Mitos ambientais

Consciência ambiental é importante, mas é preciso cuidado para não cair em visões distorcidas sobre o assunto. Na sequência, alguns casos que precisam de atenção.

Morar na chácara

Morar na chácara é o sonho de muita gente. Uma propriedade ampla com muito verde longe da agitação urbana; uma casa rústica, mas confortável; animais circulando pelo pátio e hábitos saudáveis de vida. Estamos falando de uma propriedade nos limites do perímetro urbano com área ampla usada principalmente como moradia. A chácara é muito boa para quem mora nela, mas e para o meio ambiente? Não está claro para a maioria que o morador de chácara pode ter um impacto ambiental bem mais alto do que o habitante de apartamento no centro da metrópole.

Vamos explicar: imagine que o morador do apartamento vai a pé para o trabalho e resolve todas as suas necessidades nas imediações do apartamento em que mora enquanto que o chacareiro faz longos deslocamentos diários de carro para chegar ao serviço e resolver seus compromissos. Talvez no condomínio de apartamentos haja coleta seletiva avançada do lixo, enquanto que na chácara sequer haja coleta da prefeitura. Quem sabe o chacareiro não tenha muita consciência ecológica e faça coisas como derrubar árvores nativas enquanto que o morador de apartamento fica bem longe delas. Analisando friamente, morar na chácara tem a ver com qualidade de vida e pouco com preservação do ambiente. Tudo depende da postura de quem mora nela. Um predador ambiental é mais perigoso morando na chácara do que no apartamento.

Carro elétrico

Os carros que queimam combustíveis fósseis (gasolina, diesel, gás natural, etc.) aumentam o aquecimento global, além de deixar o ar poluído e irrespirável. Para acabar com o problema bastaria usar carros elétricos, correto? Bem, os carros elétricos já deixaram de ser protótipos engraçadinhos. Hoje, existem carros elétricos possantes e com boa autonomia. Mas eles são bons para o meio ambiente? Não soltam fumaça nem gases do efeito estufa, pois são abastecidos pela tomada. Epa, mas de onde vem a energia da tomada? Vem das usinas, ora. Se todas as usinas fossem hidrelétricas ou eólicas, tudo bem, mas em muitos casos são termoelétricas e algumas delas, nucleares. Não adianta se iludir. A visão ecológica tem que considerar o processo dust to dust (do pó ao pó). Carro elétrico não tem cano de escape, mas polui pela chaminé da usina. Em países com sobra de potencial hidrelétrico e eólico eles podem ser interessantes, mas onde as usinas queimam carvão, óleo ou gás, é preciso fazer os cálculos na ponta do lápis, pois o motorista pode estar produzindo a fumaça longe dos olhos.

Caminhar no parque

Não há dúvida que as áreas verdes melhoram a qualidade de vida na cidade. Elas reduzem o calor excessivo gerado pelo concreto e asfalto; diminuem a poluição sonora; servem de abrigo para animais da região; têm um ótimo efeito paisagístico; servem ao lazer da população; enfim as áreas verdes são ótimas para os habitantes da cidade, mas seriam úteis à preservação do meio ambiente? Vamos por partes. Parques com biomas preservados podem ter um papel importante de preservação, mas são raros em áreas urbanas. Jardins botânicos são interessantes para o estudo de espécies nativas da região e para o aprendizado sobre a flora. Por outro lado, parques com intervenção humana acentuada, que não reproduzem o bioma da região são menos ecológicos, mas podem contribuir para a formação de consciência ambiental. Não dá para dizer que o cidadão é ecológico só porque caminha regularmente pelo parque da cidade, pois parques urbanos e ruas arborizadas têm mais a ver com a qualidade de vida dos cidadãos do que com a preservação ambiental. No entanto, quem caminha pelo parque regularmente pode desenvolver uma relação mais próxima com a natureza. É preciso vivenciar para gostar e respeitar. Infelizmente, nos grandes centros urbanos a área verde é mínima e leva as pessoas a um distanciamento do verde a ponto de muitos simplesmente preferirem o asfalto à grama e a gostar mais de prédio do que de árvore. Seria ótimo se houvesse um aumento significativo das áreas verdes urbanas em favor de uma melhor qualidade de vida e da educação ambiental. Aqui em Curitiba, onde moro, temos um índice de área verde superior a 50 m2/habitante. É um valor bem acima do mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (12 m2/habitante). Estamos emparelhados com outras capitais brasileiras como Goiânia e Vitória. Essas cidades ganham disparado de cidades como Viena (12 m2/hab.) considerada melhor cidade do mundo para se viver segundo a consultoria Mercier ou de Nova York (23 m2/hab.) que tem se empenhado nos últimos anos para fazer sua área verde crescer. Como curitibano eu gosto de contar com mais de vinte e e cinco parques urbanos e os visito regularmente. No entanto, quando analiso a frieza dos números concluo que os 8 milhões de metros quadrados de parques curitibanos representam apenas 2% da área do município. Está bem que a contabilidade das áreas verdes só leva em conta os maciços verdes de certo porte. Cidades como Maringá no interior do Paraná, por exemplo, têm alto índice de arborização de ruas e isso tem seu valor. As estatísticas oficiais também não contam as árvores do quintal lá de casa que elevam o índice de área verde da minha família para mais de 200 m2/pessoa. O ideal seria considerar a área verde urbana de forma mais ampla, mas isso não é fácil de medir. As cidades precisam de mais parques, mais ruas arborizadas e de mais verde nas propriedades particulares. Melhor ainda que o crescimento do verde seja feito com espécies nativas que valorizem o bioma local. Seria um delírio pensar em espaços urbanos onde o verde ocupa mais de 10% de área total? Talvez assim as pessoas passem a gostar mais da cor verde que da cinza.

