Reflexões de um implicante tecnológico

Algumas fermentações mentais de um heavy user de tecnologia com senso crítico.

Tem coisas que só o velho desktop faz por você

Estamos na onda dos tablets e smartphones. Eles recebem nota dez em mobilidade; a experiência de comandar o aparelho com toques na tela sensível é uma beleza e os recursos de geolocalização impressionam. É difícil resistir aos encantos e à sensação de novidade que um tablet nos traz, mas será que no futuro esses dispositivos da hora vão aposentar os velhos computadores de mesa? Antes de responder, vamos pensar em alguns usos que, por enquanto, só os computadores de mesa conseguem atender a contento.

  • Várias janelas simultâneas. Escrever um texto, montar uma planilha e preparar uma apresentação, tudo ao mesmo tempo? Serviço para o computador desktop.
  • Dois ou mais monitores simultâneos. Quem gosta ou precisa usar mais de um monitor simultaneamente no mesmo computador vai precisar de um desktop.
  • Software pesado. Para rodar programas como Photoshop, Visual Studio ou AutoCAD, não se discute: computador de mesa é preciso.
  • Vários periféricos simultâneos. Teclado físico, impressora, scanner, leitor de código de barras, disco rígido externo, tudo ao mesmo tempo? Desktop.
  • Software “antigo”. Quer acessar versões jurássicas de software com mais de 12 meses de existência?
  • Gerenciamento de rede. Quer usar o computador como servidor?
  • Aceleração de vídeo. Para games uma placa aceleradora de vídeo cai bem.

Poderíamos nos estender na listagem de tarefas que apenas o desktop com seu longo currículo de serviços prestados pode cumprir. Ao que tudo indica, tablets e smartphones vieram para ocupar o lugar de segundo, terceiro dispositivo de Informática do cidadão. Para o serviço pesado e sujo continuaremos precisando do velho desktop, ou pelo menos de um notebook bem robusto. É assim que funciona a indústria. Primeiro você compra o aparelho básico e depois segue comprando o segundo, o terceiro …

Quem precisa de TV inteligente?

A TV bem que podia ser mais inteligente, não é mesmo? Não estou falando da qualidade da programação, mas de tecnologia. Refiro-me a recursos como interatividade, flexibilidade de horários e opções, integração com redes sociais, enfim, aquelas coisas que os usuários de Informática estão habituados e adoram. Tá bom, alguns vão dizer que esses recursos não podem ser considerados um ganho de inteligência para a velha TV, mas acho que deu para entender do que estou falando. Faz tempo que a Informática assimilou a TV: é possível ver TV no computador, no smartphone ou encontrar programas na Internet, no entanto, a TV ainda tem dificuldade para assimilar a Informática. A comunicação unidirecional que começa na antena de transmissão e termina no caixote zumbidor da sala de estar segue o mesmo padrão há décadas. A TV continua sendo um fluxo ininterrupto de imagens distribuído pelo ar e destinado à assimilação passiva. A tecnologia de TV digital implantada no Brasil há pouco tempo prevê a possibilidade da comunicação bidirecional que deixaria a TV com uma cara de Internet, mas a pergunta que alguns fazem nessa hora é: quem quer TV inteligente?

A Internet é uma mídia ativa: o usuário escolhe, escolhe, escolhe o tempo todo. O uso da Internet é de certa forma parecido com a leitura de um jornal. O leitor pode começar a leitura de trás para frente, pular cadernos, ler duas vezes a mesma notícia, ignorar as propagandas. Trata-se de uma experiência diferente de ver um telejornal que segue uma ordem definida pelo editor e intercalada com comerciais. Internet é ativa, TV, passiva. Estão querendo deixar a TV ativa também. Será que vai dar certo? Pode funcionar desde que a passividade continue sendo o ponto forte dessa mídia. Eu costumo assistir o telejornal enquanto faço minha refeição da noite. Funciona bem e não recomendo a ninguém usar o notebook para ler notícias enquanto faz a refeição, pois o suco pode cair no teclado. Mesmo o mais machão há de concordar que ficar passivo  após um dia de estresse é relaxante. Têm horas que uma TV bem burrinha é um santo remédio.

A precária Internet em quatro polegadas

O uso da Internet no celular é uma experiência bem diferente da que temos em monitores de computador. A razão da diferença é simples e está no suporte, ou seja, no aparelho e sua telinha de 4 polegadas em média. É impossível exibir em uma tela pequena a mesma quantidade de informação encontrada em um monitor de 23 polegadas. A Internet desenvolvida para monitores de computador é abundante, para não dizer exagerada. Quando você acessa a página de uma notícia, por exemplo, recebe também propagandas, chamadas para outras notícias, comentários, tags, formulário de busca, informações de redes sociais, links para outras áreas do site, etc.

Toda essa informação extra é possível graças ao tamanho da tela e ao volume de dados que a banda consegue escoar. Os smartphones têm tela menor, processamento mais modesto e banda geralmente mais limitada. Além disso, as telas touchscreen pedem um design mais folgado para que a navegação seja feita com os dedos sem problemas. Essas limitações do suporte exigem uma Internet minimalista.

