A arte de escrever em tempos de Internet

Com o advento dos blogs, as pessoas estão escrevendo mais, embora pior. Quem disse isso foi o Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, ele mesmo blogueiro. Depois de ler essa declaração forte do Saramago fui direto ao blog dele conferir se a opinião se aplicava aos posts que ele mesmo produzia. Que nada! O blog desse polemicista era muito ativo e a qualidade dos textos, impecável. Saramago nos esclarece: a facilidade com que se produz um blog leva mais pessoas a escrever, embora muitos não se preocupem em publicar textos burilados. Ele, Saramago, tratava seus posts com o mesmo rigor de seus romances. Eis um bom exemplo para se refletir sobre esse gênero novo de escrita em que a instantaneidade e a urgência às vezes são confundidas com improviso e afobação.

Quem disse que blog é para escrever nas coxas o que dá na telha? Quem escreve pensando em prestar um serviço, ou seja, quem escreve para o outro e não só para si, tem que considerar que a mídia blog é rápida, mas nada impede que o texto seja elegante, coeso, conciso, denso, criativo, etc. Nada contra os blogs catárticos que o blogueiro usa como diário público, mas o meu estilo favorito de blog é aquele que tem algo a dizer e quando diz, o faz com estilo. Vivemos uma sobrecarga de informação sem precedentes na História e a atenção do leitor é um espaço a cada dia mais disputado. Quer receber atenção? Então blogue mais e melhor.

Para que tanto blog?

Não pergunto que benefício os blogs trazem para os blogueiros. Para a sociedade essa é uma questão irrelevante. Interessa-me a serventia que os blogs possam ter para sua majestade o leitor. Antes de responder, vamos esclarecer uma coisa: ficam de fora dessa conversa os blogs inexpressivos como aqueles muito exibicionistas, os que foram criados só para zoar ou os que não passam de uma tentativa desesperada de comunicação com o mundo da parte de quem não tem nada a dizer. Notaram que estou incluindo o meu próprio blog no grupo daqueles que podem apresentar alguma relevância, certo? Pois então vamos raciocinar.

Na Era de Gutemberg havia uma aldeia de 1.000 habitantes onde todos liam as obras que 10 habitantes escritores publicavam. Nessa aldeia, havia muitas pessoas com vontade de se tornar escritores, mas por causa dos custos altos somente 10 conseguiam furar a barreira imposta pelo modelo e publicavam suas obras. Graças a um mecanismo natural de regulação, as obras eram publicadas em quantidade proporcional à capacidade de leitura dos habitantes.

Com a chegada da Internet, os custos caíram, as facilidades aumentaram e agora qualquer habitante pode publicar suas obras se quiser. A aldeia passou a ter 100 escritores. No entanto, a capacidade de leitura dos habitantes continuou a mesma porque, além de ler, eles trabalham, passeam, etc. A Internet expandiu a oferta, não a demanda.

Essa expansão na oferta de textos, em si, não significa nada. Para interpretar o valor da mudança na pequena aldeia vou invocar duas entidades que se alternam em minha cabeça: otimístio e pessimístio.

Pessimístio: aumentar o volume de texto em circulação não representa ganho para a sociedade. Os dez autores de antes eram os melhores e, por isso, eram publicados. Os 90 autores que entraram no circuito não passaram pelos filtros do sistema anterior. Na melhor das hipóteses são divulgadores. Com sua entrada no circuito esses autores apenas drenam a atenção do leitor gerando uma sobrecarga de informação para quem poderia se manter focado em autores top.

Otimístio: a pequena aldeia tem bem mais de dez autores qualificados para publicar seus textos. A demanda restrita impõe um funil muito estreito aos potenciais escritores, deixando inéditos autores de quilate respeitável.

Quem teria razão? Otimístio ou pessimístio? Quem sabe invocando a opinião de Equilibradium.

