Estudando Economia e História com as cédulas brasileiras

A Numismática, estudo da moeda, pode nos ensinar várias coisas sobre Economia e História. Vamos descobrir algumas informações interessantes sobre as cédulas que circularam no Brasil desde a Independência até a atualidade.

Um real vale quantos mil réis?

Vamos começar pela pergunta clássica: a moeda atual do Brasil vale quantos mil réis, a moeda da época em que o Brasil se tornou independente? Primeiro vamos fazer a correspondência em valor de face, ou seja, aquele valor que é declarado na própria cédula.

Cédula de hum mil-réis

Ao longo dos anos o Brasil mudou oito vezes de moeda. A cada mudança foi estabelecida uma correspondência entre o valor de face da moeda antiga e o da moeda nova. Por exemplo: em 1942 ocorreu a primeira mudança e foi decretado que um cruzeiro correspondia a um mil réis. Na tabela a seguir temos as correspondências a cada troca de padrão monetário.

Equivalência entre moedas

Fazendo as contas a partir da tabela vamos concluir que um real equivale em valor de face a 2.750.000.000.000.000 mil réis (dois quatrilhões e setecentos e cinquenta trilhões de mil réis).

R$ 1,00 = Rs 2.750.000.000.000.000$000

Esse número astronômico é resultado de anos de inflação muito alta que levava aos famosos cortes de três zeros em nossas cédulas. Então quer dizer que se eu voltasse no tempo com uma cédula de real na mão poderia comprar o Brasil inteiro? Não é bem assim. A comparação pelo valor de face não é satisfatória se estivermos pensando no poder aquisitivo do mil réis, mas aí é melhor mudar a pergunta, como veremos a seguir.


Cronologia das cédulas brasileiras em vídeo

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O que dava para comprar com um mil réis?

Primeiro temos que lembrar que o mil réis circulou no Brasil por 120 anos e nesse longo período houve muita inflação, então a pergunta tem que ser complementada com uma data. O que dava para comprar com mil réis em 1833? por exemplo.

Lá no século XIX uma cédula de um mil réis era valiosa. Não era sensato sair por aí com cédulas de mil réis no bolso. Na década de 1830 um milréis comprava mais de uma grama de ouro. Com um conto de réis se comprava mais de um quilograma do metal. Em 2026 uma grama de ouro vale cerca de R$ 700,00.

Com o tempo o mil réis foi corroído pela inflação. Quando foi substituído pelo cruzeiro em 1942 a nota de um mil réis dava para pagar um cafezinho e não mais que isso.

Qual a cédula com maior valor que tivemos?

Aqui temos que diferenciar entre valor de face e poder aquisitivo da cédula. Começando pelo valor de face: A inflação fora de controle levava as autoridades monetárias a emitir cédulas com valor de face cada vez mais alto. O padrão mil réis já era múltiplo de mil do Real português. Nos tempos da República foram emitidas cédulas de um conto de réis.

Um conto de réis = 1.000 mil réis = 1.000.000 de réis.

Se considerarmos que um conto de réis valia um milhão de réis essa seria a cédula de maior valor de face da nossa história. A cédula com mais zeros impressos, porém, foi a de quinhentos mil cruzeiros de 1993.

Se pensarmos na cédula com maior poder aquisitivo, provavelmente a campeã será a nota de 500 mil réis do início do império que na época comprava meio kg de ouro.

Cédula de 500 mil-réis Perkins

Está na hora de lançar a nota de R$ 500,00?

Quando foi criado em 1994, um real equivalia aproximadamente a um dólar americano. Dava para tomar um cafezinho expresso com ele ou pagar uma passagem de ônibus urbano. Passados 30+ anos o real foi corroído pela inflação num ritmo bem mais rápido que o dólar americano. Em 2026 um dólar vale mais de 5 reais (US$ 1,00 = R$ 5,00).

No passado, a corrosão do poder aquisitivo da moeda levava à criação de cédulas com valores de face progressivamente mais altos. Em termos práticos, se quiséssemos reproduzir as condições de 1994 seria necessário criar as cédulas de 200 e 500 reais. A cédula de um real deixou de ser impressa em 2003 e transações de um real hoje são feitas com moedas de metal.

Se a nota de 500 reais vai ser criada é outra história. Há outros fatores a considerar como o impacto psicológico negativo de se aumentar o valor da maior cédula em circulação. Antigamente, o sistema bancário era pouco desenvolvido e era preciso contar com cédulas de poder aquisitivo mais alto. Atualmente, as transações de maior valor ocorrem cada vez mais por meios de pagamento eletrônico.

Quanto custa imprimir dinheiro?

As moedas e cédulas tem valor de face, mas além disso, têm um custo de produção. O custo de fabricação de uma moeda brasileira gira em torno de R$ 0,30. Isso quer dizer que moedas com valor de face baixo custam mais do que valem. Moedas são produzidas com valores de face baixo, pois duram mais e são apropriadas para circular bastante como troco principalmente.

