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Você calcula o preço por kg dos produtos?

Quando vamos ao supermercado, muitas vezes ficamos assustados com o preço de alguns produtos vendidos por kg. É clássico o assombro com o preço do bacalhau de primeira nas vésperas da semana santa, mas poucas pessoas fazem o cálculo do preço por kg de produtos comercializados em apresentações leves como um bombom, por exemplo.

Não é possível comparar produtos diferentes com apresentações diferentes e, por isso, em alguns países, além do preço do produto embalado, o cliente deve ser informado do preço por kg, o que é uma forma interessante de avaliar se o que você está pagando considerando uma mesma base de comparação entre os produtos.

balança
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Quando o brega se tornar chique

Todo mundo consegue dar um exemplo de música brega, mas explicar o que é esse tipo de música não é tarefa simples. Para começar, brega não é um gênero musical, embora, seja costume associá-lo com ritmos populares como o sertanejo, o axé e, obviamente, o bolero, gênero oficial do corno. Esses dias eu estava com meu lado brega aflorado e comecei a fuçar no YouTube em busca dos clássicos dessa injustiçada modalidade musical. Nada como o tempo para nos dar uma perspectiva mais equilibrada; montei a minha playlist do fino do brega (confira no final deste post) e cheguei à conclusão que os rótulos precisam ser periodicamente revistos, melhor ainda se nunca fossem usados. Playlist montada, a pergunta continuava a martelar minhas têmporas: o que é o brega e por que insistimos em usar esse rótulo pejorativo?

Capa de LP - Waldick Soriano

Você esteve ao meu lado
E roubou a minha paz
Hoje me serve de exemplo
Vou fugir enquanto é tempo
Você é doida demais

Você é doida demais – Lindomar Castilho

Antes de responder, vamos fazer outra pergunta: Brega para quem? A origem do termo remonta à década de 1960, época em que certas músicas eram rotuladas de cafonas por segmentos da classe média. O termo brega surgiu na Bahia e originalmente designava um tipo de música tocado nas zonas de meretrício. Brega, então, era a música romântica de apelo popular que embalava as noitadas boêmias dos desiludidos no amor. Com o tempo, o termo passou a ser aplicado pela classe média e pelos críticos a todo tipo de música que reunisse características como:

  • Melodrama. O derramamento sentimental, os exageros caricatos e lacrimejantes seriam indícios de breguice.
  • Linguagem simplificada. A mensagem rapidamente assimilável, as rimas simples, o vocabulário básico e sem criatividade seriam indicativos do brega.
  • Estrutura pobre. Melodias fáceis, arranjos pouco inspirados, ausência de ousadias formais; coisas do brega.
  • Ingenuidade. Visões de mundo de pouco alcance, lugares comuns, desconhecimento das explicações abrangentes seriam breguices.
  • Ausência de atitude. Falta de comprometimento com causas genuínas, alienação, escapismo: marcas bregas.

Isoladamente, nenhuma dessas características define o brega, até porque é possível encontrá-las também em músicas respeitáveis. De qualquer forma foi com argumentos desse tipo que segmentos com escolaridade crescente de uma classe média em formação começaram a impor um novo padrão de qualidade na música. Nada contra essa busca incessante da qualidade não fosse o abismo social criado: de um lado os bregas e suas canções melosas e do outro a bossa nova, o tropicalismo, a música engajada, o rock e outros gêneros mais elevados. Infelizmente, os novos filtros da qualidade foram aplicados de forma indiscriminada prejudicando muitos que não mereciam ser lançados na vala comum da mediocridade. Além disso, nas entrelinhas desse novo manual de qualidade se alojaram alguns preconceitos implícitos. Era como se frequentar a universidade fosse pré-requisito para fazer boa música, como se certas cores ideológicas fossem ingredientes fundamentais da qualidade; como se algumas atitudes e temas fossem vetados por conta de um moralismo carola.

Sorria meu bem, sorria
Da infelicidade que você procurou
Sorria meu bem, sorria
Você hoje chora
Por alguém que nunca lhe amou.

Sorria, sorria – Evaldo Braga

Revisitando os clássicos do brega percebemos injustiças que nos dias de hoje seriam analisadas com olhos mais piedosos. Não coube ao Agnaldo Timóteo lançar a primeira música brasileira que falava sobre relações homossexuais? Qual o problema de Fernando Moraes confessar seu amor por uma cadeirante? Quer mais autenticidade que a do Odair José ao prometer que tiraria a namorada da zona? E o Sidney Magal que cantava rebolando não era um vanguardista de costumes?

