O futuro incerto do nosso passado digital

Paul Carr em artigo do blog TechCrunch dá um conselho às pessoas que desejam preservar a sua história pessoal: parem de escrever e-mails e mensagens em redes sociais e voltem a escrever cartas enviadas pelo correio. Concordo com Paul quanto ao potencial de uma carta em papel para resistir por muitas décadas como prova material de nossas experiências passadas, virtude que os meios eletrônicos voláteis ainda não demonstraram. O problema é que se voltarmos a escrever cartas para registrar os momentos importantes de nossas vidas estaremos passando uma falsa ideia sobre nossos hábitos às pessoas que no futuro se defrontarem com esses pedaços de papel impregnados de lembranças. A nossa comunicação hoje em dia acontece por e-mail e por redes sociais e, portanto, se desejamos conservar testemunhos autênticos de nossa história temos que descobrir uma maneira de conservar os e-mails e as mensagens postadas no Facebook e no Tweeter. Se você ficou preocupado com a sua biografia, talvez lhe sirva de consolo que a preservação da memória digital é um problema que vai além da experiência pessoal, é um desafio para os historiadores.

Quando vou à Biblioteca Pública do Paraná, aqui em Curitiba, gosto de passar pela seção de periódicos e fuçar em jornais e revistas antigos. Meu interesse nessa hora não é apenas ler as notícias do passado, mas observar o contexto completo: como era diagramada a revista, qual era a tecnologia de impressão, que propagandas eram veiculadas na época? Ler uma revista em papel traz uma experiência menos fragmentada, mais próxima da vivida pelos leitores do passado. Isso não quer dizer que sou a favor da mídia impressa e contra a mídia on-line, pelo contrário, em tempos ecológicos quanto menos papel melhor. O ponto onde quero chegar é que não existe uma biblioteca pública para sites de jornais e revistas on-line. Caso eu me interesse por ler a Veja on-line de cinco anos atrás o que vou conseguir talvez seja acesso a arquivos on-line que me darão uma experiência recortada do momento em que a matéria foi gerada. Sim, porque acessando arquivos da revista não serei apresentado à diagramação passada, à propaganda, enfim, ao contexto completo da época.

Em meu computador mantenho arquivos do primeiro site que desenvolvi há mais de vinte anos. Se eu acessar esses arquivos, infelizmente não estarei revisitando o site como ele era; os elementos dinâmicos como as enquetes e interatividades da época estão irremediavelmente perdidos. Caso eu desejasse uma visualização do site mais próxima do original teria que remontar o ambiente computacional da época, o que seria muito difícil, afinal vários elementos daquela configuração já não são compatíveis com as tecnologias atuais.  O problema será mais sério no dia em que eu quiser remontar minha presença digital atual, já que ela está armazenada em uma tal de nuvem computacional.

O problema colocado por Paul Carr e suas cartas em papel é a ponta de um iceberg. Preservar a memória digital vai ser uma tarefa mais complexa do que conservar cartas, jornais e revistas impressos. A próxima geração de historiadores terá que desenvolver habilidades tecnológicas para remontar o passado digital. Será preciso criar museus de software que permitam acessar a documentação digital gerada em plataformas obsoletas e por aí vai. As pessoas vão se dar conta que vivemos a época mais documentada da História, mas paradoxalmente a informação nunca esteve sob risco tão grande de preservação, pois é desenvolvida em suportes extremamente voláteis. Jovens em busca de carreiras promissoras: que tal a profissão de arqueólogo digital?

Leia o post de Paul Carr no TechCrunch

Bibliotecas vão virar museus?

Navegando pelo Flickr encontrei por acaso a imagem abaixo que me colocou para pensar em um aspecto da revolução digital até então despercebido por mim. O que vai acontecer com as bibliotecas tradicionais nos próximos anos? A Amazon, maior livraria digital do mundo divulgou que passou a vender mais livros em formato digital (e-books) do que na tradicional versão impressa. Grandes grupos de comunicação estão anunciando assinaturas digitais para ler seus periódicos em tablets como o iPad. A revolução digital não é algo distante que ocorre isoladamente em frentes avançadas. Ela está acontecendo em nível local. Aqui onde moro jornais como O Estado do Paraná  e Gazeta do Povo interromperam sua circulação impressa de décadas e passaram a oferecer apenas a versão digital. As coisas estão mudando no mundo das letras e, em breve, chegará a vez de as bibliotecas passarem por transformações radicais.