Uma cédula de papel tem custo de produção médio de R$ 0,30. Não duram muito, dois anos em média, mas são difíceis de falsificar e,por isso, são produzidas com valores de face mais altos já que notas mais altas despertam o interesse dos falsários.

Por que não existe cédula de três reais?

Cédulas que começam com três são raras tanto no Brasil como pelo mundo afora. Normalmente temos os valores de face 1, 2, 5, 10, 20, 50, 100, … Mas por que não se faz notas com valor de face começando por 3?

Sempre ouvi especialistas dizendo que notas de 3 não são necessárias para o cotidiano, pois as notas de 1, 2 e 5 são suficientes para fazer pagamentos e troco de forma econômica. Insatisfeito com essa afirmação nebulosa resolvi fazer uma simulação no Excel com três modelos diferentes. Primeiro o modelo 1-5, depois o modelo 1-2-5 e por fim um modelo 1-2-3-5 que incluiria as cédulas de valor três.

Veja na tabela que uma coleção de cédulas formada apenas por notas de 1 e 5 exige mais papel para fazer pagamentos. Nesse modelo um pagamento de valor 8 requer 4 cédulas.

O número de cédulas por transação cai quando temos cédulas com valores 1-2-5. E melhora ligeiramente se o modelo tiver notas com valores 1-2-3-5. Não compensa imprimir a nota de três porque não traz redução significativa no volume de papel necessário às transações.

Agora dá para entender o porque da expressão popular “mais falsa do que nota de 3 reais.”

Padrão monetário elegante

Qual seria a família de cédulas dos sonhos de qualquer ministro da fazenda? O ideal é que a cédula de menor valor tenha poder de comprar coisas corriqueiras e de valor baixo como um cafezinho expresso, uma passagem de metrô ou um litro de gasolina. A cédula maior da coleção teria 100 vezes o valor de face da menor. E o conjunto seria formado pelas sete cédulas clássicas: 1, 2, 5, 10, 20, 50 e 100.

O dólar americano segue essas características. O euro foge um pouco desse modelo ideal, pois não conta com cédula de 1 euro e tem as cédulas pouco usadas de 200 e 500 euros. O plano real de 1994 começou bem atendendo exatamente as condições do nosso modelo elegante. Após 30+ anos de implantação, porém, a inflação do período corroeu o poder aquisitivo das cédulas consideravelmente.

Quanto vale uma cédula de um real?

Esses dias encontrei uma cédula de um real em um livro da minha estante. Novinha em folha, impecável, flor de estampa como diriam os colecionadores. Lembrei que eu mesmo a coloquei lá na época do lançamento do Real como souvenir. Mas quanto vale essa nota hoje (2019)?

Cédula de um real

Valor de face. Embora não sejam produzidas desde 2005 as cédulas de um real ainda estão em circulação, portanto se eu for à padaria com minha cédula posso fazer compras pelo seu valor de face: R$ 1,00, mas esta não me parece uma boa opção.

Custo de propriedade. Quando guardei a cédula em 1994 ela valia aproximadamente um dólar americano. Em 2026 o dólar está valendo em torno de R$ 5,00. Se eu atualizar o valor dela pelo INPC (índice nacional de preços ao consumidor) chegamos a R$ 8,00. Se eu tivesse aplicado essa cédula em um investimento com rendimento real de 3% ao ano ela teria gerado R$ 15,00. Como se vê pelas comparações a ideia de guardar a cédula por 30+ anos pode ter me levado a uma perda financeira muitas vezes superior ao valor de face da nota.

Valor para colecionadores. Felizmente, cédulas antigas são valorizadas pelos colecionadores. A minha cédula tem uns detalhes que a tornam mais cobiçada: exibe a frase “Deus seja louvado” e foi assinada pelo ministro Rubem Ricupero, que ficou pouco tempo no cargo. Em um site especializado encontrei a cotação de R$ 28,00 para a minha verdinha. Só que vender uma cédula antiga dá certo trabalho. Vamos dizer que 25% da venda são despesas, então minha nota pode me render R$ 21,00. Agora vi vantagem. Meu ato tresloucado de guardar dinheiro na estante pode me gerar um ganho real atraente. Poderia ser mais se tivesse sorte de guardar uma série mais rara. Algumas notas de um real alcançam mais de R$ 200,00.

E se eu tivesse guardado uma nota de R$100,00? Bem, nesse caso só por amor à numismática porque se a nota não tiver nenhuma particularidade que a torne especial o prejuízo é tenso.

Resumindo

Quanto vale uma nota de um real?

  • Valor de face: R$ 1,00.
  • Custo de produção: R$ 0,30.
  • Dolarizada: R$ 5,00.
  • Corrigida pela inflação: R$ 8,00.
  • Investida: R$ 15,00.
  • Colecionável: R$ 28,00.