Sair por aí em um off road

Você já deve ter visto aquelas propagandas de veículos off road em que o feliz proprietário observa a natureza ao lado de seu off-road estacionado no topo de um morro ou sobre o cascalho de um córrego no meio da mata. As fotos das propagandas de off roads dizem tudo: com um carro assim é possível chegar em qualquer lugar. Mas isso é bom para quem?

Para o dono do off road, certamente. E para o fabricante do off road também. Mas e para o meio ambiente? Não seria melhor chegar ao córrego no meio da mata caminhando com uma mochila nas costas? O contato com a natureza seria mais intenso, além dos benefícios da atividade física. Vamos lembrar que veículos off road têm motores potentes e são beberrões de combustível. Não sou inimigo dos off road, eu mesmo gostaria de ter um, mas vamos ser francos: off road para quem precisa de off road e ponto.

Uso de madeira

Quase tudo em uma casa pode ser feito com madeira, do piso ao teto, passando pelos móveis e utensílios. Infelizmente, boa parte da madeira que existe nas casas, inclusive na minha, veio de florestas nativas. Então, para não derrubar a mata, a solução seria fazer casas com cimento, cal, tijolos e aço?  Primeiro saiba que para fabricar esses materiais muita madeira nativa ainda é queimada nos fornos e onde não usam madeira, queimam combustíveis fósseis. Com os diabos: o único recurso que nos resta é mudar para debaixo da ponte? Não. A ponte é feita de cimento e aço também.

A solução mais razoável no atual estado da arte é usar muita madeira, mas não qualquer madeira. Ela deve vir de demolições, reflorestamentos ou de projetos certificados de manejo florestal. A madeira consome menos energia em seu processamento, sequestra carbono da atmosfera, é renovável, reutilizável e reciclável. Madeira de origem sustentável é tudo de bom, ou pelo menos, é a solução menos agressiva que dispomos.

Compras pela Internet

Uma das tendências do urbanismo ecológico é reduzir ao máximo os deslocamentos motorizados da população. Esses movimentos consomem combustível, exigem mais carros, mais asfalto, mais estacionamentos, etc. Se você fizer compras pela Internet não precisará se deslocar, certo? Sim, mas lembre que o entregador vai se deslocar por você. Se ele vier até a sua casa especialmente para fazer a entrega, não teremos ganho ambiental. Na maioria dos casos, felizmente, o entregador faz várias entregas na mesma viagem e assim economiza recursos de transporte. Agora, se você já passa de carro diante da loja em seu deslocamento normal faça a compra diretamente. Você aproveita a viagem que faria de qualquer forma.

Outra vantagem a levar em conta nas compras pela Internet é que na maioria dos casos, do outro lado do computador não existe uma loja física para expor os produtos. A compra vai direto do depósito para a sua casa. Sem a loja física, temos economia de área construída, iluminação, ar condicionado, etc. Ah, mais uma coisa: talvez você pense como eu e ache que fazer compras é um saco, então você tem mais um excelente motivo para comprar tudo pela Internet. Só não dá muito certo com cafezinho expresso e sorvete de casquinha.