Conteúdo tratado como commodity

Produzir informação de qualidade não é fácil e custa dinheiro. É o que dizem os representantes dos grandes órgãos de imprensa e eu concordo. Para trazer informações sobre a guerra é preciso colocar um repórter no meio do tiroteio. Para trazer à tona um escândalo de governo é preciso investir em longas e complexas investigações. Para opinar sobre a conjuntura com propriedade é preciso ter uma formação sólida, acesso a fontes, credibilidade, etc. Estamos falando de informação primária, aquela que depois será replicada exaustivamente pelos multiplicadores secundários e terciários. Os produtores de informação primária se queixam que a Internet prejudica o negócio deles, na medida em que a matéria deles rapidamente se espalha de forma capilar pela rede até ficar disponível em qualquer lugar. A replicação da informação a torto e direito desvaloriza esse bem e o transforma em mera commodity, é o que dizem e eu concordo. Vou explicar.

Neste blog, faço comentários sobre notícias que eu não apurei. Leio as notícias como qualquer cidadão na Internet, mas o meu negócio não é a notícia e sim o comentário e, por isso, não me considero um replicador. Costumo dar o crédito às minhas fontes e permito que meu conteúdo seja copiado em outros locais, desde que deem os créditos devidos. Pesquisando na Internet encontro meus textos em vários locais da rede, às vezes creditados, muitas vezes não. Se a replicação acontece comigo que não passo de um micro produtor imagine o que não ocorre com as fontes prestigiadas e tradicionais. Tenho a impressão de que a Internet ficaria bem menor e melhor se não houvesse tanta cópia da cópia da cópia.

Chegará um dia em que todo mundo além de consumir, vai produzir informação. Talvez, então, as pessoas vejam a informação sob uma perspectiva diferente, não mais como uma mercadoria indiferenciada disponível a granel, mas como algo que leva uma assinatura.

Timeline ou dossiê?

Redes sociais como Facebook e Twitter apresentam as informações em uma linha do tempo invertida que vai dos itens mais recentes para os mais antigos. Muitas fontes de notícias da Internet também adotam a mesma organização enfileirando as notícias em listas cronológicas inversas. Eu tenho uma resistência a essa forma de organizar informação porque é uma maneira fragmentada de olhar o mundo. Pode ser interessante quando você quer acompanhar passo a passo os desdobramentos de um acontecimento importante, mas na maioria dos casos prefiro o formato dossiê, em que alguém se dá ao trabalho de organizar a informação, sintetizando, resumindo e pondo ordem no caos. Provavelmente, isso tem a ver com minha preferência pela visão de conjunto em vez do detalhe. As reportagens das revistas impressas de atualidades são bom exemplo do uso inteligente do formato dossiê. Reportagens supõe a figura do editor que se encarrega do trabalho pesado de eliminar as redundâncias e as irrelevâncias para produzir um bloco coeso de informação e de preferência que venha interpretada e opinada.

Não sei o que é mais difícil: produzir timelines ou dossiês e para não radicalizar vou admitir que cada formato tem seu valor. A cobertura de uma revolução certamente fica mais dramática em forma de timeline, pois transporta o leitor para a intensidade dos eventos. O dossiê, por outro lado, nos traz uma visão de conjunto mais depurada. Infelizmente, o formato timeline está se difundindo para além do bom senso, talvez em função do imediatismo que rege a Internet. Produzir dossiês requer um trabalho de coleta e síntese da informação que não dá para fazer em tempo real. A maioria não quer esperar e prefere publicar a todo o instante, geralmente se ocupando do momento e poucos se preocupam com a relevância do que é publicado. Dossiês são raros na Internet se comparados às timelines. Será que na Internet só vemos as árvores sem ver a floresta?

O rito de passagem da publicação

Vamos separar duas coisas distintas que nos dias de hoje cada vez menos acontecem juntas: divulgação e reconhecimento. Uma coisa é fazer uma obra chegar aos quatro cantos do país, outra é ser reconhecido como autor de talento.

No passado divulgação e reconhecimento costumavam andar juntos. Quando um autor era publicado por uma editora como a José Olympio significava que as duas coisas, divulgação e reconhecimento, estavam acontecendo ao mesmo tempo. A obra teria lugar nas estantes das boas livrarias e o simples fato de ser autor da JOE, valia mais como reconhecimento do que qualquer prêmio literário ou resenha positiva do crítico mais ranzinza.