Eu já fui um rato de biblioteca. Circulei muito pelos corredores da Biblioteca Pública do Paraná e das bibliotecas da UFPR. Na minha formação, a biblioteca era um santuário, local onde residia  o conhecimento. Essa vida de traça começou a mudar quando comprei o primeiro micro, um 386 DX. Lentamente, minhas idas à biblioteca foram rareando por conta de várias circunstâncias, mas credito à Informática a responsabilidade maior por minha carteirinha da biblioteca estar esquecida na gaveta. Não vou mais ler jornais e revistas no terceiro andar da BBP, nem garimpar obras literárias na biblioteca da reitoria da UFPr. Acredito que esses locais tão importantes para minha formação continuarão cumprindo papel importante por um bom tempo, mas será que sobreviverão à era digital?

Talvez o papel histórico das bibliotecas esteja se encerrando antes mesmo de elas terem se integrado ao cotidiano da maioria das pessoas. Talvez a missão de universalizar o hábito da leitura caiba aos tablets, e-book readers ou sabe lá qual engenhoca digital. Quando a leitura digital for dominante, os livros estarão na nuvem computacional, disponíveis em qualquer lugar e teremos que pensar no que fazer com os templos do conhecimento. As bibliotecas vão se tornar museus do livro, espaços culturais, atração turística? Enquanto esse tempo não chega, que tal visitar uma biblioteca?

Como preservar a sua memória digital?

Uma foto digital nunca ficará amarelada pelo tempo, ao contrário das fotografias em papel que vão perdendo qualidade ao longo dos anos. À primeira vista os meios digitais são mais adequados para o armazenamento de longo prazo. Daqui muitos anos será possível rever uma foto postada hoje no Facebook e ela será exibida com a mesma qualidade que apresentava no dia em que foi tirada desde que … o Facebook continue funcionando no futuro distante. Caso você opte por guardar a foto no computador também poderá vê-la desde que … o formato em que foi gravada seja reconhecido pelos programas que virão. Pois é, o futuro da nossa memória digital é um mistério.

Os otimistas vão dizer que são infundados meus pensamentos sombrios sobre a preservação da história digital. “É claro que o Facebook vai existir daqui 50 anos”. Aposto que esses otimistas deslumbrados diziam o mesmo sobre o Orkut. Se você tem Facebook hoje, é provável que tinha Orkut até alguns anos atrás. Encerrou sua conta lá, não é? Eu também e dessa forma apaguei algumas páginas da minha história pessoal. Talvez você não esteja preocupado com suas memórias. Vamos falar sobre o curto prazo então. O que aconteceria se você perdesse repentinamente seu conteúdo no Facebook, Twitter ou outra rede social que você frequenta? Para algumas pessoas uma perda desses dados seria puro desastre. Digamos que o risco é baixo de algum desses grandes serviços perder seus dados no vácuo cibernético. Sim, o risco de falha técnica é reduzido considerando a estrutura sofisticada desses serviços, mas existem muitas maneiras de o usuário perder o controle sobre sua conta, seja pela ação de hackers, de ex-namoradas raivosas que tinham sua senha ou pela imperícia do usuário mão de foca.

Se você se incomoda com o risco de perder dados de mídias sociais e também com a preservação deles no longo prazo saiba que existem soluções para pessoas que fermentam preocupações patológicas. Vou exemplificar algumas:

  • Facebook. Tem solução própria de backup de dados. Acesse as configurações de sua conta e baixe uma cópia de seus dados. O Facebook gera um arquivo zipado com as mensagens e arquivos do seu perfil. É preciso lembrar de fazer isso regularmente.
  • Twitter. Existem aplicativos como o Tweetbackup que guardam cópia on-line de sua atividade no microblog. Prometem cuidar de tudo automaticamente. Quem desconfia de dados na nuvem e prefere ter o backup próximo dos olhos pode optar por aplicativos ue geram arquivos pdf para guardar no computador.
  • WordPress. Quem tem blog nessa plataforma conta com vários plugins de backup. Além disso, pode exportar os dados para um arquivo que permite a transferência dos dados para outro blog.
  • Whatsapp O aplicativo tem solução de backup integrada a serviços de disco virtual na nuvem. Importante se acontecer alguma coisa com seu celular.

Fica entendido que o backup de uma mídia social é uma forma de preservar a essência de sua presença digital. O backup não vai reproduzir fielmente o ambiente dinâmico do site. De qualquer forma, é uma alternativa para evitar a perda total.

Por fim, vem a pergunta: fiz o backup de tudinho como manda o figurino. Vou conseguir abrir esses arquivos de backup no futuro longínquo? Ninguém sabe. É melhor acompanhar a evolução de tecnologia e migrar seus arquivos para formatos novos sempre que surgirem. Assim, lá no futuro distante sua memória digital já terá passado por várias traduções de linguagem, mas permanecerá viva. O preço da segurança dos dados é a eterna vigilância.

Veja também: Chegou a hora de sair das redes sociais?

As redes sociais estão ficando tóxicas demais?

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