Datas comemorativas que não são comemoradas

Minha colega que trabalha em um site de educação enfrentou uma saia justa esta semana. Uma usuária escreveu ao site indignada porque encontrou na página de datas comemorativas a informação: 31 de março – Golpe Militar de 64.

— Desde quando o golpe militar é para se comemorar? — questionou a usuária.

Fui me informar sobre o que o Grande Irmão dizia sobre o assunto. Digitei datas comemorativas no Google e analisei os dez resultados da primeira página. Em seis deles, o Golpe Militar de 64 estava citado como evento do mês de março. Em um dos sites, a expressão usada era Revolução de 64. Todos os dez sites traziam datas genuinamente comemorativas além de outras em que não comemoramos nada como o Dia de Finados. A rigor, o que se convenciona chamar de data comemorativa é definido pelo Dicionário Aurélio no verbete efemérides.

Diário, livro ou agenda em que se registram fatos de cada dia.

Espera-se encontrar em uma página de efemérides os acontecimentos de relevância histórica, social e cultural, logo é razoável que o golpe militar de 64 esteja na lista. Eu e minha colega ficamos matutando se haveria um nome diferente para a página, mais eficiente e contemporâneo. Datas comemorativas é a expressão popular, mas obviamente dá margem a confusão. Efemérides, embora precisa, é expressão descartada porque a maioria das pessoas não conhece seu significado. Outras duas opções foram colocadas de lado, pois deixariam nossa usuária à beira de um ataque de nervos caso visse o golpe militar de 64 citado em uma lista de datas festivas ou datas populares. A única conclusão a que chegamos é que muitas confusões acontecem por conta do significado das palavras. Talvez você, caro leitor, tenha uma sugestão de nome a dar.

Essa discussão em torno das datas ditas comemorativas me fez pensar sobre o significado delas hoje. Sim comemoramos o Dia da Independência ou da Proclamação da República, mas obviamente, ninguém comemora a morte de Tiradentes; nós lembramos o mártir e sua causa. Muitas datas comemorativas parecem ser ideia de políticos desocupados que ficam inventando dia para tudo, até para o que não precisa ser lembrado. O Dia Internacional da Mulher, por outro lado, combina homenagem às mulheres com reflexão sobre a condição delas na sociedade. Por essa mesma linha vai o Dia da Consciência Negra, em que se procura divulgar a luta pela igualdade racial. Atualmente, poucas datas comemorativas são para comemorar, esta que é a verdade. Hoje, as datas são criadas predominantemente com intenção de chamar à reflexão e conscientizar. No quesito datas, a sociedade está passando de festeira a militante.

O aniversário do golpe militar de 64 foi comemorado durante muitos anos, disso eu me lembro. Com a redemocratização, até o nome do movimento mudou de revolução para golpe, mas acho que em 31 de março devemos continuar lembrando do golpe para que a experiência não se repita. E se a ideia for se ater apenas ao que pode ser comemorado aqui fica minha sugestão: vamos instituir o Dia Internacional do Homem. Afinal, nós merecemos ou não uma homenagem?

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