É possível ficar milionário vendendo e-books

Para quem pensava que esse tal de e-book não ia dar em nada a notícia é que estão surgindo os primeiros autores milionários do ramo. Talvez o melhor exemplo da geração dos escritores digitais nativos seja Amanda Hocking, jovem americana (26 anos) que cansou de procurar um editor disposto a publicar seus romances “paranormais” na forma impressa. Desiludida com as portas fechadas das editoras tradicionais ela optou pela publicação independente de suas obras na Internet em formato e-book. Em pouco tempo ultrapassou a marca de um milhão de exemplares vendidos. Agora que a autora caiu no gosto do público jovem com suas histórias povoadas por vampiros, feiticeiras e outros entes sobrenaturais as portas se abriram e ela fechou contrato milionário com uma editora americana.


Veja também: Conjugador de verbos em Excel

Para provar que existe lógica em nossa língua resolvi criar um conjugador de verbos em Excel. Baixe a planilha e use no celular ou no computador. Download Assista ao vídeo, veja como a planilha funciona e entenda melhor o nosso sistema de verbos.

O exemplo de Amanda é um caso isolado, obviamente. Ficar milionário vendendo e-books independentes é para poucos. A maioria dos autores não vai sair da condição de duro intelectualizado, mas o consolo é que na época do livro impresso a vida do escritor era ainda mais complicada. A publicação digital permite edições independentes a baixo custo e ninguém mais pode se lamentar que não conseguiu publicar seu livro. Fazer sucesso, porém, é outra história. Quem sabe pegando umas dicas com Amanda Hocking ou Paulo Coelho que também mantém boas relações com as mídias digitais.

Como publicar um quase livro

O que é um livro? Digamos que é um texto longo, coeso, escrito por um autor, preparado e distribuído por uma editora e vendido em uma livraria. Como estamos em tempos digitais não importa qual mídia suporta o texto; pode ser papel, e-book reader, tablet ou voz gravada. No senso comum, livro é sempre um discurso longo que propicia algumas horas do leitura até ser assimilado. Longo quanto? Pelo menos umas 100 páginas ou 30.000 palavras, algo assim. Enfim, é a extensão e não a qualidade de um texto que o caracteriza como livro. Por razões diversas sempre houve dificuldade para autores publicarem em forma de livro textos de extensão intermediária, aqueles maiores que um artigo longo de revista e menores que um romance curto. A Amazon resolveu acabar com essa discriminação lançando o formato Kindle Single. Um Kindle Single é um texto de extensão média publicado em forma digital compatível com o e-book reader da Amazon. É um formato útil para uma série de propósitos como ensaios, novelas e manifestos, tanto que já foi chamado de panfleto digital. O preço de uma obra publicada no formato single será menor que o de um livro tradicional; na Amazon há obras ofertadas a US$ 0,99. Na cabeça das pessoas está arraigada a ideia de que o preço de um livro deve ser proporcional à sua extensão. Trata-se de uma mentalidade formada na era do livro impresso, afinal, livros com mais páginas consomem mais papel e recursos gráficos. Sinceramente, acredito que um livro, ou um quase-livro, vale pela qualidade de seu conteúdo independente de sua extensão, mas essa é uma outra conversa. A Amazon quer se posicionar em todos os segmentos e, por isso, criou o formato single. Se vai ser um sucesso teremos que aguardar para ver; espero que seja, pois quanto menos barreiras tivermos à circulação de ideias, melhor. Além do mais, o formato single é uma ideia digital e estou curioso para saber se o lado informatizado da indústria do livro vai assumir o controle da inovação do setor.

O Kindle single é um produto para a vida contemporânea escassa em tempo livre para leituras? As pessoas querem obras cada vez mais curtas? Qual o “comprimento” ideal para um livro? Primeiro vamos deixar claro que não falta tempo às pessoas. O dia continua tendo 24 horas e tudo é uma questão de prioridades. Alguns continuam lendo longos romances porque preferem uma convivência mais prolongada com o universo ficcional criado pelo autor. Basta lembrar que sagas como as de Harry Potter e O Senhor dos Aneis ocupam os jovens por longas horas de leitura sem que ninguém reclame pelo tempo gasto. Um livro deve ter o “comprimento” da ideia que veicula e, por isso iniciativas como a do Kindle Single são bem-vindas, afinal precisamos de formatos para todos os tipos de mensagens. Que ninguém fique sem dar seu recado por falta de canal de comunicação.

