Antropoceno: 10.000 anos de geoengenharia planetária

Antropoceno seria o período em que as características geológicas do nosso planeta passaram a sofrer alterações significativas por conta da ação humana. Não se trata de um período geológico oficial; a ideia de cria-lo partiu do Prêmio Nobel de Química Paul Crutzen em 2000, embora outros cientistas já tivessem feito propostas semelhantes bem antes. Paul Crutzen defende que o período Antropoceno iniciou no século XVIII com a invenção da máquina a vapor. Foi nessa época que os humanos começaram a fazer uso intensivo dos combustíveis fósseis e de lá para cá a concentração de gás carbônico na atmosfera aumentou drasticamente. Outros estudiosos defendem que a ação humana passou a causar alterações significativas no planeta desde o desenvolvimento da agricultura há cerca de dez mil anos. Se considerarmos todos os impactos da espécie humana sobre os ecossistemas teríamos que recuar ainda mais no tempo. O crescimento da população de homo sapiens pode estar relacionado com a grande extinção de megafauna após a última glaciação, ocorrida há quase doze mil anos atrás. Nessa linha de raciocínio o período geológico oficial conhecido como Holoceno poderia ser renomeado para Antropoceno já que foi nesse intervalo de cerca de 12.000 anos que a Terra passou a sentir o impacto da presença do homo sapiens.

O nome Antropoceno poderia soar arrogante, afinal estamos associando um período da história da Terra à nossa espécie, mesmo considerando que somos dominantes no ecossistema. Ao criar o nome, porém, Paul Crutzen não pretendia homenagear a civilização do homo sapiens, mas vinculá-lo às drásticas transformações ambientais que o crescimento da nossa população tem causado. Infelizmente, do ponto de vista ambiental, essas transformações não são dignas de comemoração. Nossa vocação para exterminadores de espécies começou na aurora da nossa civilização. Temos responsabilidade na extinção dos mamutes, dos tigres de dentes de sabre e do homem de Neandertal. Tudo bem que ninguém precisa ficar se flagelando por esses “crimes” ecológicos de 12.000 anos atrás. O que não dá para aceitar é continuarmos a nos comportar como nossos toscos ancestrais que naquela época travavam uma luta encarniçada pela sobrevivência. A extinção da megafauna do Holoceno vai parecer um nada diante da extinção brutal de biodiversidade que está em curso em pleno século XXI. Quase todos os ecossistemas do planeta já foram alterados pelo homem e ainda estamos muito longe de um estágio cultural em que deixaremos de ser predadores ambientais, mesmo assim prefiro acreditar que ainda há tempo para alcançarmos o período Ecoceno.

10.000 anos de engenharia planetária

Nos últimos anos surgiram termos como geoengenharia, engenharia planetária, engenharia de mega escala, engenharia climática. São expressões que aos poucos entram para nosso vocabulário e designam áreas da engenharia que têm por objetivo salvar o planeta de catástrofes ambientais como aquecimento global, derretimento das calotas polares ou acidificação dos mares. A engenharia planetária está ganhando força em vários círculos apesar de seus aspectos prá lá de polêmicos. Não vamos nos iludir, porém, que se trate de novidade, afinal o ser humano vem fazendo engenharia planetária há mais de dez mil anos. Vou explicar:

Digamos que engenharia planetária seja um conjunto de ações humanas envolvendo tecnologias que modificam ecossistemas em grande escala, atingindo vastas regiões e, em alguns casos, o planeta inteiro. Por esta definição, o ser humano é um engenheiro planetário há milênios. Vejam bem, não estamos distinguindo entre intervenções benignas ou malignas. Só para exemplificar vejamos algumas “obras” marcantes na história do planeta fruto da ação humana.