Trabalhar em casa

O trabalho em casa é um modelo muito antigo de produção que só na História recente deixou de ser predominante na economia. Meu avô Lourenço, por exemplo, era sapateiro e trabalhava em uma oficina que ocupava o cômodo da sua casa voltado para a rua. O meu outro avô, Napoleão, era moleiro. As máquinas do moinho dele ficavam no pavimento inferior de sua casa. No pavimento superior, ficavam a venda e a área residencial da casa. Atualmente, o trabalho em casa é a opção de milhões de autônomos e micro empresários e mesmo grandes empresas adotam esse modelo com uma parte de seus funcionários. Até o presidente dos Estados Unidos trabalha em casa.

O ganho ecológico que salta aos olhos no trabalho em casa é a economia com transporte. Você não precisa enfrentar congestionamentos e queimar combustível para chegar ao serviço. Outro ganho evidente é a economia de infra-estrutura. Voltando ao exemplo do nôno Napoleão: ele usava apenas um telhado para cobrir sua casa e seu moinho.

Na maioria dos casos, a coexistência de trabalho e moradia em um mesmo local é interessante para o meio ambiente. No entanto, quando o assunto é ecologia só o balanço global é que importa. Imagine o caso hipotético da Dona Maria, que construiu um cômodo adicional em sua casa, pois costura para uma indústria de roupas. Diariamente ela vai até a sede da confecção para entregar peças prontas e pegar novos cortes. Nesse caso, a vantagem ficou apenas para a confecção que deixou os gastos por conta da Dona Maria. Pois é. Ambientalismo e trabalho em casa são para quem leva tudo na ponta do lápis.

Este é um post escrito em casa, por isso é mais ecológico que  similares produzidos em grandes redações.

Passear no shopping

Pensando sobre o impacto que os templos do consumo podem causar ao meio ambiente cheguei à conclusão que um shopping pode ser até positivo quando segue as melhores práticas. Por outro lado, torna-se um desastre ecológico quando adota os piores vícios desse tipo de empreendimento. Vou explicar melhor descrevendo dois shoppings imaginários: o Green Shopping onde predominam as melhores práticas e o Grey Shopping que apresenta os piores vícios.

Green Shopping

  • A concentração de lojas em um único lugar é interessante porque as pessoas podem fazer várias compras em um único deslocamento. É o one stop shop. Tudo bem que essa é uma qualidade que o Grey Shopping também apresenta.
  • O Green Shopping está estrategicamente localizado próximo dos consumidores. Essa localização favorável reduz os deslocamentos urbanos.
  • A localização em uma área adensada melhora o uso da infra-estrutura urbana (ruas, rede elétrica, rede de águas, etc.)
  • O Green Shopping revitalizou uma área urbana degradada. Foi construído onde ficava uma antiga fábrica e houve aproveitamento de construções desativadas. É a reciclagem da estrutura urbana.
  • O Green Shopping aproveita a iluminação natural. A luz do sol entra por seus corredores e lojas. Com isso, economiza-se de energia para iluminação.
  • O shopping tem boa ventilação natural. Algumas áreas ficam a céu aberto o que permite uma redução de gastos com condicionamento de ar.
  • A pavimentação no Green Shopping é do tipo permeável e, assim, ele não se torna uma gigantesca placa impermeabilizante do solo.
  • O paisagismo do Green Shopping privilegia o verde, o que ajuda a criar uma relação de afeto dos clientes com a natureza.
  • O entorno do shopping é bem servido por transporte coletivo.
  • O Green Shopping aproveita água da chuva, trata seus efluentes e tem um programa forte de reciclagem de embalagens e de resíduos sólidos.

Grey shopping

  • O Grey Shopping foi projetado para estimular o consumo. As armadilhas do marketing estão nos menores detalhes e, graças a isso, as pessoas acabam consumindo mais do que precisam. Ok, essa é uma característica de todos os shoppings.
  • O ambiente luxuoso do Grey Shopping foi criado à custa de materiais e técnicas de alto impacto ambiental.
  • O Grey Shopping é um gigantesco caixote refrigerado. Seu gasto de energia para iluminação e ar condicionado é um absurdo.
  • O Grey Shopping foi construído em uma área afastada de onde os consumidores moram e trabalham, o que resulta em aumento dos deslocamentos urbanos.
  • O acesso ao shopping por transporte coletivo é ineficiente.
  • O Grey Shopping sucateou a estrutura urbana pré-existente. Antes do shopping se instalar, o comércio operava na área central da cidade que agora está degradada.
  • Os estacionamentos a céu aberto do Grey Shopping são enormes panos de asfalto que impermeabilizam o solo e mandam grandes volumes de água da chuva para o córrego próximo.

