Sentidos

O estudo do sentido em Lingüística tem uma dimensão filosófica, mas no momento o que vai nos ocupar é a distinção entre alguns tipos relevantes de sentido.

Sentidos próprio e figurado

Comumente afirma-se que certas ocorrências de discurso têm sentido próprio e sentido figurado. Geralmente os exemplos de tais ocorrências são metáforas. Assim, em ‘Maria é uma flor’ diz-se que ‘flor’ tem um sentido próprio e um sentido figurado. O sentido próprio é o mesmo do enunciado: ‘parte do vegetal que gera a semente’. O sentido figurado é o mesmo de ‘Maria, mulher bela, etc.’ O sentido próprio, na acepção tradicional não é próprio ao contexto, mas ao termo.

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A renovação da Retórica

É surpreendente a Retórica ter surgido pujante há mais de dois mil anos, numa época de parcos recursos de análise, que nem de longe se comparam aos que dispomos hoje. Mais surpreendente ainda é a hibernação milenar em que a Retórica ingressou após seu período áureo, mesmo sendo objeto de furiosa exegese e matéria de estudo das melhores cabeças por séculos.

Um fato é certo: a Retórica não está completa. Não se disse tudo que há para dizer e muito do que foi dito merece reparos. Considerando que matérias como a Lógica e a Lingüística, nascidas no mesmo berço que a Retórica, já atingiram o estatuto de ciência moderna, por que a Retórica não teve evolução relevante em tantos séculos? Por que só na segunda metade do século XX surgiram contribuições notáveis à Retórica?

Afinal, o que há de errado com a Retórica? Ela não é matéria digna de atenção? Algum preconceito esmagador paira sobre ela? A Retórica está intrinsecamente impedida de alcançar o estatuto de ciência?

Há quem diga que a evolução do conhecimento se dá por saltos qualitativos, por ruptura de paradigmas. Digo que isso é válido quando o conhecimento anterior tem alguma premissa refutável que abala suas fundações, o que me parece não ser o caso da Retórica. Mas há outros modos de progresso do conhecimento. Há o progresso por generalização, expurgo e também por desbravamento. É por essas vias que julgo possível um avanço do conhecimento da Retórica. Primeiramente generalizando-a,  não limitando-a à oratória da persuasão e do debate ou a mero apêndice da estética literária, mas estendendo-a até os seus limites naturais, o que inclui abordar desde o bate-papo no bar da esquina até o discurso filosófico mais denso, passando pelo jornalístico, didático, literário, etc.

Em segundo lugar, expurgar tudo que na Retórica venha de postulação estética ou moral e de tendências para a normatividade. Moral e estética sempre contaminaram a Retórica. Mesmo as tentativas mais recentes de revitalizá-la padecem desse mal.

E, finalmente, desbravamento. Nem todos os limites da Retórica foram demarcados. Há os que ainda não foram abordados.

Feitas as correções de rota necessárias, com certeza a Retórica ganhará novo  alento.

O escopo da Retórica

A Retórica ocupa-se dos meios formais que tornam a comunicação específica ou eficaz, tais como regras de uso ou supressão e formas construtivas, além de categorias relacionadas. É um conhecimento sobre essas categorias, suas características, funcionalidade, eficácia e excelência.

Para que a comunicação seja eficaz supõe-se que vise a objetivos preestabelecidos. A Retórica não estipula esses objetivos, eles devem estar colocados anteriormente para que a Retórica seja possível.

A Retórica ocupa-se tanto do que é específico, quanto do que é eficaz. A especificidade nem sempre leva à eficácia. Por vezes ela não é a adequada. Agora, se é eficaz, é específico.

A Retórica como estudo é a busca do conhecimento dos meios formais que tornam possível moldar o discurso ao que se pretende, se o que se faz é codificar, e de dispositivos de análise que permitam ver o que ele tem de específico, se o que se faz é decodificar.

Existe um outro modo de entender a Retórica, não como estudo, como conhecimento, mas como arte, a arte do discurso eficaz. Nesse sentido a Retórica não é uma arte do bem discursar, senão geralmente, pois às vezes, em dado contexto, a eficácia repousa justamente no discursar mal.

É bom lembrar que nenhuma arte prescinde do talento, de modo que não basta munir-se da melhor técnica para produzir o melhor discurso. A técnica é componente decisivo para o sucesso, mas insuficiente sem a excelência do talento.

Uma premissa básica permeará todo nosso trabalho: não existe discurso geral, básico, inespecífico, sem estilo, sem peculiaridades. Todo discurso tem uma finalidade específica. Existem discursos jornalísticos, didáticos, oratórios, publicitários, literários, argumentativos, etc. Assim, não há uma Retórica geral, uma receita do discursar para qualquer ocasião, mas há uma Retórica literária, outra jornalística, publicitária, oratória, argumentativa, etc.

A delimitação do campo

Delimitar o campo da Retórica é o mesmo que se embrenhar numa selva de senões, poréns e todavias e o resultado a pouco leva. Há matérias fazendo interface com a Lingüística, a estilística da língua, a Sociologia, a Psicologia, a Lógica, a Teoria Literária. Há matéria situada em terra de ninguém, apropriada por não haver quem a reivindique. Há matérias em litígio quanto à posse. O esforço aqui foi no sentido de restringir o escopo do estudo para que não se tenha a impressão de que a Retórica é uma matéria interdisciplinar.

A Retórica não deve ser vista apenas como um conhecimento sobre os recursos retóricos, ou sobre a arte da eloqüência e da persuasão, ou como um estudo a serviço exclusivo da literatura. Ela é tudo isso e um pouco mais e precisa se precaver a todo custo da normatividade, dos juízos estéticos, do moralismo e do compromisso com estilísticas, sejam quais forem.

O mito do discurso básico

Existe o mito de um discurso de referência, do grau zero da escritura, de um modo normal de discursar, de um jeito natural, da linguagem essencialmente não-literária, de um discurso inespecífico, sem estilo, sem Retórica, primário.

Inespecífica é a linguagem, massa plástica informe e potencial, que dentro de certas balizas se amolda aos objetivos a que se destina. Já o discurso, é a particularização, a atualização de uma potencialidade.

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O elenco de recursos

As definições compreensivas de recurso retórico são feitas tentando sempre se adequar a um elenco subentendido de ocorrências. O contrário não acontece: definir recurso retórico para só depois gerar o elenco. A tradição pressiona neste sentido, o que torna difícil, por exemplo, pensar em recurso retórico sem pensar em metáfora. Estabelecido o elenco de ocorrências, busca-se uma definição que enquadre todas as ocorrências elencadas.

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