Sabemos dos defeitos amplamente divulgados da música brega, mas algumas coisas me intrigam nos clássicos dessa modalidade. Não são eles que têm o poder satânico de penetrar em nossa cabeça a ponto de ficamos o dia inteiro repetindo aqueles refrãos hipnóticos? Já reparou que naquelas festas de empresa, nos casamentos onde se reúnem as gerações são os clássicos bregas que fazem todos tirar a bunda da cadeira e se esbaldar no salão como se fosse a última noite dos tempos? Talvez hajam qualidades mal avaliadas no fino do brega. Poucas, pouquíssimas músicas conseguem a façanha de resistir à prova do tempo. Se algumas músicas brega entram nesse grupo seleto é porque devem ter algum encanto que rabugice nenhuma de crítico consegue embaçar.

A dor do amor é com outro amor
Que a gente cura.
Vim curar a dor deste mal de amor
Na boate azul.

Boate azul – Joaquim e Manoel

O brega está em constante evolução. O fuscão preto está sendo ultrapassado pelo Camaro amarelo em uma sucessão interminável de novos hits. Algum dia a música brega vai desaparecer? No futuro, quando todos tiverem escolaridade elevada e gostos refinados teremos apenas música chique? Espero que não. Esse mundo ficaria muito chato.

O Ministério da Cultura adverte: Aprecie o brega com moderação. Em caso de uso contínuo um crítico deverá ser consultado.

Dez habilidades da mulher moderna

As mulheres estão ampliando a cada dia seu espaço na sociedade. Elas estão nas faculdades, nas empresas e na política. As diferenças sociais entre homens e mulheres diminuem a olhos vistos, porém alguns resíduos da cultura machista persistem nos dias atuais. Não estou falando de homens mas de mulheres machistas que ainda consideram algumas atividades como coisa de homem. Dizem que as mulheres precisam se dividir em duas ou três durante o dia: a mãe, a profissional, a esposa, etc. Eu diria que elas precisam assumir mais alguns papeis para fechar o ciclo de independência feminina e da igualdade entre os sexos. Apresento aqui dez habilidades esperadas de uma mulher contemporânea.

  1. Mecânica. A mulher moderna é capaz de resolver problemas do carro como trocar um pneu ou um fusível queimado. Ela entende um pouco de mecânica e mesmo que não ponha a mão na massa consegue falar de igual para igual com o mecânico. Assim, não é enrolada, pois sabe diagnosticar se o problema do carro que não pega está na bateria, no alternador ou no motor de arranque.
  2. Informática. Mulher moderna instala software, formata o HD, gerencia pequenas rede e faz backup. Ela domina o processador de texto, monta planilhas e cria apresentações, além de circular bem pela mídias sociais e baixar aplicativos no celular.
  3. Eletricidade. Fazer pequenos reparos na rede elétrica em casa, como trocar a resistência do chuveiro ou descobrir porque o disjuntor está desarmando são tarefas que não assustam a nova mulher.
  4. Hidráulica. Se a torneira está pingando ou o sifão está entupido a mulher maravilha entra em ação e resolve a parada.
  5. Civil. Mulher com M é capaz de fazer pequenos reparos de alvenaria, carpintaria, marcenaria e pintura na casa.
  6. Jardinagem. Espera-se que ela saiba cuidar das plantas sabendo em que época elas florescem, se precisam de sombra ou de sol e que saiba fazer uma horta doméstica.
  7. Contabilidade. A nova mulher controla as despesas da família no Excel, usa o internet banking, faz a declaração de imposto de renda e conhece a burocracia do estado brasileiro.
  8. Saúde. A mulher de hoje tem noções sobre prevenção às doenças, atende pequenas emergências do cotidiano e sabe tomar as providências para garantir a saúde das pessoas próximas.
  9. Culinária. A mulher contemporânea vai à cozinha sem sentimento de culpa, se vira com refeições triviais e, quem sabe,  pode preparar um prato especial para as visitas.
  10. Prendas domésticas. A mulher de hoje é independente e consegue fazer tudo que sua avó fazia como pregar um botão na camisa ou fazer uma geleia.