Carro popular

Nenhum carro é bom para o meio ambiente. Pronto, agora que já dissemos a verdade superior vamos falar sobre os carros populares como alternativa de baixo impacto ambiental. Um carro popular comentado é o Tata Nano da montadora indiana Tata Motors com preços a partir de 2.200 dólares. Do ponto de vista ecológico, porém, o número mais importante desse carro é o seu consumo de gasolina: 20km/litro. Sem dúvida, é um consumo melhor que o da maioria dos carros de outras montadoras. A economia do Tata Nano é suficiente para caracterizá-lo como um carro ecológico? Infelizmente, há mais questões a levar em conta quando o assunto é o impacto ambiental dos carros populares.

Mesmo com toda a evolução tecnológica parece existir uma lei básica sobre motores que todo motorista conhece: motor mais potente consume mais combustível. Além disso, motores potentes são mais caros, logo eles não são usados em carros populares. Seguindo essa lógica, carros populares sempre vão consumir menos combustível do que carros top de linha. Não se trata de uma lei da física, mas de uma constatação prática. Nem precisa dizer que essa baixa potência deixa o carro popular bastante ‘impopular’ entre os consumidores, que gostariam de fazer de 0 a 100km/h em 3 segundos, mas o numerário não permite.

Barato e econômico. Restringindo a análise a esses dois itens, um carro popular é melhor para o meio ambiente, sem dúvida. O problema, porém, é macroeconômico. Toda vez que uma montadora coloca no mercado um carro mais barato do que os da concorrência cria-se condições para que uma parcela maior da população compre carro. Ninguém contesta o direito das pessoas com menor renda terem um nível de conforto similar ao das mais afortunadas. A lógica ambiental, todavia, é implacável: Mais carros na rua significa mais emissões de carbono que nos leva a mais aquecimento global. Os carros populares não substituem as banheiras de alto consumo que circulam por aí, pois elas são compradas por outra classe social. O carro popular simplesmente aumenta a frota, sem tirar de circulação as caminhonetes de cabine dupla. Cedo ou tarde teremos que superar essa questão do carro popular x carro de luxo em favor da ideia do carro de baixo impacto ambiental. Esse novo carro terá o baixo consumo de um carro popular e avanços tecnológicos de um carro de luxo. Sobre o preço não posso afirmar nada. Espero que seja bem baratinho.

Produto ECO

Eu circulava pelo escritório quando deparei com uma embalagem de copos descartáveis plásticos marca Ecocoppo. Mas que raio de copo ecológico é esse? perguntei. Na embalagem dizia que o produto é feito com resina 100% virgem de polipropileno, ou seja, são copos para lá de antiecológicos. Por que, então, chamaram a minha atenção se na embalagem não havia nenhuma referência a qualidades ecológicas do produto. A embalagem não era verde e não exibia palavras mágicas como sustentável, verde ou protege o meio ambiente. Sim, criei a associação graças ao prefixo eco no nome do produto.

Provavelmente, o ecocoppo não é um caso de eco maquiagem, mas atualmente esse prefixo de três letrinhas devia ser usado com critério, pois tem potencial para confundir o consumidor e melhorar as vendas do produto. Comprar produtos eco é bom para a consciência além de ser chique. O problema é que não existe regulamentação para uso desse rótulo. O prefixo eco está desprotegido contra o uso indevido, assim como seus colegas light e diet no passado antes de terem seu uso regulamentado.

Para ter direito de usar o prefixo eco as empresas deveriam provar que seu produto tem um impacto ambiental significativamente menor do que similares produzidos por métodos convencionais. Se adotássemos a lógica dos produtos light, poderíamos exigir que um produto eco tivesse impacto pelo menos 25% menor ao dos convencionais. Fora disso, o que temos é greenwashing, é enganação com propósito de pegar carona na onda ecológica se aproveitando da boa fé dos consumidores. Por esse ponto de vista o Ford Ecosport teria que mudar de nome. Trata-se de um carro bacana, mas que de ecológico não tem nada. Apenas oferece a possibilidade de o motorista alcançar belas paisagens naturais nos rincões longínquos. Vale lembrar que, nesse caso, atitude ecológica mesmo e que faz jus ao lado sport do conceito seria visitar tais paisagens a pé com uma mochila nas costas.

Com o tempo, os produtos eco serão regulamentados, tenho fé, embora reconheça que as métricas para certificar tais produtos sejam complexas. Por enquanto, o consumidor ecológico tem que ficar de antena ligada. Algumas dicas para identificar o eco-washing estão no site da ABNT. Espero que rapidamente possamos escapar dos falsos ecos que estão por aí e que só me fazem lembrar uma tal de feijoada light.

Veja também: Ambientalistas que se culpam por nascer

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