Uma coisa de cada vez. Essa é o recado para quem usa a Internet no smartphone. Será que a Internet móvel vai melhorar a concentração dos internautas? Talvez um pouco, mas bem pouco, porque embora a Internet móvel seja menos dispersiva, ela será baseada em drops de informação. Os produtores vão se adaptar a essa nova mídia compactando ainda mais seus conteúdos para exibição no celular. Por isso, quem está em busca de maior concentração a dica continua sendo a leitura de um romance de Dostoiévski. Ah, sim pode lê-lo no smartphone.

Monitor widescreen não é ideal para acessar a Internet

Os monitores Widescreen estão ganhando espaço a cada dia diante dos olhos dos usuários de Informática. Nos notebooks novos, por exemplo, a tela Widescreen já é padrão. Os monitores seguem a tendência impulsionada pela TV digital que adota a proporção de tela 16:9 e que, por sua vez, é parecida com o formato das telas de cinema. A tela larga é ótima para ver filme e programas de TV digital, no entanto, deixa a desejar quando o objetivo é navegar pela Internet.

Navegar na web é o uso principal do computador para muitas pessoas, inclusive eu. Infelizmente, os sites não são pensados para a tela widescreen. As páginas de Internet costumam ser longas. Quando uma página típica de Internet é exibida em monitor widescreen o resultado é desanimador. A tela widescreen é larga e as páginas são estreitas. O monitor wide tem pouca altura e as páginas web são longas. O resultado é um desperdício de área de tela e pouca usabilidade já que o usuário tem que ficar usando a barra de rolagem o tempo todo.

Como resolver essa parada? Redesenhar as páginas da web para deixá-las otimizadas ao formato widescreen não é viável, pois a maior parte do conteúdo se encaixa melhor no formato estreito e alto. O formato wide, por outro lado, é ideal para alguns usos como exibição de filmes e de planilhas. A solução é bem simples, embora pouco usada pela indústria: basta girar o monitor, uai. Nos smartphones essa solução é bastante usada. O iPhone, por exemplo, percebe automaticamente se o usuário quer a tela no formato retrato ou paisagem. Na hora de ver um filme, usa-se o monitor na posição paisagem que é larga. Quando for para ler um texto longo, gira-se o monitor para a posição retrato que é alta. Simples assim. Os sistemas operacionais permitem girar o conteúdo da tela sem problemas, no entanto, não é comum encontrar monitores com pedestal giratório na vertical. Enquanto esses monitores giratórios não se tornarem populares o único jeito é virar o monitor na força bruta deixando o pedestal a balançar as perninhas. Garanto que o efeito estético não é dos melhores.

Quem precisa de telefone fixo?

As estatísticas mostram que muitas residências não tem mais telefone fixo. Nessas casas, a comunicação é feita por outros meios, principalmente por telefone celular. A parcela da população que está abandonando o telefone fixo cresce em ritmo forte. Com a chegada de novas tecnologias de comunicação, mais avançadas e com mais recursos, o velho telefone fixo corre risco de acabar no museu. Nesse mundo repleto de celulares e whatsapp quem precisa de telefone fixo? Eu preciso, mas não é pela necessidade de fazer ligações. Vou explicar:

A sobrevida do telefone fixo está garantida enquanto vigorarem certas artimanhas de mercado. No Brasil, ainda predomina a venda casada de telefone fixo com serviços de banda larga. Lá em casa, por exemplo, tem uma assinatura de telefone fixo para dispor da conexão de Internet banda larga. Em outras palavras: assino dois serviços: telefone fixo + conexão ADSL. Dos dois, eu só precisaria da conexão à Internet.

O argumento social em favor do telefone fixo também já caiu por terra. Embora as tarifas do telefone fixo sejam mais baixas que as do celular, o custo da assinatura e as exigências de cadastro o deixam inacessível a muitas famílias. Além do mais, essas pessoas de menor renda são atendidas pelos celulares pré-pagos. O celular pré-pago é menos burocrático e, em muitos casos, fica mais barato que a alternativa fixa. Algumas pessoas veem o telefone fixo como um aparelho da família, enquanto que o celular seria um artefato individual, mas têm famílias que compartilham o mesmo celular, o que deixa o seu uso muito parecido com o do aparelho fixo.

Chegará o dia em que a imensa infraestrutura da telefonia fixa será usada apenas para trafegar dados de Internet. Nesse dia, minha conta mensal de conexão cairá pela metade e o aparelho telefônico permanecerá na estante apenas para efeitos decorativos e sentimentais. Se algum neto me perguntar para que servia tal engenhoca direi que dava para falar com quem estava longe, mas que não tinha vídeo, nem holograma 3D, nem cheiro.

Pendurados por um fio

Naquela época primitiva em que não havia Internet e possuir linha de telefone fixo era símbolo de status, os pais tinham uma grande preocupação em relação aos filhos, mais especificamente com as filhas adolescentes: evitar que elas ficassem penduradas no telefone por horas a fio, senão, a conta no final do mês batia no teto enquanto o pai batia as costas no chão ao abrir a fatura. Pois bem, as mocinhas tagarelas daquela época são as mães dos adolescentes de hoje e o problema delas agora é tirar seus filhos da frente do computador com Internet. São muitos os argumentos usados para convencer os filhos:

— Vou ligar já para o seu pai.

