Colecionador de conhecimento

Embora eu não seja pedagogo, costumo me ocupar a sério da pergunta fundamental da pedagogia: O que preciso saber? Vivo envolvido com tecnologia, mas acredito que nos dias atuais somos atormentados por falsas prioridades de conhecimento, em especial, aquelas que nos obrigam a mergulhar profundamente, exclusivamente, no mundo digital. Sim, é importante saber as diferenças entre o iPad e o Kindle, mas existem sabedorias mais fundamentais e ouso dizer que para se chegar a elas podemos lançar mão de suportes estilosos como iPad ou Kindle.

Fundamental é conseguir aplicar o Teorema de Pitágoras no cotidiano. É fundamental entender porque a Batalha de Stalingrado foi um fato crucial na História. Essencial é saber que a teoria da evolução de Darwin explica a sobrevivência do mais apto e não do mais forte. Talvez a esta altura você, caro leitor, esteja pensando: O que eu quero saber de Teorema de Pitágoras, Stalingrado e Darwin? Tudo bem, as minhas prioridades podem ser diferentes das suas, mas acredito cada vez mais que existe uma base comum de conhecimento que faz diferença para a vida. É uma base elástica que muda um pouco de pessoa para pessoa, porém não tão variável a ponto de dizermos que cada caso é um caso. Em princípio, formar essa base seria a missão da escola, defini-la com muita clareza deveria ser o objetivo de todo educador.

— O que eu ganho estudando isso?

Euclides há muitos séculos ouviu essa pergunta de um pupilo e reagiu imediatamente:

— Criado, entregue uma moeda de ouro a este rapaz porque ele quer lucrar com tudo que aprende.


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Passados muitos séculos, a pergunta do aluno interesseiro continua ecoando pelas salas de aula. Alguns poucos desocupados como eu continuam fazendo a pergunta muito depois de sair da escola. Sou um colecionador de conhecimento.

A diferença entre o físico e o engenheiro

Balança

Em um serviço on-line de perguntas e respostas voltado para estudantes do ensino fundamental e médio, o aluno perguntou:

Se eu preencher uma garrafa PET de 500ml com areia, quanto ela vai pesar?

A resposta de outro aluno veio rápída:

Pegue uma garrafa PET de 500ml, encha com areia e pese na balança.

A pergunta, provavelmente, partiu de algum professor de física ou ciências e, por intermédio do aluno perguntador, chegou ao serviço on-line. Se eu fosse o aluno perguntador, faria exatamente o que lhe foi sugerido. Depois, fotografaria a garrafa sobre a balança e entregaria a foto ao professor como prova inequívoca de vocação para a física experimental. O professor teria que aceitar a resposta, mesmo que sua expectativa fosse receber um cálculo usando as fórmulas da densidade aparente. Caso o professor não tivesse senso de humor nem respeito por inteligências múltiplas, o aluno perguntador poderia argumentar dizendo que a questão não especificava um método de resolução.

Não vou esconder minha simpatia pelo aluno que respondeu à pergunta. Além de ajudar um colega voluntariamente, ele mostrou um senso prático incomum nos dias correntes. Alguns professores podem achar que esse empirismo não tem o alcance de uma demonstração teórica abstrata. Concordo que abstração é importante, mas senso prático também é na mesma proporção. Tudo depende do abacaxi que você tem nas mãos para descascar. E assim demonstramos na teoria e na prática que ensinar para a vida é uma arte.

Crédito de imagem: Filizola