A regra da publicação por uma editora de prestígio como parâmetro de reconhecimento do autor continua sólida. Uma obra lançada por uma editora renomada é notícia, tem noite de autógrafos, gera matéria na mídia. É um autêntico rito de passagem. Através de toda esta movimentação é que o autor consegue se posicionar no universo da produção cultural e é por ela que o leitor se informa sobre as obras de qualidade. Lembremos que reconhecimento é um dos poucos estímulos com que o autor conta para manter o ânimo de produzir.

Bem, estamos em uma era de sites, de livros eletrônicos, de produção de livros barata e sob demanda, de comércio eletrônico, etc. Em outras palavras, se o autor quiser, pode divulgar seu trabalho a baixo custo e com total independência. Estamos bem próximos de resolver os problemas logísticos da divulgação da obra. Mas como fica nesta nova realidade a questão do reconhecimento, pois, o autor de qualidade precisa ser reconhecido e o leitor precisa saber quem são os autores de qualidade. Que parâmetros teremos no futuro para avaliar a qualidade da informação que nos chega em enxurrada por inúmeros canais?

Quando um autor publica um site com sua obra ele se desvia do circuito editora, noite de autógrafos, resenhas na mídia, etc.. Sim, porque a resenha de sites ainda é incipiente. Aqueles parâmetros tradicionais de reconhecimento estão derretendo. Numa visão simplista poderíamos dizer que se o autor publicou em site então sua obra não era aquelas coisas. Mas nós temos Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Frederico Barbosa, Régis Bonvicino, Ferreira Gullar e vários outros, bem reconhecidos e com seus sites no ar.

Quando o sujeito que gosta de poesia vai a uma livraria média, encontra uns vinte ou trinta títulos para escolher, todos de autores que já passaram por vários crivos de qualidade. Quando o mesmo leitor faz uma busca com a palavra poesia na Internet recebe aquela avalanche de sites pela frente e tem que fazer a via crucis se quiser encontrar algo bom.

Aí está o desafio desta nova era da informação democratizada. Ela passa ao largo dos tradicionais filtros de qualidade do complexo ecossistema da cultura. Alguns desses mecanismos deveriam ser mantidos ou novos deviam ser criados para que seja possível o reconhecimento do autor, caso contrário chegará o dia em que nossas antenas só captarão ruído de fundo.

Por que escrevo este blog?

Faz alguns anos que mantenho este blog. Salvo raras exceções venho mantendo a regularidade das postagem independente da audiência do blog (baixa), do retorno financeiro (nenhum) ou do tempo gasto para mante-lo (razoável). Naqueles dias em que a hora de publicar o post se aproxima e a inspiração não chega sou atormentado pela pergunta: por que manter esse blog que não me leva a lugar nenhum?

Como já passei do tempo de ter alucinações garanto que não escrevo posts para conquistar belas mulheres, nem para ficar rico. Em primeiro, escrevo para mim mesmo, para organizar meu pensamento e disciplinar meu convívio com a informação. Quando você assume o compromisso pessoal de escrever regularmente uma sequência de letrinhas de suposto interesse e presumida elegância torna-se necessário buscar os temas, fermentar conceitos, burilar as ideias, etc.

Como não sou de muita conversa e vivo matutando penso que o post é uma maneira razoavelmente eficaz de contar aos outros o que passa na minha cabeça. Estou assumindo a hipótese de que minhas ideias tem algum valor, ou se não tem, pelo menos gosto de passá-las adiante para que gerem alguma polêmica.

Por fim, estaria mentindo descaradamente se dissesse que não espero nada pelo que escrevo. Na impossibilidade de conquistar belas mulheres ou ficar rico escrevendo, contento-me com recompensas intangíveis como alguma visitação ou um comentário simpático eventual que podem ser resumidas na palavra reconhecimento. Às vezes me pergunto: a publicação de qualidade gera reconhecimento ou a vontade de reconhecimento gera publicações de qualidade? Indo além no questionamento me pergunto se continuaria escrevendo este blog sem nenhum tipo de medalhinha digital? Garanto que sim, mesmo que ninguém visite, avalie ou comente este post.

Veja também: O mito do jornalismo imparcial

A imparcialidade jornalística é corroída nos detalhes.

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