhamos relógios pontuais como legado da Copa 2014. Fiz uma caminhada pelo centro da cidade e fotografei dez relógios bem conhecidos pelos curitibanos. Seis marcavam a hora certa, salvo pequenas diferenças com a hora do meu celular. Outros quatro estavam fora de combate. Confira pelas fotos.

Batendo bem

Catedral Metropolitana
Catedral Metropolitana
Relógio das flores
Relógio das flores
Relógio da Praça Osório
Relógio da Praça Osório
Relógio do Paço Municipal
Relógio do Paço Municipal
Relógio da Rua 24 horas
Relógio da Rua 24 horas
Relógio da Igreja de Bom Jesus
Relógio da Igreja de Bom Jesus

Fora de combate

Relógio da Igreja da Ordem
Relógio da Igreja da Ordem
Relógio da Secretaria de Cultura
Relógio da Secretaria de Cultura
Relógio digital da Rua das Flores
Relógio digital da Rua das Flores
Relógio da Santa Casa
Relógio da Santa Casa

Diante dos problemas mais urgentes da nossa realidade social parece devaneio ficar checando a hora de relógios velhos, entretanto essas máquinas de contar o tempo estragadas têm algo a nos dizer. O pouco zelo dos curitibanos com seus relógios públicos contrasta com a pontualidade europeia. No velho continente relógio público com defeito é exceção; lá a regra é marcar a hora certa. Tudo bem que eles inventaram os relógios e ganham muito dinheiro com turismo, mas penso que esses relógios contam histórias e além de marcar a hora também indicam a preocupação de uma cidade com seu patrimônio cultural e histórico.

Muros cada vez mais altos

Alguns dias atrás fui acordado pelo barulho de marretadas de pedreiros trabalhando. Eles estavam aumentando a altura do muro do condomínio que fica do outro lado da rua onde moro. Na versão original o muro devia ter uns dois metros de altura, medida ampliada para três com a obra. Pensei comigo: é a sensação de segurança medida em metros. Alguns dias depois, peguei a câmera para fotografar a obra, pois já tinha em mente a redação desse singelo post sobre segurança urbana. Mal dei o disparo e logo um segurança estava a me perguntar se eu estava fotografando o condomínio. Saí de fininho para não ter que discutir com um trabalhador que segue ordens, mas pensei comigo: só estou fotografando o que qualquer meliante pode ver da rua.

Não boto fé em investimentos de segurança baseados em muros altos, cercas eletrificadas, lâminas cortantes ou cacos de vidro encravados no alto do muro. Se fosse um ladrão não me intimidaria com esses obstáculos, pelo contrário, me sentiria mais tranquilo sabendo que os muros altos impedem a visualização de fora para dentro. Para algumas “operações” dos bandidos, o muro pode ser bem útil. A minha casa também tem muros, já a comprei assim, mas isso não impediu os ladrões de levarem as bicicletas dos meus filhos que estavam na garagem.

Vejo outros problemas com os muros, além da falsa sensação de segurança. Eles deixam a cidade feia, poluem a paisagem e impedem a vista de avançar. Quem está fora não vê o que está dentro e vice-versa. Outra coisa: muros eletrificados ou com cacos de vidro são uma ameaça para as crianças, que ficam sujeitas a acidentes quando por algum motivo inocente tentam pula-lo. O ladrão, obviamente, conhece os riscos e não vai levar choque nem vai se cortar. Uma prova de que o muro é uma solução ruim é que na maioria dos condomínios não há muros internos dividindo o espaço entre as residências.  O muro é reservado apenas para os limites externos da fortaleza.

Algum dia viveremos sem muros? Em muitos lugares os muros já foram abolidos, mas a cultura das divisas fortificadas é muito antiga, vem de uma época em que hordas de bárbaros podiam surgir de repente saqueando tudo o que viam pela frente. Os bárbaros hoje são outros, dirão alguns. Ouso dizer, porém que para combate-los o melhor é lançar mão da tecnologia em vez dessa instituição medieval chamada muro.