O rito de passagem da publicação

Vamos separar duas coisas distintas que nos dias de hoje cada vez menos acontecem juntas: divulgação e reconhecimento. Uma coisa é fazer uma obra chegar aos quatro cantos do país, outra é ser reconhecido como autor de talento.

No passado divulgação e reconhecimento costumavam andar juntos. Quando um autor era publicado por uma editora como a José Olympio significava que as duas coisas, divulgação e reconhecimento, estavam acontecendo ao mesmo tempo. A obra teria lugar nas estantes das boas livrarias e o simples fato de ser autor da JOE, valia mais como reconhecimento do que qualquer prêmio literário ou resenha positiva do crítico mais ranzinza.

A regra da publicação por uma editora de prestígio como parâmetro de reconhecimento do autor continua sólida. Uma obra lançada por uma editora renomada é notícia, tem noite de autógrafos, gera matéria na mídia. É um autêntico rito de passagem. Através de toda esta movimentação é que o autor consegue se posicionar no universo da produção cultural e é por ela que o leitor se informa sobre as obras de qualidade. Lembremos que reconhecimento é um dos poucos estímulos com que o autor conta para manter o ânimo de produzir.

Bem, estamos em uma era de sites, de livros eletrônicos,  de produção de livros barata e sob demanda, de comércio eletrônico, etc.. Em outras palavras, se o autor quiser, pode divulgar seu trabalho a baixo custo e com total independência. Estamos bem próximos de resolver os problemas logísticos da divulgação da obra. Mas como fica nesta nova realidade a questão do reconhecimento, pois, o autor de qualidade precisa ser reconhecido e o leitor precisa saber quem são os autores de qualidade. Que parâmetros teremos no futuro para avaliar a qualidade da informação que nos chega em enxurrada por inúmeros canais?

Quando um autor publica um site com sua obra ele se desvia do circuito editora, noite de autógrafos, resenhas na mídia, etc.. Sim, porque a resenha de sites ainda é incipiente. Aqueles parâmetros tradicionais de reconhecimento estão derretendo. Numa visão simplista poderíamos dizer que se o autor publicou em site então sua obra não era aquelas coisas. Mas nós temos Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Frederico Barbosa, Régis Bonvicino, Ferreira Gullar e vários outros, bem reconhecidos e com seus sites no ar.

Quando o sujeito que gosta de poesia vai a uma livraria média, encontra uns vinte ou trinta títulos para escolher, todos de autores que já passaram por vários crivos de qualidade. Quando o mesmo leitor faz uma busca com a palavra poesia na Internet recebe aquela avalanche de sites pela frente e tem que fazer a via crucis se quiser encontrar algo bom.

Aí está o desafio desta nova era da informação democratizada. Ela passa ao largo dos tradicionais filtros de qualidade do complexo ecossistema da cultura. Alguns desses mecanismos deveriam ser mantidos ou novos deviam ser criados para que seja possível o reconhecimento do autor, caso contrário chegará o dia em que nossas antenas só captarão ruído de fundo.

Edições esgotadas nunca mais

Se me perguntarem o que é melhor: livro de papel ou livro eletrônico, fico com os dois. Não porque me faça falta o doce contato sinestésico com a textura macia do sempre amigo livro. Da mesma forma não me considero um geek que adere a toda novidade tecnológica na primeira hora. Para que desejar o fim de uma ou outra mídia se ambas nos servem tão bem? A única coisa que lamento é que o livro eletrônico ainda engatinhe e vários problemas que ele resolveria ainda estão pendentes. Um desses problemas é o das edições esgotadas. Sugiro um teste aos leitores.