— Você vai estragar a vista de tanto olhar para a tela.

— Vai jogar bola, pegar um ar, tomar um sol.

— Assim você perde o contato com a realidade.

— Arrume uma namorada.

Agora vamos falar sério: cada geração comete seus excessos. Muitos  jogam videogame até ficar com LER e outros não largam o celular nem quando estão no volante. Para não falar só dos outros, lembro que na adolescência, eu assistia TV por horas a fio. Não é de hoje, portanto, que as pessoas viciam em meios de comunicação e o dependuramento em fios é um problema antigo. Por outro lado,  ninguém duvida que acesso barato à tecnologia é tudo de bom desde que apreciada com moderação. Ou como diria o ministro Hélio Costa das Comunicações, tem que “despendurar” de vez em quando, gente.

Pessoas multitarefa absorvem menos informação

Esses dias, eu estava sentado à mesa fazendo o lanche da noite; a TV estava sintonizada no telejornal; minha mulher contava algo que não lembro e meu filho me perguntou se o exercício de matemática estava correto. Nisso, deu uma notícia importante na TV, mas não consegui pegar porque minha mulher perguntava se eu tinha escutado o que ela disse e meu filho reclamava que o gabarito da questão não batia com a resposta que eu dei para o exercício. Por essa e por outras é que digo: não basta ser multitarefa, tem que dar conta do recado, o que não é o meu caso. Faço bem feito quando faço uma coisa de cada vez.

Pessoas multitarefa, as que fazem várias coisas ao mesmo tempo, existem desde o tempo das cavernas, mas foi com a chegada da tecnologia digital que o modo multitarefa de ser começou a receber mais atenção e estudos acadêmicos. Os nativos digitais, ou seja, os jovens que nasceram imersos na tecnologia da informação, sempre são descritos como pessoas multitarefa, principalmente, quando se trata do uso de recursos eletrônicos. Eles escutam música, usam o computador, falam ao telefone e fazem lição, tudo ao mesmo tempo. Com todo esse bombardeio de estímulos, era de se esperar que essa garotada tivesse habilidades desenvolvidas para gerenciar informação. Por gerenciar entenda-se a capacidade de assimilar, priorizar e reter. A geração digital está exposta a um volume de informação maior do que as gerações anteriores. Além disso, o estilo multitarefa que predomina em suas vidas deveria deixá-los por condicionamento mais hábeis para gerenciar dados simultâneos. Um estudo feito na Universidade de Stanford, porém, mostra o contrário.

Os pesquisadores de Stanford fizeram testes com dois grupos de jovens: um deles de pessoas caracterizadas como multitarefas ligth e outro, de multifarefas intensivos. Esses jovens foram submetidos a testes em que tinham que absorver, filtrar e reter informação. Os multitarefa pesados tiveram desempenho pior do que os multitarefas leves. O estudo constata fatos, não os explica. Talvez, pessoas que não gerenciam bem a informação tenham propensão a ser mais multitarefas por conta de sua dispersão. Enquanto isso, pessoas que gerenciam melhor a informação talvez bloqueiem voluntariamente o excesso de estímulos para mantê-los dentro de limites administráveis.

Eu, migrante digital, não sou um multitasker eficiente e não sei se quero me tornar um. Não é de hoje que conto o número de janelas abertas no computador. O Windows Starter Edition que só permite abrir três janelas simultaneamente estaria de bom tamanho para mim. Parto do princípio que cuidar de uma tartaruga é simples, cuidar de três tartarugas é relativamente simples. Cuidar de um bando de tartarugas safadas é um sério problema.

Computadores mandam

No mundo dos humanos, quando recebemos um não pela terceira vez concluímos que se trata de um não definitivo e irrevogável. Computadores podem ser treinados para entender as regras de etiqueta da espécie humana. A Microsoft, por exemplo, tem uma equipe de programadores, psicólogos e antropólogos para adestrar seus programas, mas a perfeição obviamente só vai ser alcançada no Juízo Final.

Está longe o dia em que teremos o controle sobre os computadores. Por enquanto, eles ainda são geniosos e fogem ao nosso controle frequentemente. Eu nunca entendi, por exemplo, porque que uma janela minimizada tem o topete de roubar o foco da janela ativa e se colocar diante de mim de repente sem ser chamada. Você está fazendo uma coisa importante e sem aviso o programa enxerido se coloca em primeiro plano como a dizer: ei, me atenda agora. Quero porque quero que você me dê atenção. Lembram daquele fulaninho que se achava: o assistente do Office em forma de clips que abanava o rabo e que ficava aparecendo sem ser chamado para dar palpites inconvenientes? Um dia os computadores vão ganhar a discrição de um mordomo inglês, mas por enquanto ainda vivemos a era das máquinas que sabem o que é melhor para nós.

Veja também: Chegou a hora de sair das redes sociais?

As redes sociais estão ficando tóxicas demais?

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