Caso você seja uma leitora, a esta altura pode estar pensando: “Nada disso me diz respeito”. Nesse caso, tente responder a quem compete essas tarefas. Não vale dizer que ficam por conta do maridão. Lembre que o marido moderno precisa de tempo para frequentar academia e ir ao salão cuidar da sua aparência de metrossexual. Algumas privilegiadas talvez prefiram pagar para que profissionais especializados façam cada uma dessas coisas que é possível fazer em casa com as próprias mãos, mas estamos falando de independência e autonomia. Além disso, no futuro próximo será cada vez mais difícil e caro contratar serviços da vida doméstica. De qualquer maneira, será comum ser atendido em casa por mecânicas, encanadoras, jardineiras porque não existe mais essa história de serviço de homem.

Crédito de imagem

Saudosa marmelada

No último final de semana assisti em casa um daqueles filmes raros que vão fundo na alma do ser humano. Falo de O Lutador com Mickey Rourke e Marisa Tomei, que conta a história de um lutador decadente que por décadas atua em espetáculos de wrestling. Bem, não é do filme que vou falar neste post, mas da viagem sentimental que ele desencadeou em mim, por isso, senhoooooras e senhooooores, convido todos a lembrarem do INCRÍVEL, fooooormidável e i-nes-que-cí-vel TELECATCH INTERNACIONAL DE CURITIBA.

Na década de 1970 as transmissões via satélite eram pouco comuns e as emissoras de TV apostavam em produções locais. O Canal 12 de Curitiba apresentava nos sábados à noite seu programa de lutas livres. Era o maior sucesso. Lá em casa, a audiência do Telecatch era cativa. Ainda lembro de meu avô Lourenço tenso e indignado diante da TV preto e branco:

— Olha lá, olha lá. O Joia está esfregando limão no olho do Brasão e o juiz faz que não viu nada.

Havia uma ordem bem estabelecida no Telecatch. De um lado ficavam os lutadores do bem como Brasão, Mister Argentina e Bala de Prata. Esses eram os caras boa pinta que arrancavam suspiros das moçoilas. Do outro lado ficava a turma da pesada que desconhecia completamente o significado de palavras como caráter, honra ou regras. Nessa turma de bad boys despontavam vilões como Metralha, Verdugo, Fantomas e Tigre Paraguaio. Meu vilão favorito era o performático Joia o Psicodélico que costumava roubar a cena nas lutas em que participava. Onde o cara encontrou inspiração para esse nome, hein?

As lutas eram narradas pela voz entusiasmada de Wilson Brustolin. Os juizes também eram de dois tipos: havia os íntegros e os ladrões que roubavam até da mãe para favorecer os vilões. Alguns céticos diziam que o telecatch era uma grande marmelada. Bem, se era ou não era jamais saberemos. O que eu vi com meus próprios olhos algumas vezes foi a vitória do vilão. Lembro de uma vez em que ocorreu um embate histórico e surpreendente. Brasão, o galã do telecatch, por alguma razão nunca divulgada caiu em desgraça com os vilões que aplicaram uma camaçada de pau no campeão paranaense e o deixaram beijando a lona. Esses casos isolados, porém, eram exceção. Normalmente, o paladino do bem sofria um bocado, mas no final desencadeava uma reviravolta sensacional com direito às famosas tesouras voadoras. Quase sempre, o vilão era arremessado para fora do ringue juntamente com o juiz ladrão que o protegia.

As lutas livres na TV vieram dos espetáculos circenses. Pertencem a uma categoria quase extinta de diversão pública onde os espectadores eram levados a uma catarse absoluta.  Tempos inocentes que não voltam mais. Por onde anda esse povo do telecatch? O famoso La Múmia nunca teve sua identidade revelada. Sempre lutava com bandagens cobrindo todo o corpo. Dizem que era da polícia e que teria chegado ao posto de Comandante Geral da Polícia Militar do Paraná. O Big Boy entrou para a política e se elegeu vereador pelo PV. Contam que Joia o Psicodélico ainda sobe aos ringues de circos mambembes no interior do Paraná. Certamente, ele continua incendeiando as plateias com suas bravatas. Será que esconde limões na cintura? Longa vida ao Psicodélico e que prossiga a velha luta do bem contra o mal.

Crédito de imagem: Paraná on-line