  • Extinção de mega fauna do Holoceno. Nos últimos 10.000 anos, no período geológico conhecido como Holoceno, inúmeras espécies foram extintas. A seqüência dramática de extinções começou no fim da era glacial com o desaparecimento de animais como o mamute lanoso e o tigre de dentes de sabre e vem ganhando velocidade nos últimos séculos. A presença humana nos habitats dos animais extintos é apontada como causa principal dos desaparecimentos.
  • Salinização do crescente fértil. A região localizada entre os rios Tigre e Eufrates, um dos berços da civilização, passou por um processo de salinização na Antiguidade, graças ao uso impróprio do solo para agricultura. A salinização alterou as condições do solo reduzindo em muito a fertilidade da região.
  • Redução da cobertura vegetal nativa. Em quase todas as áreas do planeta a cobertura vegetal nativa foi removida para dar lugar à atividade agropecuária.
  • Desaparecimento do Mar de Aral. O grande lago da Ásia Central conhecido como Mar de Aral teve sua área reduzida em 90% a partir dos anos 1960 por conta de projetos de irrigação conduzidos pela antiga União Soviética.
  • Aquecimento global. O aumento da concentração de gases como dióxido de carbono na atmosfera está causando o gradativo aquecimento do planeta. Os efeitos desse aquecimento são devastadores e a causa do problema está em atividades humanas como queima de florestas e de combustíveis fósseis.

A esta altura alguns vão dizer que os exemplos citados não são exatamente obras de engenharia, mas devem concordar que são modificações drásticas no ecossistema causadas pelo homem mesmo que involuntariamente. Entusiastas ingênuos da engenharia planetária vão argumentar: ah, mas isso é passado. A nova engenharia é do bem e as intervenções nos ecossistemas daqui em diante serão favoráveis ao planeta. Muito cuidado nessa hora. Há engenheiros planetários por aí guiados por velhas idéias desenvolvimentistas. Estes pensam que a crise ambiental planetária pode ser resolvida com grandes obras que envolvem grande consumo de matérias primas e energia e que podem ser implementadas sem calcular os impactos do projeto de forma ampla.

Não adianta se iludir, não dá para pensar em uma engenharia planetária do bem sem rever conceitos. Engenheiro planetário que se preza tem que descer do pedestal, o planeta é grande, mas pequeno para a megalomania do pensamento desenvolvimentista. A verdadeira engenharia planetária ainda está por vir, só não sabemos se virá a tempo.

Geoengenharia ou devastação em escala planetária?

Vou dar uma definição de geoenenharia que não é rigorosa nem politicamente correta, mas sintetiza a minha preocupação com essa nova ciência que pode tomar um rumo promissor no futuro, mas que por enquanto está contaminada por uma visão desenvolvimentista e ultrapassada do combate às mudanças climáticas do planeta.

A geoengenharia estuda as ações humanas inconsequentes e de escala planetária capazes de deter as alterações climáticas causadas por outras ações humanas inconsequentes.

Se entendermos a geoengeharia como um conjunto de ações que provocam alterações globais em nosso habitat podemos dizer que somos geoengenheiros há muito tempo. Não é de hoje que o homem faz intervenções drásticas no planeta. Já devastamos a cobertura vegetal de continentes inteiros; extinguimos muitas espécies; contaminamos a maioria dos ecossistemas com poluição; provocamos a desertificação de grandes áreas; secamos rios e mares; construímos grandes barragens, aterros e ilhas artificiais; introduzimos espécies exóticas agressivas em outros biomas e estamos alimentando o aquecimento global. Estou falando de uma geoengenharia de devastação que permitiu à nossa espécie conquistar o planeta, mas que deixou uma fatura a ser paga.

O homem é um geoengenheiro nato que foi ampliando o alcance de suas ações e que agora planeja intervenções em escala global. O objetivo imediato dessa suposta geoengenharia do bem que está nascendo é propor soluções para o aquecimento global. Infelizmente, parte das pessoas que estão se ocupando da geoengenharia seguem a mesma linha predatória do passado em relação ao ambiente. A geoengenharia ainda é um conjunto de propostas e vou falar sobre duas delas para deixar mais claro quais são os riscos a que me refiro.