Logo abaixo há uma lista de vinte poetas brasileiros contemporâneos representativos que garimpei no site Jornal de Poesia. Não vou discutir a relevância da lista, mas  o que me parece evidente é que são 20 poetas de fato representativos. Escolhi uma lista de poetas para o teste dada a tradicional dificuldade de encontrar livros de poesia nas estantes das livrarias. Agora faça de conta que você é um interessado na poesia brasileira contemporânea que acaba de desembarcar no país. Você gostaria de conhecer os cinco livros mais importantes de cada poeta citado na lista. Ao todo você quer encontrar 100 livros. Faça uma busca pelas livrarias da sua cidade e veja o que encontra. Depois, tente outras táticas: vá às bibliotecas ao seu alcance, consulte as livrarias da Internet, contate diretamente as editoras ou percorra os sebos. Perceba que você vai se tornar praticamente um arqueólogo cultural. Será que no final da busca você conseguirá ultrapassar a marca de 50 livros? Eu fiz o teste numa das melhores livrarias aqui de Curitiba e encontrei 19 livros. Ressalvo que tamanho sucesso ocorreu porque dois autores da lista estavam presentes com livros de obra reunida. Se estivéssemos em plena era do e-book, que não se esgota, provavelmente eu não teria essa decepção além do que procurar na Internet é mais prático que peregrinar por livrarias, bibliotecas e editoras.

1º – Ferreira Gullar – 70 votos
2º – Ivan Junqueira – 56 votos
3º – Manoel de Barros – 56 votos
4º – Adélia Prado – 51 votos
5º – José Paulo Paes – 41 votos
6º – Haroldo de Campos – 41 votos
7º – Armando Freitas Filho – 40 votos
8º – Carlos Nejar – 40 votos
9º – Marly de Oliveira – 39 votos
10º – Augusto de Campos – 37 votos
11º – Affonso Romano de Sant’Anna – 37 votos
12º – Moacyr Felix – 37 votos
13º – Francisco Alvim – 36 votos
14º – Ruy Espinheira Filho – 36 votos
15º – Adriano Espínola – 35 votos
16º – Alexei Bueno – 33 votos
17º – Sebastião Uchoa Leite – 32 votos
18º – Lêdo Ivo – 30 votos
19º – Carlito Azevedo – 29 votos
20º – Bruno Tolentino – 28 votos

Quem jogaria um livro fora?

Contam que no auge do sucesso do livro Código Da Vinci a administração do metrô de Londres chegou a juntar mais de mil exemplares da obra na seção de achados e perdidos. Algumas teorias surgiram para explicar tamanho acúmulo de livros de Dan Brown. É mais perdido porque vende mais? Os exemplares foram abandonados por leitores frustrados com a qualidade da obra? Os londrinos largam livros lidos em locais públicos para que outras pessoas se beneficiem dos bens culturais? Deixando de lado as teorias engraçadinhas, temos que considerar a hipótese de que uma parte dos livros é simplesmente jogada fora após a leitura.

Não sei com que frequência livros são perdidos/abandonados/jogados fora no Brasil. Já vi algumas reportagens na TV mostrando lotes inteiros de livros didáticos em bom estado jogados no lixo. A desculpa esfarrapada dos responsáveis pelo descarte é que seriam edições desatualizadas. De qualquer forma, defasadas ou não, essas obras poderiam ir para a biblioteca ou, em último caso, para a reciclagem. A Editora Ediouro recebeu críticas recentemente ao propor que seus livros não vendidos fossem descartados pelas livrarias. Para comprovar a devolução do produto bastaria encaminhar pelo correio as capas das obras. Para não ficar falando apenas de casos lamentáveis vamos lembrar de projetos bacanas sobre “esquecimento” de livros. A ideia acontece em algumas cidades brasileiras e consiste em esquecer livros em locais públicos para que qualquer pessoa interessada possa lê-lo. Depois da leitura, o beneficiado deve esquecer o exemplar em local público para continuar o ciclo.

Fui educado para tratar o livro como um bem sagrado. Segundo a minha formação, livro deve ser cuidado com carinho, só pode ser emprestado a pessoas zelosas e como é um patrimônio deve ser passado de pai para filho. Talvez as pessoas estejam mudando sua percepção sobre os livros. Talvez o livro esteja se tornando um bem descartável como tantos outros. Tudo bem, não devemos ter apego fetichista a bens materiais. O que importa mesmo no livro é o seu conteúdo, o pensamento impresso nele. A mídia é transitória. Esse fato não justifica, porém, tratar livro como copo descartável. Aliás, o problema está em considerar qualquer bem como descartável, inclusive os copos.

Com o tempo, boa parte dos livros em papel será substituída por livros digitais, o que vai acabar com esse problema dos livros descartados. Só espero que os leitores não comecem a abandonar seus e-book-readers obsoletos nos bancos do metrô.