Um datilógrafo na era do teclado virtual

Este escriba que vos fala começou nas artes da escrita mecanizada em uma época que para ser presidente da república era preciso ingressar na academia militar. Fiz curso de datilografia no colégio de freiras do meu bairro onde aprendi a digitar com os dez dedos sem olhar para o teclado. A máquina de escrever Remington que usei no curso era coberta por uma tampa de madeira para impedir a visão das teclas. Eu colocava as mãos por baixo da tampa e começava a longa sequência de exercícios: asdfg hjklçasdfghjklç. Esclareço às novas gerações que máquina de escrever é um tipo de impressora que imprime enquanto digitamos.

Anos mais tarde, já com a cara pintada pelo impeachment de um certo presidente, comprei um computador 386 DX equipado com impressora matricial Epson. Fiquei maravilhado com as possibilidades do processador de texto e continuei digitando com os dez dedos no teclado do computador que era parecido com o da máquina de escrever. Parecido, mas diferente. Tive que adaptar meu cérebro às pequenas mudanças. Foi nessa época que fiquei sabendo da existência de incontáveis layouts de teclado e que era preciso dominar a arte da configuração desse periférico essencial.

Avançando mais no tempo, na época do presidente operário, novos teclados foram surgindo aos montes e aí a minha relação com as teclas começou a azedar. Como seria possível digitar mensagens de texto no celular usando apenas o polegar sobre um teclado minúsculo de dez teclas? Logo depois, chegaram os teclados virtuais dos smarthpones e tablets e atônito eu me enchi de dúvidas: onde fica o CTRL C + CTRL V dessa encrenca? Cadê o cê cedilha? Dá para colocar a bolinha de 1º?

Nos tablets de 10″ é dificil encaixar os dez dedos, em smartphones, nem pensar. Tudo bem que existem por aí campeões de digitação com os polegares e que alguns dedógrafos catadores de milho digitam rápido usando apenas os indicadores. Será que vou ter que reeducar meu cérebro e dedos para os novos dispositivos? Como fica o meu investimento no curso de datilografia? Não desanime, velho escriba, você já se desfez de outras habilidades obsoletas. Você sabia regular um carburador, lembra? O problema não é incorporar uma nova habilidade, mas ter que investir na sua aquisição para descartá-la logo adiante, substituindo-a por várias outras. Bem, vamos focar nas teclas. Vejam a seguir alguns prós e contras de cada dispositivo de digitação.

Teclado físico ABNT 2

Vantagens

  • Espaçamento confortável para digitação com 10 dedos.
  • Referências táteis para posicionar os dedos e sentir a digitação.
  • Mais de 100 teclas.

Desvantagens

  • Não dá para trocar de idioma (sistema de escrita).
  • Tem muitas peças móveis.
  • Acumula sujeira.
  • Precisa conectar com fio ou, então, requer bateria.

Teclado virtual para tablets

Vantagens

  • Dá para trocar de idioma (sistema de escrita) facilmente.
  • Sem peças móveis.
  • Não acumula sujeira.
  • Permite personalização de layout.

Desvantagens

  • Ausência de referências táteis.
  • Layout apertado em telas pequenas.
  • Ocupa área de tela.
  • Poucas teclas por conta do espaço reduzido.

Seria uma rabugice eu dizer que o teclado físico é melhor. Ele é apenas diferente do virtual e dá para fazer em um, tudo o que se faz no outro. Creio que soluções intermediárias como os tablets com teclado físico não vão prosperar. O mais provável é que o teclado virtual se imponha nos dispositivos móveis e os teclados físicos fiquem restritos a alguns contextos específicos de uso. Quem sabe no futuro os teclados holográficos se popularizem ou os comandos de voz nos façam esquecer definitivamente dos teclados. Em outras palavras: teremos que nos adaptar aos novos dispositivos continuamente. Mesmo entre os jovens será comum ouvir queixas sobre fadiga de novidade, afinal, a primeira vez é mágica, a segunda é interessante e da terceira em diante, oh, não lá vamos nós de novo.

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