Escurecimento global com sulfatos. O planeta ficou mais escuro ao longo do século XX, por conta do lançamento de poluentes particulados na atmosfera. Na última década do século passado, ainda bem, a tendência ao escurecimento se inverteu, provavelmente, graças a cortes nas emissões de poluentes. O escurecimento da atmosfera tem potencial de compensar o aquecimento global, pois reduz a incidência de raios solares. Alguns geoengenheiros propõem um escurecimento artificial da atmosfera por meio da queima de enxofre na extratosfera, o que geraria uma camada refletora de sulfatos. Alguns efeitos colaterais viriam junto como chuvas ácidas, alteração no regime de chuvas do planeta e mudanças na cor do céu e do pôr do sol. Além disso, a semeadura de sulfatos teria que ser feita continuamente, pois a retenção deles na atmosfera é curta. Obviamente, quanto mais CO2 for lançado no ar, mais enxofre será consumido para compensar o aquecimento, o que vai mover mais uma indústria devoradora de recursos.

Fertilização dos mares com ferro. O ferro é um elemento importante no ciclo vital da vida marinha. A ideia é fertilizar os oceanos artificialmente com ferro para aumentar a população de algas. As algas seqüestram carbono da atmosfera em seu processo de fotossíntese e, dessa forma, amenizariam o efeito estufa. Os efeitos colaterais dessas algas bem alimentadas pelo geoengenheiros seriam grandes desequilíbrios nos ecossistemas marinhos, surgimentos de marés vermelhas e acidificação das águas, entre outros.

Os dois exemplos que citei têm em comum alguns vícios da velha geoengenharia informal que o homem tem praticado há séculos: atacam os sintomas e ignoram as causas; criam uma espiral crescente de gastos de recursos e apresentam efeitos colaterais inaceitáveis. Não duvido que alguns projetos de geogenheria serão postos em prática no futuro, mas uma geoengenharia do bem não pode ser baseada na megalomania das obras faraônicas e exige respeito à complexidade dos sistemas que governam essa pequena bola azul em que vivemos.

Geoengenharia do bem

Ideias para conter o aquecimento global não faltam. Uma das propostas que corre por aí é a de lançar na órbita da terra milhões de espelhos para que eles reflitam a luz do sol evitando sua entrada na atmosfera e, dessa forma, amenizando o efeito estufa. Esta é uma das propostas da geoengenharia faraônica que faria a felicidade de algum consórcio multinacional encarregado de operar o serviço. O custo de um projeto desse porte ficaria na casa dos trilhões de dólares e nem faço ideia de como seriam resolvidos os entraves diplomáticos para sua execução. Quem tem jurisdição sobre o aspaço, afinal? É um daqueles projeto que atacam o sintoma enquanto que a causa primária, a emissão de CO2 continuaria avançando sem freios.

A poderosa indústria de espelhos espaciais, provavelmente, faria lobby para impedir a redução das emissões, afinal, quanto mais CO2 for para a atmosfera, mais espelhos serão necessários. Chegaria o dia em que os espelhos começariam a mudar a cor do céu, alterariam o regime de chuvas no planeta e a estratosfera passaria a ser mais um lugar repleto de lixo, mas esses problemas todos ficariam para administrações futuras. Decididamente, essa geoengenharia predatória só interessaria a empreiteiros gananciosos, mas será que existe uma geoengenharia do bem?
As propostas da geoengenharia variam muito dependendo da ideologia que está por trás delas. Em um extremo temos a linha desenvolvimentista que não quer mudar hábitos, não quer reduzir consumo e sonha com intervenções drásticas em escala planetária. Existem, por outro lado, propostas menos agressivas que vão pelo caminho do combate às causas do problema, da redução do consumo e do respeito à complexidade do nosso sistema ambiental. Vou um exemplo de solução para o aquecimento global com menor impacto e menor custo: reflorestamento. Simples assim. Árvores seqüestram carbono da atmosfera; podem ser manejadas para fornecer matérias primas para a indústria; detêm a erosão do solo; protegem encostas e as margens dos rios. Melhor ainda se o reflorestamento for feito com espécies nativas para a recuperação de ecossistemas degradados. O reflorestamento não vai competir com a agropecuária se investirmos em tecnologia para melhorar a produtividade da lavoura. Além disso, a agricultura pode também contribuir no combate ao aquecimento global. O plantio direto pode funcionar como parte de um mecanismo de seqüestro de carbono e, da mesma forma, o tratamento do solo com carvão vegetal.

As propostas da geoengenharia precisam ser assimiladas com senso crítico porque a tecnologia não é neutra e a mãe terra reage segundo suas leis.

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