Só no Brasil: formas de pagamento diferentes têm que ter preços iguais

No início do ano a Prefeitura de Curitiba estabeleceu novos preços para a tarifa do transporte coletivo: R$ 3,15 para quem pagasse com cartão transporte e R$ 3,30 para quem preferisse pagar em dinheiro.  O Ministério Público do Paraná considerou a diferença de preços ilegal e resolveu sair “em defesa” dos cidadãos.  A lei não permite cobrar preços diferentes pelo mesmo serviço em função do meio de pagamento adotado, dizem os defensores do cidadão. Moral da história: agora todo mundo vai pagar R$ 3,30.

cartões

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O fim anunciado do cobrador de ônibus

Já faz anos que algumas linhas de ônibus curitibanas não têm cobrador. São linhas de menor movimento que operam com micro ônibus. Até a semana passada o pagamento da passagem nessas linhas podia ser feito em dinheiro diretamente ao motorista, mas a justiça do trabalho deu ganho de causa ao sindicato da categoria e os motoristas não vão mais atuar como cobradores. Em vez de trazer de volta os cobradores a prefeitura decidiu que a partir de agora o acesso a esses ônibus deve ser feito apenas com cartão transporte. Todos os micro ônibus já são equipados com leitor de cartões e os curitibanos estão acostumados com o sistema, mas terão que se adaptar a essa restrição de comodidade. Quem quiser usar o transporte terá que providenciar um cartão e carrega-lo com créditos antecipadamente.

cartão transporte Curitiba

As linhas curitibanas de maior tráfego continuam a operar com cobradores, mas eu não vou estranhar se no médio prazo todas as linhas passarem a aceitar apenas cartão. Para isso acontecer será preciso que a população se adapte ao novo sistema e que se amplie a rede de venda de cartões e recarga de créditos. Além disso, seria bom oferecer mais opções ao usuário como cartões avulsos, passes livres por período determinado e máquinas de autoatendimento para compra de créditos. Se formos por este caminho estaremos apenas adotando um modelo consolidado na Europa. Lá não existem cobradores de ônibus nem catracas. Em vez disso, existem máquinas de marcar bilhetes e fiscais que abordam alguns passageiros por amostragem. Quando abordado pelo fiscal o passageiro deve mostrar seu cartão, bilhete, passe ou outra forma de provar que tem direito de estar no transporte, caso contrário vai passar por dissabores consideráveis. Algumas pessoas devem achar a ideia do transporte sem cobradores uma ousadia; sem catracas então, que loucura! A catraca tem a vantagem de dispensar o fiscal, mas talvez seja necessário vigiar as entradas para ver se espertinhos não estão pulando a catraca.

O transporte público sem cobradores ficaria mais barato mesmo considerando que o sistema de cartões informatizados também tem seu custo porque atualmente os dois sistemas operam em paralelo. Todo ônibus com cobrador aceita cartão. No mundo ideal o fim da função de cobrador seria conduzido com o devido cuidado. Uma parte dos cobradores poderia ser aproveitada na rede de vendas de cartões e créditos. Outra maneira de atenuar o impacto do desemprego da categoria seria aplicar o dinheiro economizado com a automatização do sistema na capacitação e recolocação dos funcionários dispensados. No mundo ideal, uma mudança que reduz empregos seria feita em momento de pleno emprego e não em situação de crise econômica.

Eu torço pela melhoria contínua do transporte público e isso também quer dizer baixar o preço da passagem. Apesar dos desafios das mudanças que virão, o transporte coletivo é o futuro.

Yes, nós temos viaduto estaiado

Os fotógrafos (inclusive eu) ganharam um novo marco visual curitibano para apontar suas lentes: o viaduto estaiado sobre a Avenida das Torres. Ainda sem nome oficial, o viaduto na Rua Coronel Francisco H. dos Santos está liberado para circulação de veículos e vem causando polêmica. Com 225m de extensão e um mastro de 74 metros de altura, o número que mais impressiona nessa obra é o seu custo: R$ 112 milhões (até agora). É como se cada um dos 1,9 milhão de curitibanos desembolsasse R$ 59,00 para ver a obra concluída. Tudo bem, o viaduto vai encantar os turistas que passarem por baixo dele no trajeto aeroporto-centro ao chegarem à cidade para a Copa, além dos curitibanos da gema (como eu) que poderão postar fotos do arrojado viaduto no Facebook.