Quem mais apareceu como efígie das cédulas brasileiras?

Efígie é a representação de uma pessoa estampada na cédula, geralmente rosto ou busto. Na história do dinheiro brasileiro alguns personagens marcaram presença em nosso dinheiro. Veja o ranking:

Efígie da República
PersonagemCédulas
Personificação da República27
D. Pedro II26
Afonso Pena8
Barão do Rio Branco4
Deodoro da Fonseca4
Rodrigues Alves4
Campos Sales3
D. Pedro I3
Artur Bernardes2
Duque de Caxias2
Floriano Peixoto2
José Bonifácio2
Marques de Olinda2
Pedro Álvares Cabral2
Princesa Isabel2
Prudente de Morais2
Regente Feijó2
Santos Dumont2
Almirante Tamandaré1
Anísio Teixeira1
Augusto Ruschi1
Câmara Cascudo1
Carlos Chagas1
Carlos Drummond de Andrade1
Carlos Gomes1
Castelo Branco1
Cecília Meirelles1
D. João VI1
David Campista1
Getúlio Vargas1
Joaquim Murtinho1
Joaquim Xavier1
Juscelino1
Machado de Assis1
Marechal Rondon1
Mário de Andrade1
Oswaldo Cruz1
Portinari1
Rui Barbosa1
Saldanha Marinho1
Tiradentes1
Villa Lobos1
Vital Brasil1

Com o advento da República veio a ideia de criar uma representação humanizada da República, que é um conceito abstrato. Na França, foi criado o personagem Marianne que usava um barrete frígio. A ideia se popularizou mundo afora e no Brasil tivemos várias cédulas com a efígie de uma mulher jovem geralmente usando coroa de louros e barrete frígio.

Durante o segundo reinado a efígie de D. Pedro II aparecia em todas as cédulas por motivos óbvios. O imperador é a humanização do império. Mesmo no período republicano D. Pedro II continuou sendo homenageado.

O presidente Afonso Pena foi homenageado em uma família de sete cédulas produzida pela Caixa de Conversão, daí estar entre os mais homenageados.

No período da Nova República houve uma alteração no padrão das homenagens. As cédulas passaram a trazer efígies de figuras da cultura e das ciências em detrimento dos políticos.

Na República Velha e no Estado Novo houve alguns casos de homenagens a pessoas vivas, caso da cédula de 10 cruzeiros que trazia a efígie do presidente em exercício: Getúlio Vargas.

Na história de nosso dinheiro duas mulheres foram homenageadas: Princesa Isabel e Cecília Meirelles.

Cédula com Cecília Meirelles

Além das efígies, muitas cédulas apresentavam figuras representando entidades da cultura clássica que remetiam a conceitos como Justiça, sabedoria, etc. O uso dessas entidades abstratas foi comum em muitos países clientes das grandes gráficas da época. Isso pode apontar uma tendência de produzir cédulas com certa neutralidade ideológica.

Quem imprime o nosso dinheiro?

Atualmente, a maior parte das moedas e cédulas que circulam no país é impressa na Casa da Moeda do Brasil, uma empresa estatal com sede em Brasília e fábrica no Rio de Janeiro. Tem sido assim desde a década de 1970 quando a Casa da Moeda atingiu a maturidade técnica para imprimir moeda com segurança. Em períodos recentes o Banco Central do Brasil tem recorrido a gráficas estrangeiras apenas em momentos de alta demanda como ocorreu no lançamento do Real. Antes da década de 1970, porém, embora a casa da moeda brasileira já existisse, a maior parte das cédulas brasileiras era impressa no exterior. Gráficas que imprimiram dinheiro brasileiro:

  • Thomas de La Rue (inglesa)
  • American Bank Note Company (americana)
  • Bradburry Wilkinson (inglesa)
  • Georges Duval (francesa)
  • Waterlow & Sons (inglesa)
  • Perkins Bacon & Petch (inglesa)

Imprimir dinheiro em gráficas estrangeiras não foi prática só do governo brasileiro. As grandes gráficas seguras atendiam a maioria dos países no passado. Atualmente, a situação se inverteu: é a Casa da Moeda do Brasil que imprime dinheiro e documentos seguros para outros países. Apesar da capacidade técnica da nossa Casa da Moeda há quem defenda sua privatização, alegando que não é função do estado envolver-se com atividade produtiva e que o Banco Central encontraria melhores preços encomendando cédulas à iniciativa privada como no passado.

Evolução da ortografia

Observando nossas cédulas acompanhamos as mudanças na ortografia do português do Brasil. Veja duas cédulas de mil réis com Brasil e Brazil.

Cédula mil-réis Barão do Rio Branco
Cédula mil-réis Barão do Rio Branco

Cincoenta, cinqüenta e cinquenta:

cédula de 50 reais
Cédula 50 cruzeiros Drummond
Cédula de 50 mil-réis império

Colecionismo

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