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O primeiro viaduto estaiado curitibano desafoga o trânsito em um ponto bastante congestionado até então, mas ouso pensar que resolver os problemas de trânsito com viadutos e trincheiras é coisa do velho Século XX. Como diria o ex-prefeito de Curitiba e urbanista renomado Jaime Lerner, viadutos apenas ligam um congestionamento a outro. Curitiba é a capital mais motorizada do Brasil. Temos um carro para cada dois habitantes. O desafio é fazer com que esses carros fiquem na garagem e que a população circule a pé, de bicicleta ou de transporte público. O nosso transporte coletivo é uma referência nacional, mas quem o conhece no dia-a-dia sabe que está longe de ser nossa melhor opção para circular.
Agora temos um viaduto estiloso de linhas arrojadas que rende boas fotos e que pode se tornar o mais novo marco visual curitibano. Marcos visuais são bons para o turismo e, pensando bem, boa parte dos marcos visuais pelo mundo afora têm características em comum com o viaduto estaiado: custo astronômico, utilidade duvidosa e manutenção cara. Duvidam? Pensem na Torre Eifel, Estátua da Liberdade, Taj Mahal e nas pirâmides do Egito. No caso do viaduto estaiado ainda temos um agravante: o entorno da obra é de uma aridez provinciana que só gera ruído nas fotos. Gosto de marcos visuais que cumprem uma função social como a Ópera de Sidney ou o Museu Guggenheim de Bilbao e aqui mesmo em Curitiba temos um bom exemplo no Jardim Botânico de Curitiba.
Em vez do viaduto estaiado deveriam ter construído uma obra convencional bem mais barata? Deveriam ter gasto essa dinheirama para expandir a malha de ciclovias para a cidade inteira? O custo da obra poderia ser mais baixo com uma gestão austera do dinheiro público? Como se não bastassem as polêmicas que cruzam o viaduto sem parar, ainda temos um projeto na câmara de vereadores que prevê a concessão do futuro nome da obra à inciativa privada. Fiquem tranquilos ó conservadores curitibanos recatados: não poderão disputar o nome empresas do ramo de fumo e bebidas alcoólicas.

A política como ela é

Entender o ecossistema eleitoral não é fácil, mas vou falar um pouco sobre a eleição municipal aqui onde eu moro.

A prefeitura de Curitiba será disputada em segundo turno por Ratinho Júnior e Gustavo Fruet.

Ratinho Júnior é filho do Ratinho Massa (ex-deputado federal pelo PRN, empresário, apresentador e dono de uma rede de comunicação).

Fruet é filho do ex-prefeito de Curitiba Maurício Fruet  (PMDB).

Ratinho Junior, 31 anos, foi do PSB, passou pelo PPS e agora está no PSC.

O PPS, por onde Ratinho Júnior passou, é dirigido no Paraná por Rubens Bueno, que foi vice na chapa do derrotado Luciano Ducci (PSB) que trocou farpas durante a campanha com Ratinho Júnior.

Uma das lideranças do PSC, atual partido de Ratinho Júnior, é Hidekazu Takayama que já foi colega de partido de Fruet no PMDB.

Fruet, 49 anos, foi do PMDB, mudou para o PSDB e atualmente está no PDT.

Um dos caciques do PDT no Paraná é Osmar Dias, irmão do senador Álvaro Dias do PSDB, partido que não quis Fruet como candidato a prefeito.

Fruet enquanto estava no PSDB criticava o PT, mas está coligado com o PT nesta eleição.

O Governador Beto Richa (PSDB) que é filho do ex-governador José Richa (PMDB) não apoiou Fruet que foi de seu partido por vários anos.

Beto Richa preferiu apostar em Luciano Ducci que não passou do primeiro turno e é do PSB, partido aliado da presidente Dilma do PT, rival histórico do PSDB de Beto.

O senador Requião (PMDB) também não apoia Fruet que foi do PMDB por vários anos.

Requião apoia Ratinho Júnior, mas em período eleitoral gosta de pegar carona na onda do PT. que apoia Fruet.

O candidato derrotado em primeiro turno Rafael Greca (PMDB, ex-PDS, ex-PDT e ex-PFL) não declarou apoio a Ratinho Júnior contrariando o cacique do seu partido (Requião), mas divergência no PMDB paranaense não causa espanto. Vários políticos do PMDB paranaense apoiaram o candidato derrotado Luciano Ducci (PSB) que é do grupo do ex-governador Jaime Lerner, arqui-rival de Requião.

No PSDB paranaense em segundo turno os apoios se dividem: alguns vão para Fruet e outros para Ratinho Júnior embora ambos estejam próximos do governo federal e o PSDB seja de oposição.

O DEM vai apoiar Fruet embora os partidos com quem ele está coligado sejam rivais do DEM.

O Partido Comunista do Brasil apóia o Ratinho Júnior (grande empresário capitalista de comunicação) embora governe com o PT que apoia Fruet. Ratinho Júnior era do PPS partido que sucedeu o PCB, o partidão, rival histórico do PCdoB.

A presidenta Dilma não vai apoiar nem Ratinho Júnior nem Fruet porque ambos a apoiam em nível federal. A ministra Gleisi Hoffmann (PT), braço direito de Dilma, ao contrário, vai entrar com tudo na campanha do Fruet.

Tenho a impressão que se eu fizer um post similar a este nas eleições de 2016 vou citar os mesmos nomes, talvez com um troca troca de partidos,  apoios e rivalidades.

Saudosa marmelada

No último final de semana assisti em casa um daqueles filmes raros que vão fundo na alma do ser humano. Falo de O Lutador com Mickey Rourke e Marisa Tomei, que conta a história de um lutador decadente que por décadas atua em espetáculos de wrestling. Bem, não é do filme que vou falar neste post, mas da viagem sentimental que ele desencadeou em mim, por isso, senhoooooras e senhooooores, convido todos a lembrarem do INCRÍVEL, fooooormidável e i-nes-que-cí-vel TELECATCH INTERNACIONAL DE CURITIBA.

Na década de 1970 as transmissões via satélite eram pouco comuns e as emissoras de TV apostavam em produções locais. O Canal 12 de Curitiba apresentava nos sábados à noite seu programa de lutas livres. Era o maior sucesso. Lá em casa, a audiência do Telecatch era cativa. Ainda lembro de meu avô Lourenço tenso e indignado diante da TV preto e branco:

— Olha lá, olha lá. O Joia está esfregando limão no olho do Brasão e o juiz faz que não viu nada.

Havia uma ordem bem estabelecida no Telecatch. De um lado ficavam os lutadores do bem como Brasão, Mister Argentina e Bala de Prata. Esses eram os caras boa pinta que arrancavam suspiros das moçoilas. Do outro lado ficava a turma da pesada que desconhecia completamente o significado de palavras como caráter, honra ou regras. Nessa turma de bad boys despontavam vilões como Metralha, Verdugo, Fantomas e Tigre Paraguaio. Meu vilão favorito era o performático Joia o Psicodélico que costumava roubar a cena nas lutas em que participava. Onde o cara encontrou inspiração para esse nome, hein?

As lutas eram narradas pela voz entusiasmada de Wilson Brustolin. Os juizes também eram de dois tipos: havia os íntegros e os ladrões que roubavam até da mãe para favorecer os vilões. Alguns céticos diziam que o telecatch era uma grande marmelada. Bem, se era ou não era jamais saberemos. O que eu vi com meus próprios olhos algumas vezes foi a vitória do vilão. Lembro de uma vez em que ocorreu um embate histórico e surpreendente. Brasão, o galã do telecatch, por alguma razão nunca divulgada caiu em desgraça com os vilões que aplicaram uma camaçada de pau no campeão paranaense e o deixaram beijando a lona. Esses casos isolados, porém, eram exceção. Normalmente, o paladino do bem sofria um bocado, mas no final desencadeava uma reviravolta sensacional com direito às famosas tesouras voadoras. Quase sempre, o vilão era arremessado para fora do ringue juntamente com o juiz ladrão que o protegia.

As lutas livres na TV vieram dos espetáculos circenses. Pertencem a uma categoria quase extinta de diversão pública onde os espectadores eram levados a uma catarse absoluta.  Tempos inocentes que não voltam mais. Por onde anda esse povo do telecatch? O famoso La Múmia nunca teve sua identidade revelada. Sempre lutava com bandagens cobrindo todo o corpo. Dizem que era da polícia e que teria chegado ao posto de Comandante Geral da Polícia Militar do Paraná. O Big Boy entrou para a política e se elegeu vereador pelo PV. Contam que Joia o Psicodélico ainda sobe aos ringues de circos mambembes no interior do Paraná. Certamente, ele continua incendeiando as plateias com suas bravatas. Será que esconde limões na cintura? Longa vida ao Psicodélico e que prossiga a velha luta do bem contra o mal.

Crédito de imagem: Paraná on-line